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Relato de quando fui alfabetizada

Era uma vez...
Não sei bem ao certo quando se deu a minha alfabetização, mas, do pouco que me recordo, se não me falhe a memória, acredito que teve inicio nos meados dos anos 70, em meio a muitas algazarras, dificuldades  e  brincadeiras.  Entender  o  percurso  e  percalços  de minha  alfabetização  requer  saber  um pouco mais de mim: quem penso que sou, de onde venho e porque venho. Vejamos.
Sou nascida no interior do Maranhão, mas precisamente aos 29 de novembro de 1970, em Luís Domingues. Sou a 7ª dos dez filhos de Raimundo Vinhas e Altiva. Somos três filhas e sete filhos assim distribuídos – se é que se pode expressar a ordem de nascimento assim: fêmea – macho - macha – fêmea – macha – macho – eu - macho – macho e macho.
No ano de 1975, 5 de março, chegamos aqui em Belo Horizonte, vindos de Belém, onde moramos por quatro anos. Até então éramos oito filhos. Viemos morar com meu tio José, tia Ivonilde e seus treze filhos, e meu avô Torquato!
A casa do meu tio era bem grande, mas papai tratou logo de construir três quartos, sala, banheiro e cozinha nos fundos da rua Vítor Gonçalves, 82, no Floramar, endereço do meu tio.
Mas,  até  que  tudo  estivesse  pronto,  mamãe  e  tia  Ivonilde precisam  organizar  aquele  batalhão  de pirralhos  entre  dois  e dezesseis  anos  na  hora  do  banho,  e  principalmente,  nas refeições.  Então  ouvia minha tia dizer: “primeiro os pequenos” e contava as fatias de pão que eram distribuídas pelos maiores aos menores sentados no chão da copa. Isso se dava também nas demais refeições do dia.
Éramos oito menores de dez anos. Eu tinha quatro anos, mas já sabia a ordem em que devia ficar. Era a 5ª. Então aprendi a contar rapidinho até dez! E pronunciava todas as palavras corretamente, coisa que meu primo, um ano mais velho que eu, não conseguia. Então uma das brincadeiras da turminha era ficar debaixo de um lençol treinando a contagem até dez e ensinar meu primo a dizer “quatro”. O menino só dizia “cato”.
Outra brincadeira era “brincar de aulinha”. Lora era a professora. Ela tinha oito anos e já estava na 2ª  série.  Ela  fazia  exercícios  em uma folha  para  cada  aluno. Tinha  exercício  de  ligar  figuras  iguais: casinha com casinha, bola com bola, sorvete com sorvete... Outra aula era cobrir as vogais tracejadas; fazer  continhas  do  tipo  um  mais um,  dois  mais  dois. Lembro-me  dos  comandos  das  atividades  e da caligrafia de Lora: o “r” dela parecia a portinha da casinha que ela desenhava. Eu sempre achei lindinho.
Outro momento que me recordo foi de quando sair de casa com caderno e lápis para ir à igreja junto com meus primos. Fiquei apreensiva para voltar àquele lugar, mas papai não me deixou voltar. Era aula de Catecismo. É que, em Belém, frequentávamos a igreja Batista do Guamá. Fiquei triste, e para mim não tinha nenhuma importância se era dessa ou daquela denominação. Eu queria era aprender sobre as coisas de ler e escrever. Então durante a ida do pessoal ao catecismo era tudo sem graça.
Em  meio  a  esse  tempo, papai  comprou  um  terreno  e  deu  início a  construção  da  casa  onde moramos.  Eu  já  tinha  6  anos  e meio quando  nos mudamos.  Foi  durante  as  férias  escolares  de  meus irmãos. Eles foram  matriculados  em  uma  escola  distante  de  casa.
O  lugar  era  longe  do  Floramar,  mas  como  papai  diz  até  hoje, “foi onde  deu  pra  comprar”. Antigamente era chamado de “Flamengo” e pertencia ao município de Sabará. Hoje, fica na região leste de Belo Horizonte, entre o “Taquaril” e o “Alto Vera Cruz”.
Tínhamos um vizinho só; no mais era só vegetação de cerrado, ipês amarelos, minas d´água, cachoeira e uma estradinha que  levava para o  Grupo  Escolar  “Granja  dos  Freitas”  –  (hoje,  Escola Municipal Dr.  Júlio Soares”).
Quando via meus irmãos indo para a escola, perguntava pra mamãe quando eu iria também, ao que ela respondia: “para o ano”. Meus irmãos diziam que eu tinha que ter sete anos. E esse ano nunca chegava nas minhas contas!
Final do ano de 1977: fiz sete anos! Escola? Nada! Só “para o ano...”
Nesse período, meu até então irmão caçula completava seus dois aninhos e eis que dona Altiva preparava a "rapa do tacho" para março de 1978.
Ora veja!  Finalmente comecei a ir para a escola em fevereiro de 1978 na mesma escola dos meus irmãos. Eles estudavam de manhã e iam com um pessoal que eu não sabia onde moravam; voltavam por volta de 12 h e 30 min. Eu estudava no turno da tarde e mamãe me levava para a escola. Minha irmã mais velha comprou meu material escolar, me deu uma bolsa e lá fui eu para a escola. Dona  Graça  era  uma graça  de professora,  mas  aquele  cheiro  estranho  que  me  doía  a cabeça - cheiro de álcool de papel mimiografado. Passou. Eu levei aquela atividade para casa: colorir uma vaquinha. Colori de azul e meus irmãos riram da minha vaca azul! Aprendi de novo o “a –  e – i -  o – u” só que agora de modos diferentes:  letra cursiva e de forma. Aprendi pequenas palavras como “ai”, “ei”, “oi”, “ui” “ai” “au! au!” e já tinha uma caligrafia bem desenhada. Mas, está lembrando que mamãe estava grávida? Resguardo de filho macho! Resultado: não tinha ninguém para me levar para a escola e eu acabei abandonando as aulas, porque eu tinha medo de ir e voltar sozinha daquele lugar.
1979! Mamãe me matriculou em outa escola: E.M. “Israel Pinheiro”! Eu via a Supervisora, dona Vilma,  conversar  com  a  professora,  e apontava  para  mim,  mas  eu  não  compreendia  o  que  estavam falando. Nem me dei conta de que já sabia ler e escrever. Colocaram me em uma de sala em que as crianças repetiam e copiavam as “famílias” das letras: “bá – bé – bi – bó – bú” e todas as outras!
Lá veio dona Vilma conversar comigo e a professora e me trocaram de sala e de turno!
E novamente dona Graça era minha  professora:  – um texto  a ser lido  e depois fazer uma  “composição”.    “A patinha Roquete”  foi meu título.  Dona Graça elogiava. Agora vai! Só que não...
Escola superlotada, enchente e uma greve ferrenha na Educação do então Governador Francelino Pereira e mais um ano perdido!
Mas a essa altura, já lia e escrevia com desenvoltura.
1980: inauguração de uma escola perto de casa – E M. “George Ricardo Salum”. Lá, dona Simone Garcia pediu para abrir o livro, não me lembro do nome, e eu lia. Começava assim:
“Era uma vez ...
Era uma vez ...
Era uma vez três porquinhos: Palhaço, Palito e Pedrito ..."
Nil de Sousa
Enviado por Nil de Sousa em 12/10/2016
Reeditado em 12/10/2016
Código do texto: T5789319
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Nil de Sousa
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
79 textos (2424 leituras)
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Nil de Sousa