TERREMOTOS E MAREMOTOS

Catástrofes naturais já aconteciam muito antes de o homem habitar nosso planeta. Desde que a terra é terra ocorrem abalos sísmicos, terremotos, deslizamentos de terra, maremotos, tsunamis, enchentes, tufões, tornados, chuvas torrenciais, granizos, erupções vulcânicas... Tudo isto é fenômeno natural. Para o homem estes acontecimentos, muitas vezes, resultam em tragédias. Entre as tantas tragédias que vivenciamos no decorrer da vida, neste dia 25/04/2015 ocorreu mais uma: o terremoto de Katmandu no Nepal.

Diante das muitas catástrofes naturais vivenciadas pelo homem em sua história, muitas vezes o ser humano se perguntou, e se pergunta, a partir de suas crenças, filosofias e conhecimentos científicos, o porquê destas calamidades. Ainda mais quando se acredita existir um Deus bondoso, misericordioso, onipotente, e que quer o bem de suas criaturas. Por que este Deus permitiria tanta tristeza e desgraça para os homens? Seria castigo?

Na busca de respostas, a literatura religiosa, filosófica e científica, muitas vezes, não passa de conjeturas míticas: o dilúvio, Sodoma e Gomorra, culpa do homem, impossibilidade da razão humana em compreender os desígnios de Deus, e os mistérios da natureza...

Segundo os teólogos e filósofos otimistas, Deus criou o melhor dos mundos possíveis, mas o homem desconhece as leis que regem este mundo. Outros pensadores afirmam a inexistência de Deus, ou se orientam por uma filosofia deísta, pela qual não negam a existência de Deus, mas acreditam que Deus é o arquiteto do universo, que criou o universo e suas leis, e desde então não interfere mais em sua criação. Deus teria dado ao homem a razão com a qual pode pesquisar e conhecer a natureza, organizando-se de acordo com as leis inerentes a esta natureza. Com este conhecimento poderia se prevenir frente às poderosas movimentações da natureza.

De acordo com estas compreensões mais otimistas, ou mais pessimistas; mais crentes, ou mais descrentes; mais míticas, ou mais científicas; mais livres, ou mais preconceituosas, já surgiram na história ocidental vigorosas polêmicas entre religiosos, filósofos e cientistas. Uma das mais significativas para os tempos modernos foi a polêmica entre Voltaire e Rousseau, quando do terremoto de Lisboa, em 1755. Este terremoto, seguido de maremoto, devastou Lisboa, afetando outras localidades de Portugal e o norte da África, matando, segundo algumas informações, entre 50 a 100 mil pessoas.

Em relação a este terremoto, Voltaire escreveu um poema, questionando a Providência Divina, a misericórdia e a bondade do Deus criador, que, segundo o filósofo Leibniz teria criado o melhor dos mundos possíveis. Neste seu escrito, Voltaire se pergunta: que Deus bondoso é este que envia um terremoto por cima de um povo justamente na hora (09:30 h) em que a maioria do povo católico de Lisboa estava nas igrejas, louvando este mesmo Deus, no Dia de Todos os Santos (1º. de novembro)?

Deus estaria castigando Lisboa? E as crianças inocentes que pereceram aos milhares? Que Deus era este que assim castigava seus fiéis?

Frente a estes questionamentos, o filósofo Rousseau contestou a Voltaire, explicando que Deus nada tinha a ver com estas catástrofes naturais. A catástrofe que se havia abatido sobre o povo de Lisboa era fruto da arquitetura absurda da cidade, e da ignorância do povo em relação às leis da natureza. Quem mandara construir casas tão perto do rio e do mar, com tal arquitetura?

Além desta polêmica entre filósofos, houve também religiosos que atribuíram a tragédia de Lisboa aos pecados dos lisboetas. Segundo estes, teria sido castigo de Deus. Frente às considerações dos religiosos, surgiram logo questionamentos: como entender que em Lisboa, justamente numa das ruas com maior índice de prostituição, as casas haviam permanecido intactas? Ou que em Londres e Paris se dançasse mais do que em Lisboa, e nestas cidades “pecaminosas” nada tivesse ocorrido?

Polêmicas semelhantes se multiplicam até nossos dias, e voltam a ser propostas toda vez que ocorrem catástrofes naturais. Embora existam múltiplas explicações e conjecturas possíveis, o mais adequado é deixar Deus, ou poderes transcendentes, fora de tais polêmicas.

Muitas destas catástrofes poderiam ser minimizadas se o homem se prevenisse e respeitasse as leis da natureza. Nem sempre o homem se lembra de que ele apenas é uma mínima manifestação da natureza, e a natureza, de que faz parte, é muito mais poderosa e misteriosa do que ele. Por isto, a necessidade constante de maiores conhecimentos ecológicos e ambientais para nos adequarmos às poderosas manifestações da natureza. Muitas vezes manifestações catastróficas para o homem, mas para o planeta terra apenas movimentações em seu ciclo natural de viagem pelo universo.

Inácio Strieder é professor de filosofia – Recife/PE