Precisamos ser escravos da televisão?

PRECISAMOS SER ESCRAVOS DA TELEVISÃO?

Miguel Carqueija

Eu estava aguardando a vez num consultório médico, quando o som da televisão (hoje sempre tem uma tv ligada nesses lugares) começou a me incomodar. De onde estava nem sequer avistava a tela, mas o áudio era aflitivo, com uma mulher sendo assediada sexualmente, uma voz de homem chamando-a de “gostosinha”. Não havia crianças, mas em quantos outros consultórios, esses com crianças, a cena se repetia? Era algum filme ou novela da Globo. Acabei não aguentando mais aquela gritaria e protestei. Uma senhora ao meu lado me apoiou. A recepcionista, espantada, disse que não estava percebendo (algumas pessoas ficam mesmo muito distraídas, mas... o som estava bem alto e incômodo). Afirmei que isso perturbava. Ela ficou admirada: “Perturba a quem?” Respondi que perturbava a mim. Afinal nós, usuários de consultórios médicos, temos os nossos direitos.

Falei em baixaria. Ela ainda tentou argumentar que hoje, qualquer emissora exibe essas coisas, mas não concordei com isso. Afinal existem por exemplo, as redes católicas. E a Globo, frisei, é a pior das emissoras de tv, com suas novelas e o BBB, essas imundícies.

Ela afinal colocou no canal 2, a TV Brasil (antiga TV Educativa). E ficou um som bem mais baixo, que a gente nem percebia.

Conversando com a senhora a meu lado, observei que, a rigor, não poderia haver televisão nos consultórios. “A gente não vai a médico para ver tv”. Falta um mínimo de paz, de silêncio, no mundo atual. E essa onipresença da tv é acintosa. Não me digam que é para “distrair” os aguardantes, nós não somos débeis mentais. E a tv brasileira (com poucas excessões) pode até distrair quem se distrai com tais banalidades, mas também destrói.

Está na hora de começarmos a reclamar em vez de aceitar tais coisas passivamente, como rebanho.

Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2015.