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LÍSIS OU DA AMIZADE AMOROSA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

“- Muito bem – disse-lhe eu –, mas quem é o mestre?
- É um de teus amigos e partidários, Sócrates, chama-se Miccos.
- Por Zeus! Não é um dos néscios; é um hábil sofista!
- Pois se não! Queres seguir-me e ver a gente que se encontra ali dentro?
- Sim, mas desejava antes saber que papel me caberá uma vez inserido nesta assembléia de jovens. E outro pormenor: quem é dentre os presentes o jovem mais formoso?
- Cada um de nós tem seu gosto, Sócrates.
- Mas tu, Hipótales, diz-me por fim: qual é a tua inclinação?
Neste momento Hipótales pôs-se rubro. Então continuei:
- Hipótales, filho de Jerônimo, não tenho necessidade de me confessares se amas ou não! Me consta não só que tu amas, como que amas até demasiado! É certo que em todas as demais coisas sou um inútil, sou nulo, mas deus me deu a graça de um dom particular: conhecer através de um só olhar quem ama e quem é amado.
Ao ouvir estas palavras, ruborizou-se ainda mais.
- Coisa singular! – interveio Ctesipo. – Ruborizas-te diante de Sócrates e te mostras zeloso em guardar teu segredo amoroso; mas, quando estás apenas entre nós, poucos minutos são-te o bastante para afadigar-nos de tanto que repetes o nome de teu amado. É isso mesmo o que ouviste, Sócrates: ele nos aborrece e aporrinha, de modo que nos cremos surdos ao final de suas palestras: tudo que sói ouvirmos é: LÍSIS, LÍSIS, LÍSIS...! Pior ainda: quando se excede na bebedeira – ainda ao dia seguinte, como que ouvindo os ecos da festança anterior, nossas cabeças levemente ressaqueadas ainda escutam as sílabas <Lí>, <si> e <as> reverberando no ar, tal houvera sido seu abuso ébrio da véspera! E olha, Sócrates, que nosso Hipótales mui bem dissimula sua poderosa inclinação ao expressar-se em prosa, conversando. O verdadeiro problema é quando traveste-se de poeta, inundando-nos e a nossos tímpanos com seus versos apaixonados. O que menos podemos perdoar nele é sua perícia ao fazê-lo: entoa os louvores de seu amado e dos antepassados de seu amado com voz e harmonia de se admirar! Não obstante, sabes como são os amantes, Sócrates – ele aluga nosso tempo, não podemos nos esquivar de escutá-lo quantas vezes ele achar necessário, coisa que nunca termina! Agora, ó dissimulado!, põe-se vermelho ao ouvir-te falar desta maneira.
- Ó, Ctesipo e Hipótales, não é este tal Lísis muito jovem ainda? Isto estou supondo porque jamais ouvi este nome antes, ou pelo menos não associo às feições de nenhum dos jovens já consagrados a freqüentar este tipo de assembléia.
- E não erras, Sócrates: é que é tão jovem que por ora se apresenta somente como Lísis, filho de seu pai, pois é só seu pai, atualmente, que se conhece à larga. Em que pese esse pormenor, creio que ao menos conhece-o de vista, caro Sócrates, já que tu conheces, um por um, todos os jovens atenienses!
- Agora diz-me, de quem é Lísis filho?
- Trata-se Lísis do primogênito de Demócrates, do demo de Exone.”

“quero saber se conheces a linguagem que mais convém aos amantes, estejam eles desacompanhados, isto é, apenas entre amigos e confidentes, falando do amado em terceira pessoa, ou em conversação direta com o próprio amado.”

