V E A D O

 

O veado é um dos animais que geralmente se sai mal nas fábulas e contos da literatura infanto-juvenil.

Uma delas – O Veado e a Onça – é bem nacional. Criada pelos cineastas Cláudio Galperin e Cao Hamburger, foi recontada, em livro, por Ana Maria Machado e adaptada em vídeo-animação de curta metragem por Raquel Pedreira.

Na versão do livrinho a história se passa assim:

“Há muitos anos, um veado resolveu construir uma casa e foi logo achando um terreno bom, perto do rio. Trabalhou o dia inteiro e, cansado, voltou para casa dos pais para dormir. Na mesma noite, uma onça apareceu por lá e resolveu fazer sua casa no mesmo local! Trabalhou a noite inteira e foi descansar na casa de seus pais. Durante o dia o veado trabalhava e, à noite, a onça. Tudo isso até o dia em que a casa ficou pronta; os dois decidem morar juntos, já que construíram a casa juntos... será que isso vai dar certo?”

Já no filme de Raquel Pedrosa, baseado no texto original, a mesma história envereda por outro caminho:

“Sendo Veado bicho de hábitos matutinos e Onça bicho de hábitos noturnos, juntos, constroem uma casa. Veado, devoto de Santo Antoninho, acredita estar sendo ajudado pelo santinho. Onça, devota de Padre Cícero, acredita estar sendo ajudada pelo Padim. Com a casa pronta, os dois se mudam e descobrem que a construíram ao mesmo tempo. Vai daí que resolvem morar juntos e dividir as tarefas”.

 

Nas quatro fábulas de Esopo, em que o veado figura como personagem principal, o coitado sempre se sai mal e morre nas mãos de caçadores ou de outra fera, ao tentar escapar da morte. Vejam esta, por exemplo:

 

“Um veado, fugindo de caçadores, chegou à entrada de um antro onde estava um leão. O veado entrou ali para se esconder, mas foi apanhado pelo leão e, enquanto este o matava, ele dizia: “Como sou infeliz, eu que, fugindo dos homens, joguei-me a uma fera.”

Moral da história: Assim, alguns homens, por medo de pequeno perigo, atiram-se eles próprios a outro maior.


Extinto em alguns pontos da Terra e ameaçado de extinção em outros, esse animal vive em regiões de clima temperado, na Europa, Ásia, Nova Zelândia, Norte da África e América. Geneticamente é classificado como mamífero, da família dos cervídeos.


É herbívoro, alimentando-se de folhas, brotos, frutos, sementes e líquenes (organismo formado por fungos). Possui hábitos crespucular/noturnos. Sua gestação é de 225 dias (9 meses), produzindo um filhote de cada vez, como ocorre com os humanos. O nascimento dos filhotes se dá em locais e épocas em que existe maior oferta de alimentos, no final das enchentes do Pantanal ou após as queimadas naturais, quando ervas, gramíneas e arbustos começam a rebrotar.

Os machos possuem esgalhos ou galhadas no crânio que se renovam anualmente e que servem de armas nos combates contra outros machos e auxiliam no momento do acasalamento.

A hierarquia social é determinada através de disputas nas quais os machos empurram seus adversários com os chifres, numa prova de força. Esta disputa embora não tenha por objetivo atravessar o corpo do adversário, pode causar perfurações. No entanto, é comum a quebra de algumas pontas dos chifres.

Normalmente o veado é solitário, mas, dependendo da espécie, anda em pequenos grupos.

Extremamente ágil, pode correr a 70 km/h e pular obstáculos sem diminuir a velocidade. Os saltos são suficientes para cruzar pequenos rios; quando não é possível, atravessam a nado com facilidade.

Há várias espécies ameaçadas de extinção pelo fato de sua carne ser considerada uma especiaria.

 

A maior espécie existente na América do Sul é o cervo-do-pantanal, que mede cerca de dois metros de comprimento e pesa trinta quilos, enquanto que as demais espécies são cinquenta centímetros menores, mas podem chegar a 40 quilos, com até um metro de altura.

