Aspectos destrutivos em figuras míticas femininas sob a ótica kleiniana

Introdução

“Tome cuidado para que ao se desfazer dos

seus demônios, você não se desfaça do

que há de melhor em você”

Nietzsche

Ao longo da história do movimento psicanalítico ocorreram viradas conceituais, nas quais se romperam cânones anteriormente vigentes. Sob esta perspectiva, a concepção kleiniana demarcou o lugar materno na gênese do psiquismo humano. Desse modo, Klein (2011) trouxe à cena psicanalítica a figura materna, apontando que em torno dela se organiza a mente em seus primórdios. Sendo assim, este trabalho pauta-se em pressupostos kleinianos, que propiciam uma aproximação à questão da destrutividade associada ao feminino. Além de traduzir os fenômenos psíquicos ligados à destrutividade, o sistema kleiniano permite integrar as ideias de diferentes autores que analisam este aspecto do psiquismo humano atribuido às figuras femininas míticas. Destaca-se, portanto, a relevância dessa teoria com relação à análise de mitos femininos, ao lado da abordagem psicanalítica clássica.

Determinadas figuras femininas míticas – em sua faceta de destrutividade – são examinadas em sua relação com a figura materna. Nesse sentido, as milenares ideias negativas acerca da figura feminina associam-se à figura materna, dadas as representações formadas acerca dela nos primórdios da constituição da psique, conforme o enfoque kleiniano.

Figurações do feminino

Entende-se, para fins desse estudo, por figurações ou personificações do feminino diversas figuras míticas femininas, assim como a gama de representações psíquicas e afetos relacionados a elas.

O feminino destrutivo nos mitos greco-judaico-cristãos

Dentro do campo de estudos sobre o tema, algumas figuras femininas se impõem no sentido de retratarem os aspectos ‘negros’ atribuidos histórico-socialmente ao feminino. Na tradição judaica, Lilith – primeira mulher de Adão – se insurge contra os desmandos de Deus e de Adão. Torna-se mãe de demônios, após sua abominação ter sido decretada por Deus. Na tradição judaico-cristã, a desobediência de Eva causa sua expulsão do paraíso, bem como a de Adão. E, mais, a partir de Eva dissemina-se o pecado pela humanidade, que se vê condenada à dor, ao suor e ao sacrifício. É interessante lembrar que Deus – com sua onisciência e onipotência – prevê a insubordinação de ambas. Por outro lado, Maria redime a humanidade de seus pecados, na qualidade de mãe imaculada de Jesus – dada sua virgindade (Sicuteri, 2007).

De acordo com Sicuteri (2007), Lilith é a matriz mítica básica, que se desdobra nas figuras gregas bem como na figura da bruxa. Lilith e seus avatares representam o medo humano diante de forças internas potentes e incontroláveis, que geram o conflito psíquico. Assim, há personagens míticas gregas, que configuram o feminino negro, o feminino demoníaco. As Hárpias, as Górgones, a Empusa – dentre outras – tem aparência aterrorizante, muito embora pudessem parecer belas também. São dotadas de terríveis poderes e causadoras de malefícios horríveis. Ao lado delas, Circe e as sereias são representadas como belas mulheres, que abarcam facetas femininas sedutoras e devoradoras dos homens.

As bruxas, com sua carga de sexualidade diabólica, povoaram o imaginário popular na Idade Média, sofrendo perseguições atrozes sob os tribunais da inquisição. Nas tradições judaico-cristãs há, pois, associações entre feminino-demônio-mal. Nos mitos gregos destacados, a beleza e a sedução femininas se revelam armadilhas para os homens, que os conduzem ao terror e às catástrofes. Conforme Leite (1991), Mezan (2019) e Sicuteri (2007), as bruxas serviram de veículo para a catarse das mazelas sociais na Idade Média. Neste entremeio, a questão da sexualidade e do mistério do feminino se mostram relevantes. Assim sendo, destacam-se aspectos importantes do Imaginário Cultural no que se refere ao feminino.

Representações psíquicas do feminino segundo a psicanálise

Estabelecida uma primeira perspectiva a respeito das figuras femininas míticas, impõe-se compreendê-las sob a ótica psicanalítica. Quanto a isso, os autores fornecem importantes referências para a análise das representações psíquicas do feminino, em seus aspectos destrutivos.

Em vista disso, Swain (1986) afirma que Freud inaugura uma nova dimensão com relação à histeria e ao corpo ‘histérico’. Com o advento da psicanálise, no século XIX, as manifestações histéricas são articuladas ao inconsciente, o corpo feminino é visto como corpo simbólico e não como mero veículo de forças indomáveis. Assim, Freud situa as dores e os ataques histéricos como derivados do psiquismo do sujeito. Segundo ele, seu estudo sobre a histeria representa uma retomada da questão da bruxaria. Dessa forma, a psicanálise reposiciona o lugar histórico do feminino perigoso, pois como considera Leite (1991, p. 13), a teoria freudiana sobre a histeria configura uma ‘revisão semântica da demonologia’.

