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RELAÇÕES VINCULARES

Afetividade

DUARTE, Bento José¹

RESUMO:
Professores estão ficando doente; a grande reclamação é a indisciplina, a falta de controle dos educandos, os quais, aparentemente perderam a noção de limites. Estamos em tempo de guerra, onde  as escolas parecem campo de batalha, e a violência se tornou constante. Diante destes fatos, nota-se que o grande desafio do processo educacional está em conquistar o educando. A geração de vínculos, a manifestação de afetividade diante da carência dos educandos que se utilizam da indisciplina como um grito de socorro. Esta parece-nos ser a situação atual. Neste sentido, este artigo teve como objetivo buscar  compreender a importância da afetividade e sua influencia no combate à indisciplina, através da leitura de teóricos e do desempenho prático com realização de trabalhos junto a educandos e educadores da Escola Municipal Pingo de Gente, através de encontros semanais. Não há uma formula mágica para romper com este circulo vicioso de indisciplinas, mas sugestões para, se não vencê-la, pelo menos minimiza-la. Educadores que se identificam e se deixam identificar pelos educandos são educadores que logram êxito em sua missão de educar, transmitir e adquirir conhecimentos. Faz-se urgente a mudança de conduta para que possa haver uma aprendizagem significativa e prazerosa.

PALAVRAS-CHAVE: geração de vínculos; afetividade; indisciplina.



ABSTRACT:
Teachers are getting sick, the great complaint is the indiscipline, the student’s lack of control, who apparently lost the limit notion. We are in time of war, where the schools look battle field, and the violence became constant. In front of there facts, it observes that the big challenge of educational process is in conquering the student. The generation of bonds, affection demonstration faced with the students’ lack that uses the indiscipline as a help yell. This seems us to be the present situation. Thus, this paper aims to seek to understand the importance of affect and its influence in the fight against indiscipline, through the reading of theoretical and practical performance in conducting studies with the students and staff of the Municipal School Pingo de Gente, through meetings weekly. There is no a magic formula to break off with this vicious circle of indisciplines, but suggestions to, if it does not win it, at least it minimizes it. Teachers identify themselves and let identify by the students, they are teachers get success in their mission of educating, transmiting and acquiring know ledges. It makes urgent the changing of the conduct in order to having a significative and pleasurable learning.

KEYWORDS: generation of bonds; affection; indiscipline.

1 INTRODUÇÃO
Por todos os lados, dentro do contexto escolar, ouvimos falar com frequência que os professores já não aguentam mais; estão adoecendo, entrando em licença. Acusa-se, com grande frequência, a indisciplina dos alunos, o que também aparece como responsável pelo baixo rendimento escolar.

Para procurar compreender o que se passa em nosso tempo no que diz respeito ao processo educacional, buscaremos abordar o tema de forma neutra, como pesquisador, buscando, assim, encontrar um caminho que possa vir ao encontro do anseio de muitos educadores. E para tratar do assunto, recorremos ao desenvolvimento de projeto de estudo junto a coordenadores e educadores da Escola Municipal Pingo de Gente, no município de São Gabriel do Oeste – MS, assim como a pesquisas bibliográficas.

Não objetivamos uma resposta ou proposta definitiva, miraculosa, tendo em vista que cada unidade escolar é uma realidade e cada educando tem sua realidade distinta da de outros, mesmo dentro de uma mesma unidade. Objetivamos, sim, apresentar o problema e mostrar que é possível, se não superá-lo por completo, ao menos amenizá-lo.  Assim sendo, abordaremos a situação vivida pela maioria de nossas entidades escolares, a saber, a indisciplina, o esgotamento profissional, abordando a geração de vínculos como uma possível saída para a “crise educacional”.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEORICA

O professor está doente. Podemos mesmo afirmar que estamos diante de uma doença ocupacional, tendo em vista seus principais motivos: excesso de burocracia; indisciplina em sala de aula; apatia por parte dos educandos; violências verbais e morais. Conforme Lima (2005), “a indisciplina em sala de aula assumiu tais proporções que muitos professores estão com medo dos alunos; os professores estão sofrendo de fobia escolar” (Revista Veja, edição 1904. 11 de maio de 2005).

