CÂNON

REGRAS ESPECIAIS ESTABELECIDAS PARA A ORGANIZAÇÃO BÍBLICA

Introdução:

A Bíblia é um livro e sua formação esta de fato alicerçada na sua construção. A principio pretendo definir da melhor maneira possível como se deu esse processo de formação das Escrituras Sagradas.

Esse capitulo trata do assunto com muita honestidade, pois existe aqui um conteúdo sério e inserido numa pesquisa minuciosa do tema. Quatro questões fundamentais serão abordadas nesse capitulo: “O que é cânon? A construção e formação do cânone, a natureza da canonicidade e as versões da Bíblia”. Com base nessa questão apresentada à formação do cânon torna-se evidenciada.

1.1. O QUE É CÂNON?

A definição plausível do termo: “Cânon” se ajusta no sentido de “regra”. Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento foram compostos para serem “Cânon” (BITTENCOURT, 1965, p. 26). O termo: “cânone” é derivado da palavra grega “Kanõn”, que quer dizer “vara reta, beira reta, régua” (ARCHER, 2005, p. 69). Esse mesmo termo tem sua raiz no hebraico original do Antigo Testamento “Kaneh”, palavra que significa: “vara ou cana de medir”. Observe a referencia (Ez. 40:3). Inevitavelmente a Bíblia Sagrada é normativa para assuntos de fé e conduta.

Segundo Ferreira (2001, p. 127), “Cânon 1. Regra geral donde se inferem regras especiais”. No mundo do Antigo Testamento usava-se essa palavra no sentido mais amplo como: “padrão ou norma”. Já no Novo Testamento usava-se essa palavra no sentido de: “regra de conduta”. Observe a referencia (Gl. 6:16). É bem verdade que os Santos Padres usavam a palavra “cânon” como regra de fé. E nesse aspec as Escrituras Sagradas foram logo mais tarde consideradas como “regra escrita de fé”.

É fato que somente no século IV d. C., os livros da Bíblia foram chamados: “cânonicos” porque foram reconhecidos como normativos para a fé e a vida dos fieis (FONSATTI, 2003, p. 12). Atanásio de Alexandria de 328 e falecido em 373 d. C., foi ele pela primeira vez que fez uso deste termo. A partir de então as pessoas podiam espelhar seu proceder no que esta escrito nas Escrituras Sagradas.

Não saindo fora do assunto, mas dando um pouco a mais de recheio no conteúdo em foco. É necessário destacar a questão da “validade do cânon”. Antes de partimos para o assunto seguinte.

1.1.1. A validade do cânon:

A validade se observa na preservação do conceito “Escrituras Sagradas” pelo povo hebreu desde os tempos do Êxodo de Moisés. Tal conceito vem sendo mantido em validade ao longo dos anos. Segundo Geisler (2001, p. 62), “Um dos conceitos mais antigos do cânon foi o de Escritos Sagrados”. Esses escritos, de fato foram considerados “Sagrados” pela Comunidade Judaica Cristão, pois estavam guardados ao lado da arca da aliança. Observe a referencia (Dt. 31:24-26). O povo hebreu os considerava “canônicos ou sagrados”.

A validade do cânon também se apóia no conceito: “Escritos autorizados”. A canonicidade das Escrituras também é designada autoridade divina (GEISLER, 2001, p. 62). Observamos no relato de Josué a “autoridade” sendo evidenciada ao povo hebreu. Observe a referencia (Js. 1:8). No relato apresentado em Deuteronômio observamos um respaldo geral em que os Reis da nação, são de fato duramente exortados a este respeito. Confira a referencia (Dt. 17:19, 19).

1.2. CONSTRUÇÃO E FORMAÇÃO DO CÂNONE:

No processo de estabelecimento de um cânon sagrado, a religião precisa de uma “regra” para dar respaldo à “revelação de Deus”. A comunidade sentiu a necessidade do cânon para conservar, preservar e observar essa revelação (FILHO, 2002, p. 12).

É bem verdade que o povo cristão adotou pela sua fé os escritos do Antigo Testamento como “Sagrados e Inspirados por Deus”. Essa mesma comunidade abraçou uma grande lista de escritos em grego, o qual se denominava: “Kânon”.

Tal processo de estabelecimento de um cânon sagrado era chamado e conhecido pelo nome: “canonização”. É necessário falar um pouco referente “o que é canonização”. Para um entendimento melhor do assunto.

1.2.1. O que é canonização?

A compreensão que define o processo da “canonização” esta na escolha dos livros da Bíblia Sagrada pela comunidade Judaica Cristão. Tais livros são: normativos, divinamente inspirados e fidedignos para a instrução dos fieis.

1.3. A NATUREZA DA CANONICIDADE:

O processo de aceitação dos Escritos pela Igreja se firmou no estabelecimento de “critérios”. Tais critérios são conhecidos como: “Testes de canonicidade”.

“Existem três fatores importantes que definem o processo de canonização das Escrituras: ‘Inspiração de Deus, o reconhecimento da inspiração pela comunidade judaica cristão e a coleção de escritos preservados pelo povo”. A inspiração cabe ao próprio Deus, o reconhecimento e a preservação couberam ao povo fazê-los.

1.3.1. Inspiração de Deus:

Segundo Geisler (2001, p. 74), “Foi Deus quem deu o primeiro passo no processo de canonização, quando de inicio inspirou o texto”. O Antigo Testamento com 39 livros agrupados, os tais nessa soma e ordens foram inspirados por Deus. O que levou o povo a aceita-los de fato não foi outro motivo senão a autoridade existente neles.