“Sem dúvida ele nos canta e nos repete tudo que já se repetiu e se cantou na cidade acerca de Demócrates e acerca de Lísis, pai de Demócrates, avô deste jovem Lísis. E mais, ainda exalta em versos todos os seus antepassados conhecidos mais remotos, suas riquezas, seus corcéis infindos, suas vitórias em Delfos, no Istmo, em Neméia, nas corridas de carro e de cavalo, e noutras estórias mais velhas que o arco da roda. Ultimamente, Sócrates, cantou-nos uma peça sobre a hospitalidade com que Hércules em pessoa havia tratado e recebido a um dos avós de Lísis, que, diz a lenda, era parente do próprio glorioso filho de Zeus. O que se conta é que este antepassado de Lísis nascera do sêmen do próprio Zeus, e a fêmea eleita para pari-lo foi a filha do fundador de Exone. Todas as velhas vivas do distrito hoje repetem essas coisas; nosso diligente Hipótales pesquisa e aprende das tradições orais tudo quanto laboriosamente recita! E, claro, nos faz de cobaias, pois temos de escutá-lo em tudo!!!
- Hipótales, mas isto é extraordinário! Compões e cantas teus elogios já antes da conquista?”

“- Porque, hás de convir, se acaso és bem-sucedido com tais amores, teus versos e cantos redundarão em tua própria honra, isto é, na exaltação, em última instância, do amante que teve a fortuna de conseguir tão formidável vitória. Mas se a pessoa que amas te abandona, não importa quantos e quais tenham sido os elogios que dirigiste a ela, ou melhor ainda: quanto mais celebraste suas belas qualidades, tanto mais pôr-te-ás em ridículo ao fim, porque tudo quanto fizeras terá sido inútil. Um amante mais prudente, meu querido, não celebraria seus amores antes de haver logrado o êxito, desconfiando do porvir, tanto mais quanto que os jovens formosos, quando se os exalta e se os lisonjeia, são os primeiros a se encher de presunção e vaidade.
- Sou incapaz de negá-lo.
- E quanto mais presunçosos se mostram, mais difíceis são de conquistar, ou não?
- Exato.
- Que juízo tu mesmo atribuirias a um caçador que espantasse assim a caça, impossibilitando-se a si mesmo de apanhá-la?
- É evidente que estaríamos falando aqui de um néscio.
- Seria uma péssima política, ao invés de atrair a pessoa amada, espantá-la com palavras e canções apologéticas. Que dizes disto?
- Que essa é, idem, minha própria opinião.”

“- ...se pudesses conseguir que teu querido Lísis conversasse comigo, quiçá poderia eu dar-te um exemplo da classe de conversação que deverias ter com ele, em detrimento destas odes e hinos que, ao que dizem, diriges-lhe.
- Nada mais fácil; não tens mais que entrar naquele recinto com Ctesipo, sentar-te e inserir-te na conversação. E como hoje se celebra a festa de Hermes, e tanto os jovens como os adultos reúnem-se neste mesmo salão, Lísis não deixará de aproximar-se de ti. Se isso não se der, ainda assim digo que Lísis é muito chegado de Ctesipo, por causa de seu primo Menexeno, que é o melhor amigo daquele, de forma que, se tu não conseguires chamar sua atenção ao entrar, Menexeno o chamará e te o apresentará sem falta, sendo isto coisa fácil para ele.”

“Hipótales, notando que o grupo ao nosso redor se avolumava, veio, mas pôs-se detrás de vários outros jovens, ficando de pé e numa posição em que não podia ser visto por Lísis, temendo, afinal, importuná-lo. Nesta atitude passiva foi que ele escutou toda nossa palestra.”

“- Poupar-me-ei o trabalho de perguntar-vos qual dos dois é mais rico, porque sois amigos. Estou certo?...
-  Sim – disseram ambos ao mesmo tempo.
- ...E entre amigos, diz-se que todos os bens são em comum, de sorte que não há qualquer diferença entre vós em termos de riqueza, se é que sois amigos, como dizeis.”

