ANÁLISE TEMÁTICA COMO MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO DAS CONTRIBUIÇÕES LITERÁRIAS DE MAX MARTINS.

ANÁLISE TEMÁTICA COMO MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO DAS CONTRIBUIÇÕES LITERÁRIAS DE MAX MARTINS.

RESUMO

Através deste artigo pretende-se seguir um fio condutor nos conduzindo ao entendimento e compreensão de alguns poemas de Max Martins, desnudando a poesia sob um olhar na criação das significações e percebendo os elementos que estão na superfície pressupondo a ambigüidade de sentidos, e para esse direcionamento utiliza-se como norte, a Análise Temática, método que permeará a análise em si, levando em consideração a coerência e estética sob a luz do surgimento do movimento Modernista no estado do Pará com suas contribuições aos intelectuais do Norte do Brasil.

PALAVRAS-CHAVE: Análise Temática – Modernismo – Existencialismo.

Toda expressão artística reflete de alguma maneira o "mundo" de seu autor. Analisar este mundo é descobrir o modo como o artista enxergava a realidade que o cercava. O Modernismo, sem dúvida alguma, marcou uma violenta ruptura na linguagem artística utilizada até então. Não é difícil de imaginar o porquê. O mundo naquele momento vivia uma grande transformação. A industrialização trazia um número infindável de experiência para o homem comum. A velocidade, as máquinas, as multidões, trouxeram um novo ritmo ao cotidiano.

O encontro de diferentes culturas em uma única cidade industrial produziu novos comportamentos. Alguns enxergavam nisso o progresso e criavam técnicas para exaltá-lo. Eram os Futuristas. Outros como os Cubistas buscavam através de sua técnica as diversas faces desse mundo que se tornava mais complexo. Os Dadaístas simplificavam a linguagem exatamente para representar esta complexidade. O Surrealismo tentou extrapolar este mundo racional e alçar vôo ao universo dos sonhos. Os centros de propagação destes movimentos vanguardistas se encontravam na Europa. França, Itália, Alemanha, Espanha, foram algumas das regiões mais importantes desta reviravolta artística.

No Brasil estes movimentos também ganharam força. Apesar de importados por artistas brasileiros de assídua freqüência nos cafés europeus, foram reinterpretados a partir da realidade nacional. Aqui, principalmente nas grandes cidades, a industrialização e a Primeira Guerra também trouxeram significativas transformações no universo social. O Movimento Modernista mais conhecido no Brasil ocorreu em São Paulo e seu principal foi a Semana de Arte Moderna de 1922.

Com o surgimento do Modernismo no Pará, a nova arte deixa de lado os velhos moldes literários, ainda internalizados à estética do Simbolismo pelos intelectuais Paraenses, na década de 20. Em Belém no ano de 1921 congregava na “Associação dos Novos”, após esse período começa a circular de 1923 a 1929 apesar das precárias condições financeiras de seus idealizadores a revista literária “Belém Nova” sob a direção de Bruno de Menezes, e com a publicação de sua obra Batuque (1931) valorizando a peculiaridade cultural do nortista.

No entanto, a consolidação dos ideais modernistas no Pará surte efeito com a “Academia dos Novos” tendo como idealizadores: Benedito Nunes, Rui Barata, Paulo Plínio Abreu, Mario Faustino, Haroldo Maranhão e Max Martins. Vale ressaltar que Max Martins torna-se elemento de expressão literária na incorporação do pensamento modernista no Pará.

Max Martins, que nasceu em 20 de junho de 1926 em Belém do Pará, tem quase meio século de poesia publicada. Começou com O Estranho (1952), passou pelo Anti-Retrato (19G0), Alguns Poemas (1965), 15 Poemas (1970), H'era (1971), O Ovo Filosófico (1975); O Risco Subscrito (1980), A Fala entre Parêntesis e Abracadabra (1982), Caminho de Marahu (1983), 60/35 (1986), Poema Cartaz e 3 Poemas (1991), Não para Consolar: Poesia Completa e Para ter aonde ir (1992).