No tocante a isto, Gay (2012) adverte que historicamente os homens temeram um poder oculto e misterioso nas mulheres. Referendando Gay, Leite (1991) aponta que a sobreposição das imagens do diabo, da mulher e do feminino fez com que a mulher fosse vista com temor ao longo dos tempos. Tanto Leite (1991) quanto Sicuteri (2007) pontuam que a perseguição histórica ao feminino se prestou a uma contra-reação ao mistério da feminilidade.

No que se refere à associação figura materna/feminina e destrutividade, outras considerações mostram-se pertinentes. Quanto a isso, Freud (1937) atribui à natureza, aspectos atemorizadores, violentos e destrutivos ligados à potência e aos poderes maternos. Ante este poder de destruição da natureza-mãe, a civilização cria recursos para se proteger dela. Para Mezan (2019), a natureza – ao significar a mãe – é vista como fonte de ameaças ao homem. Ele propõe que a civilização se protege do feminino mais radicalmente do que da agressividade e diz que a morte – representada como uma velha – está inscrita no feminino. As facetas devoradoras e sedutoras atribuidas à figura materna e ao feminino articulam-se à enorme carga fantasmática ligada às representações do ventre materno. Com relação à mãe, a fusão tão desejada pelo sujeito o jogaria na inexistência, deixando de ser diferenciado dela. Nesse sentido, Swain (1986) aborda a indiferenciação voraz vinculada às imagens do feminino, pois a perda da identidade – ligada à fusão – é vivida como devoração materna. Igualmente, Mezan (2019) discorre a respeito do poder feminino de criação e da atribuição de poderes perigosos e maléficos às bruxas. Assim, no pensamento freudiano aparece a intersecção dos conceitos de mãe-natureza-morte-feminino-mal e poder. Em consonância com suas idéias, Leite (1991) destaca a associação desejo-mulher-mal-demônio e a vinculação da mulher com forças ocultas, perigosas e obscuras em todas as culturas.

Assim como Mezan (2019), Monteiro (1990) reflete a respeito do poder feminino de criação, que evoca projeções da destrutividade masculina. Com relação a isso, o mistério da criação se concretiza de forma estranha na mulher, como se as marcas psíquicas da onipotência materna jamais se apagassem da mente humana. Também Levy (1989) questiona o mistério e a estranheza relativos a figura materna, visto que ela deixa indestrutíveis traços de memória no inconsciente.

Na trama de conceitos tecida pelos autores, alguns pontos se interseccionam. Constata-se a associação do feminino ao demônio e ao mal, de modo que o feminino se revela perigoso e inspira temor. Detendo-se mais especificamente na figura materna explicitam-se seus aspectos atemorizadores, violentos e destrutivos, bem como sua faceta de sedução e seus poderes de criação e de destruição. Por fim, cabe evocar a questão do poder das marcas psíquicas deixadas pela mãe na psique humana.

Estas ideias revelam pontos de congruência com aquelas relativas às figuras femininas míticas abordadas. Muito embora essas proposições se referendem entre si, apresentam-se de forma dispersa, sugerindo lacunas teóricas que podem ser articuladas a partir da abordagem kleiniana.

O aporte kleiniano

Certos conceitos do enfoque kleiniano permitem articular as proposições desses autores acerca das figuras femininas. Não obstante o feminino ter constituido um ‘continente negro’ para Freud (1926), este lança alguma luz sobre o tema.

Entretanto, Klein (2011) posiciona a figura materna sob novo prisma. Criticando a concepção falocêntrica de Freud, ela situa no seio o lócus para o qual se dirigem instintos, fantasias, angústias e defesas, que formam as primevas relações objetais do bebê. Após o nascimento, configura-se uma primeira forma de organização do mundo interno: a posição esquizo-paranóide. Nesta, o seio da mãe constitui um objeto parcial, ao qual se dirigem os instintos de vida e de morte do bebê. O seio é cindido em bom e mau, como resultado da projeção de impulsos amorosos e destrutivos sobre ele. A mãe, então, é vista como capaz de retaliar os impulsos destrutivos nela projetados. Assim constitui-se o terror persecutório nas primeiras e rudimentares relações com a figura materna. Os impulsos destrutivos do bebê projetados no seio materno geram excessiva ansiedade persecutória: temor de que os órgãos maternos – atacados na fantasia – retaliem-no. Decorre disso o deslocamento desses impulsos para outros objetos, que também causam angústia no bebê. Assim, se constituem certas representações simbólicas em substituição ao corpo materno. A partir disso, ocorre a formação de símbolos no bebê. Nesse sentido, ao corpo materno e à sua capacidade de gerar bebês se dirigem as vivências inconscientes mais essenciais: fantasias de criação e de ser continente de imensas riquezas. Dessa forma, surge a inveja masculina quanto aos processos geradores de vida na mãe-mulher.