Conhecer história de vida dos educandos é fundamental para compreender as atitudes e reações destes no contexto escolar. Toda indisciplina, assim como todos os tipos de comportamentos apresentados pelos educandos demonstram parte de sua história além, muros escolares. Assim sendo, é possível fazer da indisciplina uma aliada no processo educacional, tendo este processo não apenas transmissão de conhecimentos da grade curricular, mas também conhecimentos de vida voltados para a prática.

A cada ano surgem novos desafios, e o maior deles, provavelmente, é conquistar a turma, fazê-la produzir mais que o esperado, criar condições para que todos aprendam. Diante disto está o desafio do educador: conhecer seus alunos, suas realidades, iniciando o trabalho a partir de seus saberes, buscando a atenção da classe, ao mesmo tempo em que ele, profissional da educação, dê a atenção devida ao todo e a cada um em particular, principalmente se na sala se encontra alunos que inspiram maior atenção.

A aprendizagem precisa ser significativa para o educando, de forma que este se atenha ao que lhe é ensinado, e conhecendo sua classe, o professor se torna capaz manter a ordem, transmitir saberes e ser acolhido por seus educandos. É necessário manter a ordem, manter a autoridade sem ser autoritário.  O processo educacional tem por objetivo “criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas e não simplesmente refletir o que outras gerações fizeram – homens que sejam criadores, inventores e descobridores” (PIAGET, apud PADESPIEL, 2003, página 22). Este seja, talvez, o maior desafio de nossos tempos, e para alcançá-lo precisamos de educadores que tenham autoridade ao mesmo tempo em que possuam alma materna de carinho e proteção.

Neste contexto, faz-se necessário o conhecer para aprender e o aprender para ensinar. Isto irá acontecer onde a autoridade não for imposta, mas conquistada. A melhor maneira para que isto aconteça é quando o educador “ganha tempo” durante o recreio observando e conversando com seus educandos, buscando a criação de um vinculo afetivo, visto que, “quando há relacionamento de afeto e um professor atencioso, qualquer caso pode ser revertido em pouco tempo.”(ZAGURY, apud GENTILI, 2002. Em: http://revistaescolabril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/indisciplina-como-aliada-431399.shtml.  Acesso em 15 maio 2012).

Conforme Chalita (2004, p.11), “o ato de educar não pode ser visto apenas como um depositar de informações nem transmitir de conhecimentos. Há muito mais formas de transmissão de conhecimentos, mas o ato de educar só se dá com afeto; só se completa com amor”.
Assim como cita Jambo (2012),

Quando o professor é visto aos olhos das crianças como um ídolo, isto é muito bom, porque de alguma forma acaba facilitando a comunicação entre ele e elas. O bom professor deve sempre observar seu comportamento e perceber que o correto é ser, diante de seus alunos, pessoa capaz de transpor qualquer barreira para que eles progridam cada vez mais. Ele deve criar, em sala de aula, afetividade e conduzir a aprendizagem dos alunos de modo que se tornem capazes de atingir melhor desempenho. ( JAMBO, 2012. Em: http://recantodasletras.com.br/artigos/371481. Acesso em 03 julho 2012).

O professor é a referencia, é o modelo, o exemplo a ser seguido. Exatamente por isto, afirma Chalita (2004), o pouco que fizer afetuosamente; uma palavra, um gesto, será muito para o aluno com problemas. Chalita (2004) afirma ainda que: “o professor que chama o aluno pelo nome, que repara algum novo detalhe, uma roupa, um novo corte de cabelo, realiza pequenos gestos de atenção que quebram barreiras e fertilizam o terreno da amizade entre ambos.” (CHALITA, 2004 – p.153).

