PELÉ, O HOMEM E O MITO

 

Tive o privilégio de ver o Pelé em campo. Foi num domingo de dezembro de 1964 no Pacaembú. Uma semana antes o Santos aplicara uma goleada de 11 a O no Botafogo de Ribeirão Preto. O Corinthians acabara de contratar o lendário técnico Osvaldo Brandão, que coincidentemente tinha sido treinador do Botafogo na goleada de 11x0. O Santos goleou o Corinthians por 7 a 4 naquele jogo. Pelé fez quatro gols. Contra o Botafogo já fizera oito. Em uma semana, o danado havia feito doze gols.

Como corintiano odiei o Pelé por ter massacrado meu time naquela tarde e por uma década inteira nos mantido sem vitória contra o Santos. Odiei e amei. Odiava quando ele jogava contra o Corinthians e amava quando ele judiava dos outros times e dava o seu show. Especialmente quando jogava pela seleção brasileira.

Anos depois, trabalhando na Alfândega de Santos, tive oportunidade de conhecer o cidadão Edson Arantes do Nascimento. Ele havia ganho uma Mercedes Benz, que lhe foi doada pela FIFA. A legislação aduaneira vigente na época proibia a importação de automóveis e naturalmente a fiscalização apreendeu o veículo. Face à situação conflituosa que se estabeleceu em virtude do incidente, não fiquei bem impressionado com o cidadão Edson Arantes do Nascimento. Durante todo o processo ele mostrou uma postura arrogante, soberba e crente que devia ser tratado com deferências especiais em virtude da sua grande história. A questão foi resolvida mais tarde através da chamada Lei Zico, mas dele me ficou a impressão desagradável.

Hoje, quase quarenta anos depois, com uma bagagem cultural diferente da que eu tinha na época, a questão me aparece sobre outro ângulo. Guardadas as devidas proporções, vejo o Pelé sob o mesmo prisma em que alguns filósofos gnósticos dos primeiros séculos do cristianismo viam a figura de Jesus. Eles acreditavam que Jesus hospedava duas personalidades distintas: a humana, que nele viveu até os trinta anos, quando foi escolhido por Deus para cumprir uma missão redentora, e a divina, o Cristo que nele encarnou ao ser batizado por João no Rio Jordão quando sobre ele desceu o Espírito Santo em forma de pomba. O Cristo habitou nele durante três anos, até a morte na cruz.

Eu não sei quando a personalidade divina encarnou no homem Edson Arantes do Nascimento. Talvez tenha sido quando o Waldemar de Brito o levou à Vila Belmiro. Para mim foi naquele domingo no Pacaembú, quando ele destruiu o meu Corinthians. Os gnósticos diziam que o homem Jesus morreu como qualquer outro. Mas seu espírito, o Cristo, permanece para sempre como guia para toda a humanidade. Sem querer ser herético, do Pelé podemos dizer a mesma coisa. O homem Edson Arantes do Nascimento era um mortal comum com virtudes e defeitos. Morreu no dia 29 de dezembro de 2022. O mito Pelé, entretanto, é imortal e será reverenciado para todo o sempre como o Deus do Futebol.