NÓS, QUE VAMOS MORRER, VOS SAUDAMOS

                         
 
As torcidas organizadas são uma praga que infesta o Brasil de hoje. Mas ela é coisa tão antiga quanto corrida de cavalo. Sua origem mais remota está nos circos da antiga  Roma, na época dos primeiros Cézares. Chegou ao auge no tempo do Imperador Justiniano, quando elas se organizavam nos hipódromos para apoiar corridas de bigas e lutas entre gladiadores. Edward Gibbon, em seu livro Declínio e Queda do Império Romano, conta que nas grandes metrópoles do Império, como Roma, Constantinopla, Antioquia, Corinto, os condutores das bigas se vestiam de branco ou vermelho e os espectadores se organizavam para torcer para um ou outro. Com o tempo, essas torcidas começaram a se vestir com as cores do seu auriga, ou gladiador favorito, para ir ao circo ou ao hipódromo. Logo elas começaram a se identificar mais com as ideologias das facções que elas representavam do que com a própria disputa no estádio. Nos tempos de Justiniano havia quatro facções, que se organizaram legalmente e passaram a refletir os conflitos filosóficos, religiosos e políticos da época, Em conseqüência, começaram as brigas entre as torcidas fora dos estádios. A evolução para verdadeiras batalhas campais foi uma conseqüência natural. As próprias autoridades, não raras vezes, entravam na briga para apoiar uma ou outra facção. Houve momentos em que as brigas das torcidas organizadas, em Constantinopla, comprometeram tanto a ordem pública que o próprio estado esteve a ponto de ser extinto. 
O império romano, nos dias de Justiniano, já estava em franco declínio. Como bem observa Gibbon, os gregos inventaram as Olimpíadas para emular as virtudes que se adquirem com uma boa educação física. Os jogos Olímpicos era uma forma de superação de limites. Qualquer espectador que tivesse condição podia participar e sentir-se um Aquiles, um Heitor, um Alexandre. Os romanos avacalharam tudo. Os jogos do circo romano eram patrocinados pelo estado, como forma de manipulação política de um público ocioso e servil.
As loucuras das facções no hipódromo bizantino têm sido apontada pelos historiadores como um exemplo da corrupção dos costumes que levou a grandiosa civilização romana à ruína. O termo “bizantino” tem hoje o significado de coisa vazia, inútil, fútil. É o que parece estar acontecendo agora. Quem olha para alguns desses indivíduos que participam das torcidas organizadas dos nossos grandes clubes mal consegue identificar neles um ser humano. E não pode deixar de pensar que  estamos voltando aos tempos bizantinos, com seus gladiadores com suas espadas tintas de sangue e as turbas selvagens, com clavas  nas mãos, prontos para romper a cabeça de quem aparecer na sua frente com as cores do rival. Naquela época os governantes toleravam e incentivavam a ignorância e a selvageria das torcidas organizadas por interesses políticos. Davam pão e circo para uma população que não precisava trabalhar para comer porque o estado romano, escravocrata e corrupto, provia o necessário para ela. Hoje, qual será motivação? Como não há nada de novo debaixo do sol, segundo diz o Eclesiastes, é questão de perguntar? A quem interessa preservar esses grupos de vagabundos desordeiros? A quem interessa transformar os nossos estádios em verdadeiros circos romanos? Por que essa praga é tão resistente que ninguém consegue extirpar? Ir a um estádio hoje é se sentir um cristão jogado em uma arena nos tempos da Roma antiga. É dizer, como os antigos gladiadores: Nós, que vamos morrer, vos saudamos.