Para obtenção de seus objetivos junto aos educandos, o professor precisa se tornar amigo destes. Conforme Chalita (2004), “se o professor for amigo verdadeiro, terá todo respeito, porque um amigo respeita o outro”. (CHALITA, 2004 – p.149). Isto significa dizer que como todo ser humano, o aluno precisa de afeto para se sentir valorizado. Ele precisa de atenção, de amor e respeito. Conforme Chalita,

O aluno não é uma tábua rasa, sem nada, em que todas as informações são jogadas. O aluno é um gigante que precisa ser despertado. Todo e qualquer aluno tem vocação para brilhar. É um ser humano e, como tal, possui inteligência, potencial; se for orientado, acompanhado por educadores conscientes de seu papel, poderá produzir, crescer e construir caminhos de equilíbrio, de felicidade. (CHALITA. 2004 – p. 258)

É bem verdade que a indisciplina apresenta-se como a grande vilã, a responsável por educadores deprimidos, desanimados e mesmo com fobia de escola. É tida como a responsável pelo fim da motivação da maioria de nossos educadores, em particular os mais antigos, já próximo da aposentadoria.  Conforme Chalita (2004):

O aluno está sujeito de todo tipo de comparação e contra ele paira a pecha de indisciplinado, rebelde, alienado, fruto natural da inquietação juvenil. Em verdade, o aluno precisa de orientação, precisa de lideres que possam conduzi-lo a caminhos razoáveis de desenvolvimento pessoal. Para isso a autonomia tem de ser respeitada; a experiência que cada aluno traz de seu universo pode ser um laboratório espetacular para o professor. As histórias de vida servem como sinalizadores do potencial que o aluno possui. ( CHALITA, 2004 – p.137)

Diante do exposto, percebe-se que é possível mudar esta história; é possível fazer da indisciplina uma grande aliada. Para tanto, não basta culpar os educandos; é preciso se aproximar destes, conhecer suas historias de vida; vencer barreiras, e mostrar que se está disposto a ser um amigo, um (a)  irmão (ã) mais experiente e que pode ajudar. O que se percebe é que por trás dos atos indisciplinares está um pedido de socorro. Percebe-se que esta geração não aceita ser apenas conteudista; querem ir além. Não querem um professor que entra na sala apenas para encher o quadro ou ler um conteúdo que para o educando não o satisfaz e se apresenta como algo distante de sua realidade. Esta geração quer mais que isto.

Não significa não cumprir a grade escolar, mas mudar a forma de apresentar e cumprir o conteúdo programado. É necessário que nossos educadores também aprendam a ouvir e perceber que os educandos não são cofres onde depositamos nossos conhecimentos, mas são também portadores de conhecimentos, e que educar é troca de conhecimentos Assim sendo, percebemos que a autoridade já não é mais imposta, mas sim conquistada, construída. A imposição da autoridade sobre ameaças já não assustam os educandos; porém a autoridade construída faz a diferença, marca a vida destes.

A titulo de ilustração, apresentaremos pontos que diferenciam o professor autoritário do professor com autoridade. Segundo Gentile (2002), enquanto o primeiro exige silêncio para ser ouvido; pede tarefas descontextualizadas; ameaça e pune; quer que a classe aprenda do jeito que ele sabe ensinar; quer apenas passar conteúdo e vê o aluno como um a mais, o professor com autoridade conquista a participação com atividades pertinentes; mostra os objetivos dos exercícios sugeridos; escuta e dialoga; procura adequar os métodos às necessidades da turma; adapta os conteúdos aos objetivos da educação e à realidade do aluno; e vê o aluno como um ser humano.
 