“- Eis aí uma coisa singular! Ser livre e ver-se governado por um escravo! Que faz teu pedagogo para governar-te?
- Me leva à casa do meu professor.
- E teus professores, mandam em ti por igual?
- Sim, e bastante.
- Eis um prodígio: um homem rodeado de professores, mestres e pedagogos pela vontade do próprio pai! Mas quando voltas a tua casa e estás com tua mãe, ela te deixa fazer o que tu queres fazer (pois que isso é a prerrogativa dos homens felizes)? P.ex., deixa que tu remexas a lã e toque o tear enquanto ela tece, ou será que ela te proíbe de tocar a lançadeira, a carda e os demais instrumentos de seu trabalho?
Lísis pôs-se a rir:
- Por Zeus, Sócrates! Não só me proíbe de todas estas coisas como me dá uma palmada na mão se me aventuro a tocar em seus utensílios!”

“- Diz-me então, Menexeno: quando um homem ama a outro, qual dos dois se faz amigo do outro? O que ama se faz amigo da pessoa amada, ou a pessoa amada se faz amigo do que ama, ou não há entre eles diferença alguma?
- Nenhuma, a meu ver.
- Que queres dizer com isso? Ambos são amigos, quando só um ama?
- Sim, como disse, ao que me parece...
- Mas não pode suceder que o homem que ama a outro não seja correspondido?!”

“- E então, qual dos dois é o amigo? É o homem que ama a outro, seja ou não correspondido, seja ou não aborrecido pelo amado? É o homem que é amado? Ou será que não seria nem o primeiro nem o segundo, posto que não se amam ambos reciprocamente?
- Nem um, nem outro, ao que me parece.
- Mas então chegamos agora a uma opinião diametralmente oposta à precedente! Porque, depois de havermos sustentado que se um dos dois amasse o outro ambos seriam amigos, dizemos agora, pelo contrário, que não há amigos ali onde a amizade não é recíproca!”

“- Neste caso, Menexeno, o que é amado é amigo do que ama, seja que lhe retribua o sentimento ou seja que menospreze-o por completo, como as crianças que não só não se afeiçoam a seus pais como até têm aversão não só às lições e advertências destes, mas, de forma até mais pronunciada, quando estes tentam manifestar-lhes carinho!
- Estou de acordo.
- Logo, o amigo não é aquele que ama senão aquele que é amado.
- Sim, conforme.
- Por este princípio, é inimigo aquele que é o autor da aversão, e não aquele que é repelido (a vítima da paixão invertida)?
- Assim parece.
- Neste conceito, muitos são amados por seus inimigos e rejeitados pelos próprios amigos, posto que o amigo é aquele que é amado, e não aquele que ama. Mas isso me parece absurdo, Menexeno, senão impossível! Como é que alguém se faz <amigo de seu inimigo e inimigo de seu amigo>?
- Confesso que estou confuso, Sócrates.
- Se tal coisa é inadmissível, quem ama é naturalmente amigo do que é amado?
- Sim, sim, estou de acordo.
- E o que desdenha é, então, inimigo do que é desdenhado?
- Necessariamente!
- Ah, olha-nos aqui de novo enredados na mesma opinião que manifestáramos primeiro! Muitos são amigos dos que não são seus amigos, e muitas vezes dos seus próprios inimigos, quando amam quem não só não os ama de volta como até os aborrece! Ademais, muitas vezes somos inimigos de pessoas que não são inimigos nossos, e que quiçá sejam até nossos amigos, como quando desdenhamos quem nunca nos desdenha, e quem sabe até nos ame!
- É provável que raciocines de forma correta, Sócrates.
- Se o amigo não é aquele que ama, nem o que é amado, nem tampouco o homem que ama e é amado ao mesmo tempo, que é deduzimos de tudo isto?

“Desejando dar uma trégua a Menexeno, encantado como estava eu com o desejo do jovem Lísis de instruir-se, continuei o diálogo, agora me dirigindo a este último.”

“Mais vale voltar ao que os poetas nos franquearam, porque os poetas, até certo ponto, são nossos pais e nossos guias quanto à sabedoria. Talvez não tenham falado em vão quando disseram, sobre a amizade, que é deus mesmo quem constrói as amizades e que faz uns atraírem-se pelos outros. (...) Um deus conduz o semelhante a seu semelhante – Empédocles.”

