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FORMAÇÃO CONTINUADA: contradições e relações de poder

                                               Prof. Me. Arivaldo Leandro da S. monte

De que maneira, e sob que medida, as relações de poder interferem nos fatores resultantes das Políticas de Formação Continuada? E ainda, a que se deve suas contradições discursivas e ideológicas?
Estas questões intrigam, principalmente, porque circulam de maneira vertical como se apenas o trabalho de formação continuada e inicial para o professor, e a progressão para o aluno, dessem conta de inúmeros outros problemas sociais de proporções e envergaduras bem maiores. Na educação as normas vêm sempre de cima para baixo, esquecendo-se das estruturas sociais e do papel essencial do Estado nesses problemas. Sem que este aja sobre as necessidades e carências do aluno e do professor, necessidades estas as quais começam para além dos muros da escola. Acaba que tudo fica a cargo do professor, da escola, da educação.
Compreende-se que a Formação Continuada precisa ser constantemente observada, não somente como um aspecto da educação formal, mas, sobretudo, como uma questão social, política e de identidade institucional, tanto para as instituições de ensino como também para os professores, lembrando que essa formação não é a solução de todos os problemas da educação.   Buscar explicações, ou criar alternativas, que possam superar, ou mesmo esclarecer essas questões, pode ser um subsídio importante para desconstruir uma imagem equivocada de super-herói a respeito do trabalho docente, coisas como: “a educação é o futuro do Brasil”, “Sem educação esse menino não tem futuro”, “professor herói”, “professor por vocação e amor” etc.
 Em termos, isso implica não levar em consideração as dificuldades conflitivas de sua aplicabilidade no mundo pós-moderno – incluindo um rápido passeio pela estrutura social e o momento histórico pelo qual passamos – uma vez que, o desenvolvimento da formação continuada do indivíduo é contextualizado pelas condições históricas, sociais, culturais e materiais, os quais estão em constante transformação e cheios de contradições. Esse papel heroico do professor e da escola Implica também no esquecimento das discussões em torno da valorização do professor, na sua formação, remuneração e condições de trabalho. Como se esses fatores não tivessem nenhuma correlação.
Esse tipo de pensamento que coloca o professor na berlinda, em que ele é o único responsável pelo fracasso ou sucesso do aluno só interessa ao sistema neoliberal do nosso governo que tem sempre a quem culpar pelas suas omissões e crescente desigualdade social.
Sobre as contradições
A respeito disso começo observando o currículo multiculturalista, o qual aponta uma contradição que, penso eu, já se naturalizou em nosso meio: “É fato paradoxal, entretanto, que esta suposta diversidade conviva com fenômenos igualmente surpreendentes de homogeneização cultural.” (SILVA, 1999, p. 85). Lendo esta citação vejo as relações de conflitos e contradições entre diversidade e homogeneização, da seguinte forma: – como podemos defender o discurso da diversidade e ao mesmo tempo pregar para nossos alunos padrões de comportamento cultural, estabelecer disciplina, uniformes, normas da língua, heróis da história nacional, tornando-os cada vez mais previsíveis e iguais em pensamento? – Isso é no mínimo contraditório, sem falar nas avaliações externas: Prova Brasil, Ideb, ENEM, etc. E mais adiante o autor completa de maneira enfática: “De uma forma ou de outra o multiculturalismo não pode ser separado das relações de poder.” (idem, p.85). Ora, as diversidades e o multiculturalismo são resultantes das lutas de poder, por um espaço social dominado pela cultura dita oficial, aquela que deve ser ensinada nas escolas. Sempre houve uma cultura rica e uma cultura pobre por debaixo do pano, proibida de se falar – do mesmo modo que o racismo estrutural foi jogado para debaixo do tapete –. Desse modo, não há como deixar de refletir as políticas públicas voltadas para essa mesma educação continuada e pensar sobre as relações de poder e seus efeitos sociais. Parece-me pouco provável que uma pequena classe meritocrática dominante dê voz, em pé de igualdade, para os dominados.
Sobre as relações de poder
Há, nesse instante, uma grande perplexidade de um olhar impotente para um modelo de escola, e de professor, que parece já não representar a sociedade contemporânea com suas TIC’s e que precisa de uma nova configuração com a devida urgência e relevância que exigem as transformações tecnológicas, pois o impacto nacional dos sucessivos fracassos escolares tem gerado grandes preocupações e questionamentos quanto à necessidade de mudanças de paradigmas.
Desse processo de transformação, não se pode deixar as estruturas das relações sociais – que envolvem o professor, o aluno e a sua família – do lado de fora do muro das escolas, sob pena do desconhecimento das origens sociais que contextualizam o aluno e o seu capital cultural, já que estas parecem ser condições estruturais importantes para se obter resultados positivos nos diálogos escolares, como muito bem observa Freire (1981):

“Como posso dialogar, se me sinto participante de um gueto de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora são “essa gente”, ou são, “nativos inferiores”?
Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?”(FREIRE, 1981, p. 95).


No entanto, o que se pode inferir nesse momento é um constante jogo de interesses de poder, partindo quase sempre do topo das redes através de um discurso amplo e homogêneo, de metanarrativas em forma de currículos – que parecem pretender abarcar o conhecimento inteiro da humanidade –, normas e diretrizes que apontam soluções heroicas com as mais variadas fórmulas possíveis, mas que merecem uma detida e longa reflexão sobre sua verdadeira eficácia. Isso porque este arcabouço de fórmulas milagrosas tem como centralidade, quase sempre, a salvadora figura do professor ideal, quase sempre institucionalizada pela formação inicial ou continuada.
Este conflito de discursos institucionais, que parecem engendrados pelo jogo das relações de poder em todos os âmbitos, merece um olhar mais apropriado e cuidadoso, já que, em grande medida, é o profissional docente que absolve a maior parte da responsabilidade, quando algo não sai de acordo com as metas desejadas.
Estas relações de poder são desenvolvidas por Foucault (1979), em Microfísica do Poder, nas suas mais variadas formas e espaços. O poder está fragmentado, diluído na sociedade, nos grupos, nas instituições e nos indivíduos. Porquanto, o Estado, na sua forma de controle, exerce uma substancial parcela de influência sobre os instrumentos de dominação ideológica na educação. Isso pode incluir as políticas de formação continuada e todas as outras que se somam ao mesmo teor. A exemplo disso podemos citar a nova BNCC como mais um possível instrumento de controle social, reproduzindo o que mais interessa ao sistema neoliberal e alargando as desigualdades sociais.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, P. O poder simbólico. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 5 ed. São Paulo, Loyola, 1999.

FOUCAULT, Michael. Microfísica do Poder.  Disponível: https://ayrtonbecalle.files.wordpress.com/foucault-m-microfc3adsica-do-poder.pdf acessado em 26 set. 2018.

FOUCAULT, Michael. Microfísica do Poder; 4 ed. organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal. 1984.
FREIRE, Paulo. Educação Como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1985.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 9ª. Ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
Leandro Dumont
Enviado por Leandro Dumont em 07/04/2021
Código do texto: T7226179
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Sobre o autor
Leandro Dumont
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