Discussão

Retomando-se a proposta de investigar a destrutividade associada ao feminino com base na teoria kleiniana, algumas figuras femininas míticas foram selecionadas.

Entretanto, nos albores da psicanálise, a contribuição freudiana sobre o feminino se fez presente. Quanto a isso, Swain (1986) afirma que Freud inaugura uma nova dimensão com relação à histeria e ao corpo ‘histérico’, pois as manifestações histéricas são articuladas ao inconsciente e o corpo feminino é abordado como corpo simbólico. Segundo Freud, seu estudo sobre a histeria significa uma retomada da questão da bruxaria. A esse respeito, Leite (1991, p. 13) aponta que a teoria freudiana sobre a histeria configura uma ‘revisão semântica da demonologia’

Quanto à associação figura materna/feminina e destrutividade, Freud (1937) atribui à natureza, aspectos atemorizadores, violentos e destrutivos ligados à potência e aos poderes maternos. Ante esse poder de destruição da natureza-mãe, a civilização cria recursos para se proteger dela. Para Mezan (2019), a natureza – ao significar a mãe – é vista como fonte de ameaças ao homem. Sendo assim, a civilização se protege do feminino mais radicalmente do que da agressividade e a morte está inscrita no feminino. As facetas devoradoras e sedutoras atribuidas à figura materna e ao feminino articulam-se à enorme carga fantasmática ligada às representações do ventre materno. Além disso, a tão desejada fusão com a figura materna lançaria o sujeito na inexistência, mantendo-o indiferenciado de sua mãe. Nesse mesma linha de raciocínio, Swain (1986) aborda a indiferenciação voraz vinculada às imagens do feminino, pois a perda da identidade – ligada à fusão – é vivida como devoração materna. Igualmente, Mezan (2019) discorre acerca do poder feminino de criação e dos poderes perigosos e maléficos projetados nas bruxas. Ele aponta que, no pensamento freudiano os conceitos de mãe-natureza-morte-feminino-mal e poder estão associados. Por sua vez, Leite (1991) destaca a associação desejo-mulher-mal-demônio e a ligação da mulher com forças ocultas, perigosas e obscuras em todas as culturas.

Assim como Mezan (2019), Monteiro (1990) reflete a respeito do poder feminino de criação, que evoca projeções da destrutividade masculina. Desse modo, o mistério da criação se concretiza de forma estranha na mulher, como se as marcas psíquicas da onipotência materna jamais se apagassem da mente humana. Também Levy (1989) questiona o mistério e a estranheza relativos a figura materna, visto que ela deixa indestrutíveis traços de memória no inconsciente.

No tocante a isto, Gay (2012) adverte que historicamente os homens temeram um poder oculto e misterioso nas mulheres. Igualmente, Leite (1991) informa que a sobreposição das imagens do diabo, da mulher e do feminino fez com que a mulher fosse temida ao longo dos tempos. Leite (1991) e Sicuteri (2007) pontuam que a perseguição histórica ao feminino constituiu uma reação ao mistério da feminilidade. Sicuteri (2007) acrescenta que Lilith e seus avatares representam o medo humano diante de forças internas potentes e incontroláveis, que geram o conflito psíquico.

Na tradição judaica, Lilith – primeira mulher de Adão – se rebela contra Deus e Adão, tendo se tornado mãe de demônios. Na tradição judaico-cristã, a desobediência de Eva – associada à serpente/demônio – causa sua expulsão e a expulsão de Adão do paraíso. Além do mais, a partir de Eva dissemina-se o pecado pela humanidade e seu sofrimento se faz notório. Em contrapartida, Maria redime a humanidade de seus pecados – dada sua virgindade. Dentre as personagens míticas gregas, que configuram o feminino negro, o feminino demoníaco, as Hárpias, as Górgones, a Empusa, ora tem aparência aterrorizante, ora são bastante belas. Junto com elas, Circe e as sereias são mulheres belas, sedutoras e devoradoras dos homens. Seus terríveis poderes causam malefícios horríveis a eles. Portanto, nas tradições judaico-cristãs há a associação entre feminino-demônio-mal. Nos mitos gregos, a beleza e a sedução femininas consistem em armadilhas para os homens, que os conduzem ao terror e às catástrofes. E, mais, as bruxas, com sua carga de sexualidade diabólica, foram abordadas por Leite (1991), Mezan (2019) e Sicuteri (2007) como depositárias das mazelas sociais na Idade Média.