Max dividia sua existência em Belém entre o amor pela família e o trabalho na Casa da Linguagem com a amiga (também escritora) Maria Lúcia Medeiros, os intermináveis saraus na casa do amigo Benedito Nunes, um ou outro copo de vinho com os amigos no Bar do Parque, sua cabana na praia do Marahu, na ilha do Mosqueiro, as idas ao velho continente para visitar o também amigo e eterno parceiro de poesia, Age de Carvalho.

Distingo duas grandes virtudes nesta poesia. Ambas traduzem a habilidade do poeta Max Martins em transmutar em liberdade o que, originalmente, parece ser injunção do destino. Assim, no primeiro caso, a fatalidade de ter nascido e viver na região amazônica preenche esta poesia de uma carga semântica iluminada por metáforas úmidas, de modo que o poeta e mestre Zen - mas sem ceder aos apelos fáceis forjados neste sentido, pois se preza ao prezar seu ofício - enterra seu "cajado de bambu" nesse pedaço de solo fértil do Ocidente que constitui como diria o poeta, a "vulva" mais cobiçada do planeta.

Além disso, diante da obrigação quase obsessiva (que chega ao fastio) da poesia atual em tematizar o próprio processo da escritura, escondendo-se freqüentemente, neste recurso, a falta do que dizer e, em suma, a ausência de talento genuíno, nosso poeta não ignora que "a língua foi origem do mundo". Porém sabiamente, faz disso um instrumento de seu lirismo, de modo que essa língua original torna-se também a língua do beijo na sua querida musa, beijo que vai "do zênite da boca ao papel suado da terra, em que crescem os mamilos da rosa".

Faz-se preciso inserir neste contexto as contribuições dos teóricos da Análise Temática, que fornecerá a ferramenta necessária na tentativa de elucidar, Tendo como eixo central o Tema, que é a criação ou o modo peculiar do ser humano perceber e criar sua relação com o contexto social, já que o tematismo é o objeto básico que indaga qual motivo leva o poeta a falar sobre os elementos que o cerca.

Busca-se nas contribuições teóricas deixadas por Jean-Pierre Richard e Serge Doubrovsky acerca do Tema:

Para esta análise utiliza-se dos poemas: H’Era, Koan, Talvez Canção, X e Travessia, de autoria do poeta Paraense Max Martins, na tentativa de perceber o tema na superfície de cada poesia. A partir deste momento inicia-se a análise propriamente dita, pois já foram feitas as assertivas históricas e teóricas, buscando na base dos poemas os elementos que figuram constantemente que serão tratados como Tema: Mutação (nos sugere mudanças, transformações), a Existência da humanidade e a Missão do poeta.

H’Era – O próprio título sugere dupla significação (Ambigüidade) decorrente da Homonímia (Fenômeno Lingüístico), pressupondo os seguintes entendimentos:

• Hera - espécie de planta, portanto pertencente à Classe Gramatical dos Substantivos.

• Era - simbolizando tempo/período, portanto pertencente à Classe Gramatical dos Verbos, quando conjugado é da 3ª pessoa do singular.

Os vários significados estarão sempre presente no teor das poesias, e para melhor perceber essa plurissignificação lingüística, analisaremos a primeira estrofe do poema.

H’era

Em verdes eras – fomos

hera num muro

cantochorado pelo vento

que envolvia tudo – o verde –

embora o verde às vezes de haver se ressentisse

no olhar de quem

além

a gente amava ave.

Vale ressaltar que nesta criação o poeta Max Martins faz jus homenagear seus amigos (Sylvia e Benedito) embora sejam desconhecidos ao público leitor, porém sugere o que algumas pessoas eram no mundo caracterização de uma fase da vida (desejo) simbolizando o ciclo da virilidade da vida, sexo, do passado. No olhar da pessoa amada havia ressentimento.

No 1º verso do poema a palavra verdes, podendo ser o oposto de maduro, representa o jovem, a juventude; no 3º verso a palavra cantochorado, expressa tristeza e no 8º verso a palavra ave, cujo sentido significa leveza, a pessoa amada.