Pensamos estar aqui parte da resolução do problema de indisciplina; esta linha tênue pode ser a responsável pelo êxito e/ou fracasso do educador no que diz respeito a indisciplina. É necessário que o educador desempenhe seu papel, o que inclui a disposição para dialogar sobre objetivos e limitações e para mostrar ao aluno o que a escola, e por consequência a sociedade, esperam dele.

Mas afinal a indisciplina é bagunça ou inquietação? Educandos que não param no lugar, gritam, provocam, jogam bolinhas de papel, que tudo isto significa? Para Cintia Copit freller (2002), professora de psicologia escolar do Instituto de Psicologia da USP, “a indisciplina é uma das maneiras que os educandos têm de comunicar que algo não vai bem”. O truque, afirma Freller, é transformar a contestação em aliada, dando atenção ao educando e o ajudando a entender o que o incomoda.

2.1 Liderança

 “O professor na sala de aula é um líder, pois procura influenciar os seus alunos para que estes se interessem pelas aulas, estejam atentos, participem, apresentem comportamentos adequados e obtenham bons resultados escolares” (JESUS, 2008 – p.21). Diante da afirmação de Saul Neves de Jesus, passaremos a analisar os principais fatores que levam o professor a influenciar seus alunos. Destacamos aqui a identificação do aluno com o professor, isto é, o reconhecimento por parte dos educandos de qualidades do professor que eles apreciam. No entanto, muitas vezes há uma insatisfação recíproca entre estes e aqueles. Isto ocorre porque o “docente privilegia na representação do aluno os aspectos cognitivos, enquanto o aluno privilegia na representação do professor os aspectos afetivos e relacionais” (Gilly apud Jesus). Para solucionar o impasse, torna-se necessário que os educadores se aproximem das necessidades relacionais e de desenvolvimento dos alunos, buscando influenciá-los ou motivá-los para o alcance dos objetivos da educação escolar no plano cognitivo. Se, por um lado, no passado o educando tinha que se adaptar aos métodos do educador, atualmente torna-se necessário que este se abra e vá ao encontro dos interesses e linguagens daquele, sendo flexível e dando o exemplo.

Para potencializar a criação de “laços” com os alunos e a motivação destes, os professores devem evitar o distanciamento, a “neutralidade afetiva” e o autoritarismo. Devendo, ao contrario, fomentar uma “relação de agrado”, caracterizada pelo dialogo, pela negociação e pelo respeito mutuo. Os professores possuem um instrumento fundamental para conseguirem criar laços de identificação com os alunos, influenciando-os: a linguagem utilizada na relação pedagógica, quer verbal, quer não verbal. (RIBEIRO, 1991, apud JESUS, 2008 – p. 22 ).

Seguindo o raciocínio supracitado, podemos exemplificá-lo com algumas frases que o professor pode utilizar para uma “relação de agrado”: “você devia se orgulhar de seu resultado”, em vez de “estou orgulhoso de você”, buscando responsabilizar o aluno pelo seu comportamento, indo ao encontro de sua necessidade de autodeterminação. “Você está quase lá”, em vez de “está quase tudo errado” ou “você não faz nada direito”, no sentido de promover uma percepção de aperfeiçoamento pessoal e o esforço do aluno.

Também a aprendizagem e a motivação dos educandos dependem da identificação destes com o educador. Nota-se que onde há esta identificação, há maior rendimento escolar, motivação e diminuição da indisciplina. Por outro lado, a falta de identificação tem levado principalmente a falta de motivação e rotulação dos professores por parte dos educandos. Existem diversas estratégias que os educadores podem utilizar para motivar seus educandos para as atividades escolares, dentre as quais citaremos algumas, lembrando, porém, que não existe uma receita pronta ou uma estratégia miraculosa. O sucesso ou insucesso relaciona-se à capacidade ou disponibilidade de educadores e educandos para a abertura, para a mudança de paradigmas. Dentre as diversas estratégias, cabe-nos citar (JESUS, 2008 – p.23):
- Cabe ao educador procurar conhecer os interesses dos educandos e o nome de cada um deles;
- Criar situações em que os educandos tenham papel ativo na construção do seu próprio saber;
- Incentivar a participação dos alunos menos participativos;
- Ensinar o conteúdo a partir de situações ou acontecimentos da atualidade e/ou realidade dos educandos;
- Criar situações de aprendizagem significativa para os educandos;
- Reconhecer e evidenciar o esforço e a capacidade do educando;
- Ter confiança e otimismo nas capacidades dos educandos para a realização das atividades escolares.