 

No Cerrado Brasileiro, as espécies mais conhecidas são o Veado-mateiro (Mazama americana), o Veado-catingueiro (Mazama gouazoupira) e o Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus).

 

Nesta região, alimenta-se essencialmente de gramíneas, não competindo com as gramíneas preferidas pelo gado, pois come ervas medicinais como o alecrim-do-campo, o assa-peixe, o capim-favorito e as vagens de barbatimão, muito comuns na área.

Pesquisadores comprovaram que o Veado Campeiro, bem como as demais espécies que vivem no Centro-Sul do Brasil, encontram-se com sua população bastante reduzida por causa da caça, da febre aftosa (transmitida pelo gado), das queimadas e da perda do habitat natural, decorrente da ocupação agropecuária do Cerrado e dos Pampas. No Distrito Federal, onde o crescimento populacional desordenado do Entorno e dos condomínios locais fugiu ao controle administrativo, o acúmulo de lixo, o tratamento inadequado do solo e estradas destroem os corredores ecológicos e ameaçam os únicos refúgios desta e de outras espécies da região. Em 18 de maio de 2003, o Correio Brasiliense publicou matéria sobre a degradação ambiental, fazendo uma denúncia importante e esclarecedora a respeito do assunto.

Transcrevo aqui um trecho da reportagem para que os leitores percebam a gravidade da situação:

“As três principais unidades de conservação do Distrito Federal — Parque Nacional, Estação Águas Emendadas e Área de Proteção Ambiental Gama/Cabeça-de-Veado — estão se tornando ilhas inóspitas onde a fauna e a flora tentam resistir às ameaças de extinção. O bicho homem, com seus condomínios, lixos e carros, rouba a liberdade de ir e vir de mamíferos, répteis, insetos e pássaros. Impede, ainda, as trocas genéticas entre as plantas”.

De lá para cá, a situação piorou e muito. Mais grave ainda é que a maioria das medidas propostas por técnicos para contenção e recuperação do solo, da vegetação e dos mananciais esbarram nos conhecidos interesses pessoais e eleitoreiros, caindo no vazio. 

A despeito disso, existem aqui e ali ações para preservar esse mamífero como, por exemplo, a notícia do nascimento, em 07 de abril de 2007, de um veado muntjac da China albino, o segundo exemplar da espécie no mundo com essas características, no Dusit Zoo, em Bangcoc, Tailândia. A novidade, guardada a sete chaves durante quase dois meses, só foi divulgada pela imprensa em 29 de maio. Tudo porque se trata de uma especialidade: é um veado albino, que só pode ser encontrado nas selvas da Índia, China e Indonésia, como uma agulha no palheiro. Ele é conhecido pelo chiado que emite quando se sente acossado, muito semelhante ao latido de um cachorro.

Também aqui, conforme noticiado recentemente pela Agência Brasil – Abr,foi identificada outra espécie rara e ameaçada de extinção. Trata-se do Bororó-de-São-Paulo (Mazama bororo). O trabalho de identificação foi desenvolvido pelo médico-veterinário e doutor em genética, José Maurício Barbanti Duarte, do Departamento de Zootecnia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), da Unesp, campus de Jaboticabal. O exemplar, recolhido ao zoológico de Sorocaba (SP), deve ter seu registro homologado pelo Ibama simultaneamente à entrada na lista oficial de animais ameaçados de extinção, organizada pelo próprio instituto.

Se você que lê meus textos, vem meditando sobre a sobrevivência da fauna e da flora da sua região, que estão intimamente vinculadas à sua própria sobrevivência e a de seus descendentes, sugiro que siga o conselho de São Francisco de Assis:

“Comece fazendo o que é necessário; depois o que é possível e, de repente, você estará fazendo o impossível.“

 

Sandra Fayad Bsb
Enviado por Sandra Fayad Bsb em 19/10/2007
Reeditado em 01/01/2021
Código do texto: T701146
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