“só os homens de bem são semelhantes aos homens de bem e, portanto, podem ser amigos entre si, ao passo que os maus, ao contrário do que muitos pensam, não são semelhantes de maneira alguma entre si, nem um para com o outro nas relações, nem mesmo quanto a si próprios – isto é, são caracteres altamente mutáveis e variáveis, incapazes de manter uma coerência interna, sempre contradizendo a si próprios. Neste caso não seria surpresa que o que é diferente de si mesmo não se pareça nunca com nada mais no universo, não sendo, desta maneira, amigo de nada nem ninguém.”

“E para quê seres semelhantes haveriam de aproximar-se uns dos outros, se não haveriam de tirar dessa aproximação proveito algum? E o homem que não tem necessidade de buscar (uma vez que já é auto-suficiente, i.e., amigo de si mesmo), o homem que não é amado (porque os outros homens de bem são também amigos de si próprios e auto-suficientes), não será ele jamais um amigo de quem quer que seja?”

“- ...mas discordas do que assentei há pouco, que o bom se basta a si mesmo, enquanto ainda for <bem>?
- Não discordo de forma alguma, Sócrates.
- Mas o que se basta a si mesmo, tem necessidade de alguém mais ou não?
- Não.
- Não tendo necessidade de ninguém, não buscará ninguém!
- Correto.
- Se não busca ninguém, não ama ninguém.
- Com certeza que não.
- E se não ama ninguém, ele mesmo jamais será amado!
- Creio que jamais será amado.
- Como os bons podem ser amigos dos bons, quando, estando uns separados dos outros por distâncias infinitas no que concerne à alma, não se desejam mutuamente, uma vez que se bastam a si próprios, e que estando uns próximos dos outros fisicamente, nem sequer consideram-se como mutuamente úteis? Qual seria o meio de que tais pessoas se pudessem estimar entre elas mesmas, aproximando-se não só nos corpos mas também nas almas?
- É impossível!
- Mas se não se estimam, então nunca haveria amizade?!
- Dizes a verdade.
- Olha, Lísias, parece que tudo que concluímos não passa de mal-entendido e fumaça! Nada do que concluímos pode estar certo!
- Como assim?
- Ouvi, certa ocasião, as seguintes palavras, que agora se me ocorrem: o semelhante é o mais hostil ao próprio semelhante; os homens de bem os mais hostis aos demais homens de bem. Quem mo disse isso? Não me lembro, mas o que lembro é que para justificar-se ele até citou uns versos de Hesíodo: O oleiro é, por inveja, inimigo do oleiro; o cantor do cantor; e o pobre do pobre.¹ Este homem ainda acrescentava: Em todas as coisas os seres que mais se parecem são os mais invejosos, rancorosos e hostis um para com o outro; quanto aos que mais se distinguem e diferenciam, são necessariamente mais amigos. O pobre é amigo do rico, o débil do forte, porque uns esperam socorro dos outros, como o doente espera do médico. O ignorante, pela mesma razão, busca e ama ao sábio. E essa pessoa continuava a sustentar sua tese com uma abundância de razões, alegando que tão distante está o semelhante de amar o semelhante quanto próximo está o semelhante de odiar o semelhante; e como está patente que o odeia, aí vês. Enfim, continuava este homem: Todo ser deseja o oposto a sua própria natureza. Assim, o seco é amigo do úmido, o frio do quente, o amargo do doce, o sensível do obtuso, o vazio do cheio, o cheio do vazio, e assim por diante.”

¹ Os trabalhos e os dias, 25

“Seria o ódio amigo da amizade e a amizade amiga do ódio?”

“- Minha impressão é que se a dessemelhança engendrasse a amizade, estas coisas contrárias deveriam ser realmente amigas!
- É necessário.
- Por conseguinte, o semelhante não é amigo do semelhante, nem o contrário amigo do contrário!
- Não é mesmo possível que assim fosse.”