Mesmo com a dificultada encontrada para leitura do poema, pode-se perceber um ar de inocência marcado por “verdes eras” e o verbo “fomos”, compondo o vegetal “hera” á noção de consonância entre vários seres que se ramificam e se espalham como “hera num muro”. O “verde” que envolvia tudo está abandonado, assolado e desprotegido, ficando a mercê do vento que geme e chora. O processo se consolida na segunda estrofe, quando o poeta melhor define como se constituía essas “verdes eras”.

Éramos

E perdurávamos

avos do ser estando em dia a carne

para o pacto-pasto das raízes,

um rio-sim manando milhas

de sonhos-hervas, grãos

de sêmem solto amanhecente – o sol

a sombra

a relva.

Sintaticamente as palavras estão longes umas das outras, eram parte do ser aptos para o sexo, prazer físico, estavam em plena juventude, força reprodutiva, o passado fica caracterizado como a juventude em sua virilidade repleta de possibilidades, o pacto da carne é o “rio-sim” (rio afirmativo, caminhando) escorrendo e criando sonhos e suavidade (hervas), tendo as sementes (sêmem) do sol e relva como da sombra (tristeza). Temos a resposta na última estrofe.

E se era inverno, o verde sido,

um não-sim, um eco

ainda assim se condizia

no próprio coração dos que no leito amando

agora se desamam

ou se desdizem – h’era

amor tecido contra o muro.

O inverno simbolizando o fim da virilidade a chegada da velhice. Esse amor tecido no muro se foi só ficou a lembrança. O tempo do verde foi substituído pelo inverno, à mudança se faz presente, aquele impulso de vitalidade representado pelo amor ou desejo sexual, agora é apenas recordado como um “eco”, a conjugação do “pacto-pasto” se desfaz no “leito dos que agora desamam”. A era (tempo) do amor tecido no muro, ramificado, crescendo e se espalhando cessa, torna-se hera amortecida contra o muro, simples vegetal. O fim do amor, da inocência, da vitalidade.

Koan – Na criação desse poema Max Martins, utiliza palavras eróticas para refletir sobre coisas graves e incômodas, devido não se encontrar considera-se um lavrador na arte de construir palavras. A pá simboliza a caneta, instrumento indispensável de uso do poeta no ato da criação das palavras.

KO  Perto, visível (Existência).

AN Longe, invisível (Essência).

Koan

A pá nas minhas mãos vazias

Não a pá de ser

mas a de estar, sendo pá

lavra no vento

nuvem-poema

arco

busco-te-em-mim dentro dum lago

max

eKOÃdo

e a face ex-garça-se verdemusgo

muda

(Quem com ferro fere

o canto-chão

infere o

silen

cioso

poço?)

pá!

Cavo esta terra – busco num fosso

FODO-A!

agudo osso

oco

flauta de barro

sôo

Silentes os sulcos se fecham

espelhos turvam-se

e cavo sou

a pá nas minhas mãos vazias.

Max através deste poema tenta encontrar-se, busca no lago tentando definir sua existência, quem escreve cava e o “poço” dando sentido de lugar que se pode perder e achar (Existência). “Fodo-a” palavra vulgar que utiliza para exaltar a sexualidade sendo inadequada para compor sua inquietação e acaba tendo uma ilusão de si mesmo.

Talvez Canção  Representa o amor é ilusório e não absoluto, um presente com recordação do passado a expressão melancólica e negativa do amor. “Verão” (ver); “flores” simbolizando a beleza, juventude como podemos perceber na primeira estrofe do poema.

Talvez Canção

Verão em maio.

Flores abrir

verão teus olhos,

o vero sol

à sombra juventude

de teus cílios

Na segunda e terceira estrofe a composição poética nos sugere elementos: positivo (disfórico) negativo (eufórico), tendo a “noite” simbolizando a velhice; “dia-amante” representando dia, brilho (a força do amor), ou seja, alguém viu a noite, viu o orvalho. O verde já passou, não é mais verão. “ver-te manhã” é inútil e vê-la na juventude.