Na trama de conceitos tecida pelos autores, aparece a associação do feminino ao demônio e ao mal, de modo que o feminino se revela perigoso e inspira temor. Detendo-se mais especificamente na figura materna explicitam-se seus aspectos atemorizadores, violentos e destrutivos, bem como sua sedução aliada a seus poderes de criação e de destruição. Por fim, cabe evocar a questão do poder das marcas psíquicas deixadas pela mãe na psique humana.

Considerações finais

Expostas as concepções dos autores, certos elementos teóricos convergem em direção a alguns pontos nodais. Nestes, fica patente seu diálogo com os conceitos kleinianos, revelando-se, assim, sua adequação ao tema.

A questão das marcas psíquicas deixadas pela figura materna no psiquismo são referendadas pela teoria kleiniana, entre outras. Nessa linha de raciocínio, as primeiras vivências do bebê com a mãe constituem o paradigma mental fundante das relações de objeto posteriores. Com relação às divisões maniqueístas fada-bruxa, mãe-madrastra, santa-prostituta, Eva-Virgem Maria, entre outras, salta à vista o mecanismo da cisão. Como fenômeno inconsciente, a cisão decorre da força insuportável dos impulsos destrutivos, que, em consequência disso, são projetados no objeto externo/seio. Dada a angústia deflagrada pelos ataques ao objeto materno, o impulso de morte é deslocado para outros objetos, como as figuras míticas mencionadas.

Os autores arrolados apontam um predomínio de facetas maléficas e destrutivas nas representações do feminino. Quanto a isto, a teoria kleiniana destaca a exacerbação do impulso de morte nas primeiras vivências infantis, de forma que a projeção dos impulsos destrutivos pode se sobrepor a de impulsos amorosos. Com base nisso, compreende-se a negatividade das figuras femininas destrutivas na mitologia greco-judaico-cristã e o temor da figura feminina, presente na cultura ao longo dos séculos. Visto que o temor persecutório de retaliação materna é deslocado para outros objetos, as referidas figuras femininas são suas depositárias. Sendo a cultura oficial masculina, os aspectos destrutivos são depositados predominantemente naquelas figuras. Além disso, a força da sexualidade e do mistério do feminino se destacam no Imaginário Cultural de diferentes épocas.

O ódio, a inveja e a rivalidade para com a figura materna não são, entretanto, patrimônio exclusivamente masculino. Igualmente, as mulheres podem renegar seus aspectos femininos, que juntamente com a rejeição masculina relativa a eles, levam a se pensar no repúdio a feminilidade, uma notável característica da vida psíquica dos seres humanos – enunciada na produção teórica freudiana. Parece, assim, plausível interligá-lo às primeiras vivências com a figura materna, conforme a teoria kleiniana. A intensidade dos impulsos destrutivos, os mecanismos de cisão e projeção desses impulsos, bem como as angústias terroríficas referentes à figura materna são postulados kleinianos, que permitem conceber as figuras femininas míticas – em sua destrutividade – como vertentes da figura materna. Dessa forma, o córpus teorico kleiniano permite integrar as ideias de diferentes autores que analisam este aspecto do psiquismo humano. Enfim, esse enfoque não só é apropriado à análise do feminino destrutivo nos mitos greco-judaico-cristãos, como apresenta maior adequação teórica – quanto a esse tópico – do que a perspectiva freudiana.

Referências

Almeida, M.E.S. Revisitando o feminino: Pelo avesso da cultura. Mudanças: Psicologia da Saúde, 27 (1), 74-94, 2019.

Freud, S. (2006). A questão da análise leiga. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. Trabalho original publicado em 1926.

Freud, S. (2006). Análise terminável e interminável. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. Trabalho original publicado em 1937.

Gay, P. (2012). Freud, uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras.

Klein, M. (2011). Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Leite, M.P.S. (1991). O Deus odioso: representação do mal. São Paulo: Escuta.

Levy, G. Mysterious mother. On reality. Psychanalystes. 31(1), 77-78, 1989.

Mezan, R. (2019). Freud, pensador da cultura. São Paulo: Brasiliense.

Monteiro, M.P. (1990). Mulher profissão mulher. Petrópolis: Vozes.

Sicuteri, R. (2007). Lilith, a lua negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Swain, G. (1986). O feminino: Aproximações. Rio de Janeiro: Campus.

Maria Emilia Sousa Almeida
Enviado por Maria Emilia Sousa Almeida em 13/05/2021
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