“- ...Enfim, digo-te que o bom é o belo. E tu, que pensas?
- O mesmo que tu, Sócrates.
- Como que por adivinhação, digo ainda: o que não é nem bom nem mau, é amigo do bom e do belo. Escuta agora sobre o quê fundo tal conjetura. Parece-me que existem três gêneros: o bom; e o mau, naturalmente; mas, por último, aquilo que não é nem bom nem mau. (...) Nossas indagações precedentes, se um tanto inócuas, me levaram pelo menos a intuir que o bom não pode ser amigo do bom, nem o mau do mau, nem o bom do mau. Resta, então, para que a amizade seja possível entre dois gêneros, que o que não é nem bom nem mau seja o amigo do bom, ou de uma coisa que se lhe aproxime, porque, com respeito ao mau, nunca poderia ele concitar à amizade.
- Correto.
- O semelhante, como já estabelecemos, não pode ser, tampouco, o amigo do semelhante, não te lembras?
- Perfeitamente.
- E o que não é nem bom nem mau, não amará ele, tampouco, aquilo que se assemelha consigo.
- De fato, seria impossível.
- Logo, o que não é nem bom nem mau não pode amar nada a não ser o bom.”

“- Não estás conforme que, por conta da doença, o corpo está de alguma forma obrigado a buscar e a amar a medicina?
- Sim.
- Logo, o que não é nem mau nem bom é amigo do que é bom, justamente pela existência do que é mau.
- Faz sentido.”

“- Se se tingissem de branco teus cabelos, que são louros, seriam brancos em realidade ou em aparência?
- Em aparência.
- E no entanto, a brancura não se encontraria nos cabelos?
- Sim.
- E nem por isto seriam teus cabelos brancos de verdade! De sorte que, neste caso, apesar da brancura que neles se manifestasse, não seriam nem brancos nem negros.
- Isso é evidente.
- Mas, amigo, quando a velhice os houver tornado deste mesmo tom, não serão de fato semelhantes ao que se verá na aparência, isto é, seus fios de cabelo não serão na aparência e na verdade brancos?”

“quando uma coisa se encontra com outra coisa, faz-se ela a mesma que esta outra coisa?”

“- Deriva daí que, apesar da presença do mal, o que não é mau nem bom não se faz mau, e isso justamente porque a presença mesma do mal faz este intermediário desejar com afinco alcançar o bem; se por acidente o que não é bom nem mau se faz com efeito mau, a presença do mal o afastará naturalmente do desejo e do amor do bem, posto que, neste caso excepcional, já não é um ser que não era bom nem mau, mas um ser unicamente mau, e incapaz de amar o bem.
- Sim, Sócrates.
- Continuando meu raciocínio, poderíamos dizer que os que são já sábios, sejam deuses ou homens, não podem, com sinceridade, amar a sabedoria, assim como não podem amá-la aqueles que, em virtude de ignorarem completamente o que é o bem, acabaram se tornando maus, porque ignorantes e maus, por igual, detestam e abominam a sabedoria. Restam, então, aqueles que, não se encontrando absolutamente isentos nem do mal nem da ignorância, não foram, contudo, pervertidos até o ponto de perderem a consciência de seu estado algo faltoso, havendo nestes seres a capacidade de buscar se melhorarem.”

“Creio que agora, Lísias e Menexeno, descobrimos de forma mais clara que antes no que consiste o ser amigo e o não o ser.”

“- Ah, Lísis e Menexeno! Grande risco corremos de que o dito até aqui não seja mais que névoa e engodo.
- Mas por quê? – me perguntou Menexeno.
- Temo que caímos de novo no abismo do ridículo tergiversando sobre a amizade, como sucede aos charlatães!
- Como isso se deu?
- Assim: não é verdade que quem ama, ama alguma coisa? Ou não?
- Ama alguma coisa, Sócrates.
- Ama-o gratuitamente, ou ama-o por alguma coisa e com vistas a alguma coisa?
- Ama porque tem alguma razão para amar.”