Á noite viste

do orvalho vir

o dia-amante

ver o teu sono

em verde sido.

Ver-te manhã:

tal vês o ver

de que te vejo não é mais verão, o verde já passou

em vão.

X  O poeta busca o absoluto, da impossibilidade de se explicar o ser. Para o poeta tudo é simbólico, emblemático. A palavra “problema” quando não se é poeta, a tarde sempre é uma tarde, portanto gera um problema quando não se percebe o sentido da palavra.

X

A tarde era um problema

(emblema)

a

re

(sol)

VER

o parque

Um violino com seu arco – armava a ponte-pênsil

para o crepúsculo

teias

fibras, fi(m)lamentos

entre

sombras, sabres maduros, árvores

em silêncio.

Idem

a Catedral

de granito, dura

enigmaticamente

g’ótica

no meio do parque

ÔLHO

genitoris ego

cêntrico

órgão só ave

e

santo

CANTO

ergo:

D’ego

Imo

lado: pânis lado: pênis:

Era

a hora do Juízo

Estendido sobre a grama nu o poeta ruminava a sua

semente-alvo.

Salvo

(e insolúvel)

Na 7ª linha do poema a palavra “parque” estabelece sentido no que possa ocorrer em um parque em uma determinada tarde; o sentido metafórico percebe-se na expressão que surge na 8ª linha, assim como a referência a: gene, genética, genital “genitoris”. È interessante observar nas linhas finais do poema uma estrutura construída nos moldes simbólico da Santíssima Trindade na forma de um triângulo. Neste momento o poeta está despido dos preconceitos é chegada à hora de resolver o problema, achar a solução, mesmo não os encontrando.

TRAVESSIA - Os versos fortes do poema Travessia I, de 1966, revelam a intimidade do poeta Max Martins com o jogo de palavras e imagens, matéria prima da poesia.

TRAVESSIA

Nasci no mar, dans lê bateau

ivre,drapeau d’Arthur, de la nuit:

batei fazendo o mapa e o mapa

estas suas águas mágoas,

vagas lembranças, lençóis e quebrantos.

Nesta primeira estrofe Max Martins tece com maestria o poema utilizando palavras, que para um iniciante causaria certo desinteresse em ler, por conter expressões com um determinado grau de compreensão, porém com auxílio da Semiótica Discursiva analisa a transmutação através do Eufórico (elemento positivo) para o Disfórico (elemento negativo). Fica claro que o poeta está no auge de suas potencialidades masculinas, mostrando que a completude do ser depende de toda a sua compleição corpórea, do cérebro ao pênis. De forma que o poeta fará constante referência aos órgãos genital masculino e feminino, sem que isso tenha conotação erótica, sendo um jeito especial de falar quanto à questão do gênero. No entanto o poeta segue com destino exclusivo a certo e determinado lugar, estando contaminado, sem nenhuma imagem grandiosa que foi. Onde exatamente na última estrofe confirma a assertiva a transição da juventude para a velhice, tratada como uma viagem existencial.

Canto esta viagem donde trouxe

astros e asas pelos mastros

(e aos seus lamentos eis-me chegado

- piapitrum(*) no rio defunto

impaludado.

Hoje, aos 84 anos, Max Martins é o maior poeta paraense em atividade. Para falar de vida, poesia e lembranças, ele foi entrevistado pelo jornalista Tito Barata para o site Belém do Pará . E publicada na semana de 24 a 31 de julho de 2000.

Disciplinado, Max é autodidata. Concluiu somente o curso primário, mas aprofundou-se no estudo da palavra através da leitura de ensaios, romances e poemas. Fez parte de uma geração de intelectuais que freqüentava as reuniões do Central Café, em Belém, lideradas pelo professor Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o Chico Mendes.

Ao longo da vida, publicou onze livros que estão reunidos na Poesia Completa Não Para Consolar, de 1992, Edições Cejup.

Sônia Martins
Enviado por Sônia Martins em 28/12/2008
Reeditado em 27/12/2012
Código do texto: T1357046
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