2.2 Estratégias Motivacionais

Após analisarmos estratégias motivacionais para educandos e educadores no processo ensino aprendizagem, passaremos a analisar estratégias para motivar os educandos para a disciplina em sala de aula.
“A indisciplina dos alunos constitui, na atualidade, o principal fator de mal-estar docente para muitos professores, de acordo com os resultados obtidos em diversas investigações” (JESUS, 2008 – p.24).
Diante da grave situação indisciplinar, o que tem frequentemente sido acompanhado de violência de diversos níveis, começam a ocorrer manifestações de saudosismo relativo às praticas  utilizadas no passado. No entanto, cabe ressaltar que as estratégias utilizadas no passado já não seriam eficazes em nossos dias. Conforme Jesus, as estratégias punitivas que provocavam medo, apenas apresentam efeitos a curto prazo, sendo necessário aumentar a intensidade e a frequência. Logicamente, isto levaria ao aumento indisciplinar e da violência. Torna-se necessário o encontro de um ponto de equilíbrio; um esforço conjunto; trabalho em equipe: equipe escolar e pais e/ou responsáveis. Como estratégia a serem utilizadas pelos educadores prevenir situações de indisciplina, podemos citar (JESUS, 2008 – p.25):
- manter-se calmo, sereno e seguro, no sentido de modelar o comportamento dos educandos;
- ser flexível e agir com coerência na forma de atuação;
- evitar confrontos desnecessários, sendo tolerante;
- evitar rotular os educandos indisciplinados e não se distanciar destes, visto que nenhum aluno é sempre indisciplinado;
- Buscar sempre enfatizar  os aspectos positivos do comportamento e da aprendizagem dos educandos;
- manter dialogo com os educandos indisciplinados e mostrar que podem vir a alcançar resultados escolares positivos;
- delegar funções de “assistente”; líder da turma;
 - separar os educandos que perturbam;
- identificar casos de educandos com problemas familiares;
- estabelecer acordos e cumpri-los.

Como dito anteriormente, não há uma forma mágica, tendo em vista que cada escola, cada educando é uma realidade, no entanto, cabe aos educadores buscar o planejamento de estratégias que venham ao encontro de suas realidades.
Uma estratégia que nos parece muito positiva é construir regras a serem utilizadas na escola em conjunto, isto é, professores, coordenadores, direção, funcionários administrativos, pais e/ou responsáveis e educandos. Da troca de ideias pode-se surgir conjunto de regras positivas para todos. Também é bom nos atentarmos para o vinculo afetivo. É nítido em conversas com educandos que em sua maioria considera que a “indisciplina depende do professor” e que “a simpatia do professor diminui a indisciplina dos alunos”.


3. METODOLOGIA

A realização do trabalho se deu em duas etapas: pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. A pesquisa bibliográfica se deu através de pesquisas em sites e na biblioteca municipal, de teóricos renomados que abordassem a respeito das relações vinculares. Após intensa leitura e fichamento, foram selecionados e organizados de forma a dar sustentação ao presente trabalho.
 