“- O doente, como já dissemos, é amigo do médico. Não é assim?
- Sim.
- Se ama o médico, é por causa da doença e porque busca a saúde.
- Sim.
- Mas a doença é um mal.
- E como não seria?
- E a saúde, é um bem ou um mal? Ou seria um intermediário entre os dois?
- Um bem, em absoluto.
- É, já concluímos antes que o corpo é que é a instância intermediária: nem bom e nem mau por si mesmo, ele ama a medicina por conta da doença de que padece, i.e., por causa do mal; enquanto que a medicina é um bem, e qualquer um que esteja na condição do corpo ama a medicina, invariavelmente, porque deseja ser são. Concordas mesmo que a saúde seja um bem?!
- Acabaste de perguntar a mesma coisa e eu acabei de dizer que sim, Sócrates!
- Pois bem: e a saúde, é amiga ou inimiga?
- Do corpo? Amiga.
- E a enfermidade, é inimiga sua?
- Com certeza.
- Logo, o que em si não é nem mau nem bom ama o que é bom, por causa do que é mau, e justamente porque busca e tem um afã pelo que é bom!
- Estiveste perfeito em tuas palavras, Sócrates.”

“Prosseguindo assim indefinidamente, é necessário que cheguemos a um princípio que não suponha nenhuma outra coisa amada, isto é, a um princípio primeiro da amizade, o mesmo em virtude do qual dizemos amar todas as demais coisas.” “Todas as demais coisas que amamos em virtude deste primeiro princípio não passam de ilusão, a dizer verdade. Não são mais que imagens; o primeiro princípio mesmo é que deve ser o único e mais importante dos bens, aquilo que amamos por trás e acima de tudo.”

“- ...nada no mundo é mais amigo que este princípio, que rege todas as amizades existentes.
- É bastante provável.
- Por conseguinte, o verdadeiro amigo jamais é amado por causa de outro amigo. Antes, teria de dar-se o contrário.
- Isso é uma conseqüência lógica imprescindível.”

“- Se o mal desse origem à amizade, uma vez destruído o mal, a amizade não poderia existir, porque quando a causa cessa, é impossível que o efeito perdure.
- Exato.”

“De duas, uma: Se o conveniente difere do semelhante, parece-me, Lísis e Menexeno, que finalmente encontramos o discurso final sobre a amizade, o santo graal neste tema. Mas se o conveniente e o semelhante resultam ser, afinal, uma mesma coisa, não nos será nada simples nos subtrairmos à terrível objeção de que o semelhante é inútil ao semelhante, uma vez que idênticos não se interessam um pelo outro; e, além disso, defender, a partir daí, que o amigo não é útil seria um absurdo completo, embora fosse a consequência mais lógica das premissas! Quereis, para não alucinarmos com nossos próprios discursos disparatados, que demos por consumado de uma vez por todas que o conveniente e o semelhante são, pois, diferentes entre si?”

“- Mas quê! Se o bom e conveniente não são senão uma mesma coisa, só o bom pode ser amigo do bom!
- Decerto.
- E creio que já nos cansamos de refutar esta possibilidade, não é assim?
- Sim.
- Então, para quê continuar? Não está claro que não chegaremos a lugar nenhum?”

“Quando já nos íamos, disse a Lísis e Menexeno que ao que parece passamos por uns patetas e caímos no maior ridículo, eles e eu, naquela reunião anagógica. Velho como já sou, isto é vergonhoso sobretudo para mim! Porque todos os ouvintes de nosso diálogo com certeza dirão: estes três consideram-se amigos – mas não chegaram a nenhuma conclusão sobre o quê é um amigo!”
Rafael Cila Aguiar e Platão
Enviado por Rafael Cila Aguiar em 14/12/2019
Código do texto: T6818716
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Sobre o autor
Rafael Cila Aguiar
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 32 anos
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Rafael Cila Aguiar