A BONDADE DOS FARISEUS

 

As pesquisas eleitorais têm tirado o sono dos bolsonaristas e do próprio presidente. A estratégia terrorista que ele adotou, de vencer pelo medo, acusando Lula de querer implantar o comunismo no Brasil não têm dado certo. Todo mundo já percebeu que isso é uma bobagem sem tamanho. Se Lula fosse comunista já teria implantado esse regime no tempo em que o PT governou o país. Teve quatorze anos para isso. Mas mesmo os petistas mais radicais sabem que qualquer aventura nesse sentido terá uma resistência inquebrantável, tanto das Forças Armadas quanto da sociedade brasileira em geral, que é francamente patrimonialista e jamais aceitará viver em um regime cuja matriz ideológica é o banimento da propriedade privada. Bolsonaro se apresenta como liberal, mas na prática está usando as mesmas armas dos chamados “progressistas” que elegem Lula como seu líder. No fundo não passa de mais um político populista cuja única ideologia é o exercício do poder. E para isso qualquer estratégia é válida. Mesmo que ela seja uma bomba relógio de efeito retardado que irá explodir justamente no colo do próximo presidente. Isso é o que a PEC aprovada pelo Senado irá proporcionar. O raciocínio bolsonarista, nesse caso, é simplesmente maquiavélico: se Bolsonaro perder, como tudo indica que irá acontecer, o próximo presidente herdará uma terra arrasada pelo descalabro fiscal e financeiro que ela irá provocar no orçamento do país. Se, por outro lado, ela vier a funcionar como alavanca para a sua reeleição, coisa que parece improvável, então ela será midianizada como sendo a salvação da lavoura,  

Todavia, só mesmo os cegos pelo escotoma bolsonarista acreditam que essa PEC do desespero tem a finalidade altruísta de minorar a situação dos milhões de brasileiros que entraram para a fila da pobreza extrema no governo atual. Na verdade, tudo não passa de um cruel engodo eleitoral. A ampliação do benefício do Auxílio Brasil, de R$ 400 mensais para R$ 600 mensais, em nada vai minorar a situação dessa gente. Fernando Bezerra, o líder do governo, autor dessa proposta, acha que R$ 26 bilhões serão suficientes para “zerar a fila” dos famintos, proporcionando a incorporação de mais 1,6 milhão de famílias às 18 milhões que já estão no programa do Auxílio Brasil. O que ele não disse é que R$ 600 hoje, em termos de poder aquisitivo, é menos do que foram os 400 reais em 2020. E o tal vale combustível que ele quer dar aos caminhoneiros é uma brincadeira sem graça, principalmente em se considerando que ele, como presidente do país controlador da estatal que monopoliza a produção e a distribuição de combustível, se quisesse, já poderia ter dado um jeito nessa situação há muito tempo.

A verdade é que essa PEC tem o objetivo puro e simples de turbinar benefícios sociais às vésperas da eleição presidencial. Sua validade é até o fim do ano, atropelando a própria Constituição do país. Seus autores recorrem à decretação de um duvidoso “estado de emergência”, que só existe nas expectativas de um governo desesperado para encontrar uma tábua de salvação. Por isso ela está sendo chamada de “PEC do Desespero”, “PEC Kamikaze” ou ainda “PEC do Golpe”. É uma clara tentativa de mudar os rumos da preferência do eleitorado.

Ela vai agora para a Câmara dos Deputados. Que eles não se deixem enganar como os senadores se deixaram. Tudo bem que este é um ano de eleições e todos querem se mostrar “bonzinhos”. Mas a “bondade dos fariseus”, como disse Jesus, sempre teve um custo muito alto. Eles nunca pagam, mas os sacrificados nós sabemos quem são.