A Escola Pingo de Gente serviu de “laboratório”; e após vários encontros com educadores, decidimos conhecer os alunos do quarto ano B, escolhido pela coordenação por ser considerada uma turma indisciplinada e com educandos portadores de diversas necessidades de atenção. A partir da visita iniciamos a construção de estratégias tanto para superar a indisciplina, quanto motivacionais. Dentre as estratégias orientadas para superar e/ou diminuir a indisciplina, sugerimos a criação de mapa de sala, combinados e a construção de um relacionamento afetivo mais próximo com alunos ditos “problemas”. Para isto, foi trabalhado com educadores e educandos o livro Tosco, de autoria do psicólogo Gilberto Dari Mattje, ano 2009. O livro foi apresentado aos educadores, e após leitura e analise do mesmo, decidimos trabalhá-lo em forma de leitura com os educandos. Durante o processo de leitura eram feitas pausas para reflexão sobre os diversos acontecimentos e a comparação destes com a vida dos alunos.

Outra metodologia adotada junto aos educadores foi: falar apenas dos pontos positivos de cada educando; dar responsabilidades aos educandos indisciplinados e tê-los mais próximos, em particular no período extraclasse.

4. ANALISE DOS RESULTADOS

Conforme afirma Freller (2002, p. 04), “a escola precisa quebrar o circulo vicioso e instalar o benigno, ressaltando as qualidades do educando e mostrando que ele pode ter liderança positiva”.  A fala de Freller faz refletir sobre como nossos educandos são tratados; tendemos a nos aproximar dos educandos “comportados” e nos afastarmos dos ditos “problemas”. Afastamos-nos, assim, da nobre missão educacional. É necessário percebermos que precisamos ver e trabalhar com o que cada educando tem de bom, de positivo e, ao ganharmos a confiança destes, conhecer, compreender o motivo de suas inquietações e mesmo ajudar o educando a superar tais dificuldades.

Ao educando não basta dar conteúdo, mas é preciso aprender com ele; é preciso conhecê-lo; vê-lo não apenas como um estorvo ou como querido, não se deve rotular, pois não existe aluno ideal, mas vê-lo como ser humano. A conversa com os que atrapalham, estando dispostos a ouvir suas razoes, é um dos caminhos para sanar problemas. Complementando repetimos as palavras de Zagury: “quando há relacionamento de afeto e um professor atencioso, qualquer caso pode ser revertido em pouco tempo”.

Diante do exposto, percebemos que estratégias tomadas por muitos educadores como mandar para a direção; gritar com os educandos; ameaças as mais diversas, já não surtem efeitos e deixa clara a incapacidade dos educadores em manter a ordem e o respeito diante dos educandos. Acreditamos que o educador precisa dialogar sempre, ouvindo as partes e demonstrando respeito pelos valores de cada um. O autoritarismo leva à revolta, faz-se necessário conquistar a autoridade. Faz-se necessário ao educador incentivar a cooperação; agir com calma, se colocar a disposição para a resolução de conflitos; ficar sempre alerta e estimular a autonomia, incentivando os educandos a terem ideias próprias e a manifesta-las. Não basta, portanto, apenas criar estratégias para superar a indisciplina; torna-se necessário trabalhar a motivação dos educandos para as aprendizagens.

Em conversa com educadores da Escola Pingo de Gente, foi possível constatar que muitos perderam o entusiasmo pela profissão e mesmo buscam alternativas paralelas que lhes garantam a sobrevivência, tendo em vista o desejo de abandonarem a profissão. Indagados a respeito do motivo de tais atitudes, a resposta quase sempre se encontra no saudosismo período militar em que o professor, por meio de métodos hoje ilícitos, mantinha o controle da turma. Justificam que hoje, com a modernidade, a indisciplina tomou conta do ambiente escolar. Segundo as educadoras, hoje se finge que ensina, o educando finge que aprende, e o educador perdeu o controle da situação. Para completar, os pais e/ou responsáveis jogam toda a responsabilidade para a escola, omitindo-se na educação dos filhos e não respaldam as ações dos educadores.

