MÁRIO CABRAL E ANA MEDINA

Acredito que estava nos prados da pré-adolescência quando conheci Ana. Morávamos na mesma rua, em Aracaju, a Laranjeiras, eixo do centro comercial. A vizinha deslizava pelas calçadas da histórica localidade. Os olhos da moça pareciam buscar algo no azul ou no branco das nuvens da manhã da capital do Estado de Sergipe, àquela época, uma espécie de enjeitado no mapa do país.

Depois fiquei sabendo que aquela estudante, sempre abraçada aos livros, viera de Boquim, município sergipano famoso pelos imensos laranjais, terra de intelectuais e de muita beleza.

A moça dos livros começou a passar de mãos dadas com um rapaz de porte elegante e de feições que chamavam a atenção das jovens aracajuanas. Era o gaúcho pela mão e, os livros, ele os portava cavalheirescamente. Casaram-se.

Passados alguns anos, reencontrei Ana Medina frequentando as reuniões da Academia Sergipana de Letras. Imortal, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, da Associação Nacional do Rio de Janeiro e atual vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura de Sergipe, autora de vários livros. Enfim, a inteligência e a finesse naquela mulher que dedicou a vida aos estudos, à pesquisa e também à família.

E Mário Cabral, quem é, de onde é e o que fez na vida? Diria que todas as palavras são insuficientes para falar do poeta, advogado, jornalista, homem público e amante apaixonado pela sua musa maior, a cativante cidade de Aracaju.

Por que eu diria mais sobre Mário Cabral? Ana Medina o diz como ele gostaria de ser dito, tanto que a escolheu sua biógrafa. Li e reli incontáveis vezes Mário Cabral, vida e obra. Também as palavras pouco conseguem expressar a minha admiração e o meu agradecimento pela confiança de Ana em me integrar à sua equipe técnica, constituída para a elaboração da obra pioneira e inigualável sobre o homem e o intelectual mais querido entre seus pares, em Sergipe e na Bahia, onde viveu um bom período de sua vida.

Não conheci pessoalmente o poeta de Aracaju, bye, bye e dos “beirais vermelhos”, entretanto, posso considerar-me sua amiga, companheira e camarada. De tanto que li sobre ele na irretocável obra lançada no dia 17 de setembro de 2010, no Museu Palácio Olímpio Campos.

Todo o livro é uma obra de arte e nele refulge a palavra do prefaciador, Wagner Ribeiro, outro imortal do mesmo naipe da autora e do biografado.

Ao realizar a minha tarefa no texto da obra em pauta, fui extremamente feliz e a Mário me entreguei totalmente. Eu já o amava e, durante a obra, apaixonei-me de tal forma que, especialmente seus versos, poemas e imagéticos sonetos entremearam-se à minha carne e ao meu espírito.

Muito ainda se dirá sobre o valor desse sergipano e sobre o livro de Ana Medina, tanto nos meios acadêmicos quanto pelas rodas de intelectuais boêmios como ele o foi, louco pela vida, pela sua eterna namorada-musa, Sylla, e pela Poesia.

A criteriosa e fundamentada resenha, elaborada pela Professora da UFBA, Maria da Conceição Paranhos, PhD em Literatura Comparada, é a constatação científica do empenho e da categoria que marcam a formulação de uma biografia.

Mário Cabral está vivo, palpitante de amor e de poesia. Ouço-lhe a voz declamando a

LIÇÃO DE POESIA

A poesia é o sofrimento

sublimado. A dor íntima,

subjetiva, indefinida,

tradução da tristeza e do abandono,

não compatível com o ser-feliz.

A poesia é a noite, o inverno,

O uivo de um cão.

O guarda noturno,

o mendigo incendiado,

a amarga separação.

É a mágoa de um bar,

magia do sonho, da luz ou da fumaça,

do Martini esquecido sobre a mesa,

do piston a gemer de madrugada,

da dorida expressão confessional.

São os descaminhos e os desencontros

do amor, do ciúme, da ausência,

da incompreensão sem remédio.

Todos os poetas cantaram o sofrimento

do homem, seus anseios, suas angústias.

Não há alegria em Elliot,

Rilke, Baudelaire ou Shakespeare.

O verdadeiro poeta quando não sofre

inventa o sofrimento.

Veste, como uma luva, a roupagem

dos famintos e dos desgraçados,

dos grandes traídos e dos solitários.

_ Quem, afinal, já escreveu a poesia feliz?