Ao utilizar o trabalho de leitura e reflexão com o livro Tosco (Mattje, 2009), pode-se perceber a identificação dos educandos com os personagens, onde se revelavam, se deixando conhecer com seus medos, traumas e ansiedades. A leitura pôde levar os educandos a se revelarem, e a fazerem comparações entre acontecimentos diários e os acontecimentos narrados na obra, assim como a reflexão do que se precisa mudar. Aos educadores, o livro ofereceu técnicas de abordagens para adquirir a confiança e colaboração dos educandos.

Apesar da visão pessimista de alguns educadores, o trabalho foi bem recebido e houve por parte da coordenação e educadores total abertura e participação, sendo aceitas todas as sugestões para aplicação em sala. Um ponto positivo, embora realizada de forma ainda tímida, foi ver o educando dito “problema” por outro ângulo, passando a analisá-lo a partir dos pontos positivos, já que a tendência era a de ver apenas os negativos.
Os educandos ditos “problemas”, ao assumirem responsabilidades dadas pelos educadores, sentiram-se valorizados, esforçando-se para diminuir os atos de indisciplina. Fica claro, no entanto, que este é um processo lento e depende da compreensão, do esforço conjunto de educandos e educadores.

5. CONCLUSÃO

Sabemos que em nossos tempos são muitos os desafios, e, como em outras profissões, torna-se necessário ser um profissional vocacionado, pois, conforme Jose Augusto Nasser,

Os professores vocacionados transformam uma aula em sonho e transportam-nos para o conhecimento narrado, afim de que possamos vivenciá-los, seja uma descoberta, uma dúvida, uma maneira de ser e de estar. Ao fim da aula, as palavras e ações ainda ressoam e todos saboreiam o prazer do enriquecimento intelectual. (NASSER, 2008. Pag.92).

É sabido que o tema é amplo. Como dito anteriormente, não existe uma formula mágica para superar o processo de indisciplina e violência, mas conforme analisamos, é possível, se não extingui-la, ao menos ameniza-la. O vinculo firmado entre educandos e educadores é, com certeza, a peça-chave principal para que o exercício do processo ensino-aprendizagem logre êxito.
Não quisemos fornecer um manual de como gerar vínculos, como construir a afetividade, pois sabemos que cada educador, cada escola e cada educando tem uma realidade própria e distinta. No entanto, percebemos que a união comunidade escolar e comunidade familiar pode gerar bons frutos, e o educador que se abre para aprender com seus educandos, a conhecer a realidade de seus educandos tem grande chance de êxito em seus propósitos educacionais.

6. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
 

• A indisciplina como aliada. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/indisciplina-como-aliada-431399.shtml. Acesso em: 15 de maio de 2012.

• CHALITA, Gabriel. Educação: A solução é o afeto. São Paulo – SP. Editora Gente.

• Estratégias para vencer a indisciplina. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/gestão-escolar/diretor/entender-para-resolver-indisciplina-comportamento-gestao-conflitos-521061.shtml. Acesso em 15 de maio de 2012.

• JAMBO, Noêmia. A criança em um mundo desconhecido “escola”. Disponível em: http://recantodasletras.com.br/artigos/371481. Acesso  em 03 julho 2012.

• JESUS, Saul Neves de. Estratégias para motivar os alunos. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/viewFile/2753/2001. Acesso em 13 de maio 2012

• NASSER, José Augusto. Semeando dons, colhendo vocações. São Paulo – SP. Editora Canção Nova, 2008

• O professor está doente. Disponível em:  http://www.geomundo.com.br/sala-dos-professores-20120.htm . Acesso em 11 maio 2012

• PIAGET, Jean. In MARIA RADESPIEL. Alfabetização sem segrego. Contagem - MG. Editora Iemar, 2003. Volume 8. Pagina 22.
BJ Duarte
Enviado por BJ Duarte em 16/08/2014
Reeditado em 16/08/2014
Código do texto: T4925037
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Sobre o autor
BJ Duarte
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BJ Duarte