1.3.2. Reconhecimento da inspiração pela comunidade judaica cristão:

O livro para ser “reconhecido” como inspirado por Deus e fazer parte do cânon, tal livro deveria ser escrito por um “profeta” ou uma pessoa que possui-se o dom de profecia. Tal exigência cabe ao fato de a revelação divina estivesse presente no processo de redação da escritura. Segundo Geisler (2001, p. 74), “A partir do momento que o livro fosse copiado e circulado, com credenciais da comunidade de crentes, passava a pertencer ao cânon”. Portanto tal reconhecimento concretiza a idéia do escrito como: “divinamente inspirado”.

1.3.3. Coleção de escritos preservados:

Os escritos de Moisés eram preservados na arca (Dt. 31:26) (GEISLER, 2001, p. 74). Em (1 Sm. 10:25), observa-se que as palavras do profeta Samuel foram inseridas em um “livro” e este material estava aos cuidados do povo. Outros relatos da própria Escritura nos dizem que a Lei de Moisés foi bem guardada no templo nos dias do Rei Josias. Observe a referencia (2 Rs. 23:24).

Em (Mt. 5:17), observe que os crentes do período Neo Testamentário possuíam todas as “Escrituras” do Antigo Testamento, tanto a lei como os profetas.

1.4. AS VERSÕES DA BÍBLIA:

Aqui é necessário falar com clareza da “Edição Massorética” antes de abordar o tema: “As versões do Antigo Testamento”. O cânon hebraico (Lei, profetas, escritos), durante o primeiro século depois de Cristo, continha um grupo de “22” a “24” livros tidos como divinamente sagrados e inspirados por Deus.

1.4.1. Edição Massorética:

A Edição Massorética do Antigo Testamento se difere da "Septuaginta” e da ordem das Igrejas Protestantes. Os organizadores da Versão Grega (LXX) se ajustam como se segue: “Os livros da Lei, os livros de história, os livros de poesia, os livros proféticos, livros extras e livros históricos adicionais”.

A ordem detalhada da Versão Grega (LXX) permanece como apresentamos:

• LIVROS DA LEI:

Gênesis – Êxodo – Levítico – Números – Deuteronômio.

• LIVROS DE HISTÓRIA:

Josué – Juízes – Rute – 1 e 2 Samuel – 1 e 2 Reis – 1 e 2 Crônicas – 1 e 2 Esdras – Neemias – Tobias – Judite – Ester.

• LIVROS DE POESIA:

Jó – Salmos – Provérbios – Eclesiastes – Cantares – Sabedoria de Salomão – Sabedoria de Siraque.

• LIVROS PROFÉTICOS:

Oséias – Amós – Miquéias – Joel – Obadias – Jonas – Naum – Habacuque – Sofonias – Ageu – Zacarias – Malaquias – Isaías – Jeremias – Baruque – Lamentações – Epístola de Jeremias – Ezequiel – Daniel.

• LIVROS EXTRAS:

Suzana – Bel e o Dragão – Cântico dos três varões.

• LIVROS HISTÓRICOS EXTRAS:

1 e 2 Macabeus.

A Vulgata Latina é organizada na mesma ordem da Septuaginta, e a Bíblia Protestante segue a mesma ordem da Vulgata. O único detalhe que difere a “Bíblia Protestante” da “Vulgata” e a questão dos “Escritos apócrifos”. Esses escritos conhecidos como: “Sem inspiração divina ou não autorizados” não estão na organização da Bíblia Protestante.

A ordem organizatória da Bíblia Protestante segue a Vulgata, no conteúdo, segue o texto Massorético.

Os livros do texto Massorético são os seguintes: “A TORA, OS PROFETAS E OS ESCRITOS”. A ordem detalhada dos livros do texto Massorético permanece como apresentamos:

• A TORA (PENTATEUCO):

Gênesis – Êxodo – Levítico – Números – Deuteronômio.

• OS PROFETAS (NEBIM):

Josué – Juízes – 1 e 2 Samuel – 1e 2 Reis - Oséias – Amós – Miquéias – Joel – Obadias – Jonas – Naum – Habacuque – Sofonias – Ageu – Zacarias – Malaquias – Isaías – Jeremias – Ezequiel.

• OS ESCRITOS (KETHUBHIM):

Salmos – Jó – Provérbios – Rute – Cantares – Eclesiastes – Lamentações – Ester – Daniel – Esdras – Neemias – 1 e 2 Crônicas.

Em Jâmnia (Yamnia), conhecida atualmente de “yauneh”. Esta localizada na costa Sudoeste de Israel. Esta cidade tornou-se um centro importante de muita influência. La ocorria o Concilio, onde se afirma que a terceira seção dos escritos teria sido canonizada (GEISLER, 2001, p. 82). Muitos Judeus nessa época questionavam que: “não houve um concilio autorizado em Jâmnia. Eles indagavam a questão de que se realizou apenas uma reunião de especialistas, nada que se autoriza os livros como canônicos.

Esta “reunião” ou “concilio” se sucedeu no ano 90 d. C. Segundo Filho (2002, p. 13), “havia uma hipótese de que havia dois cânones hebraicos: um breve, Palestinense, fixado em Yamnia e o outro mais amplo em Alexandria”. É bem verdade que antes do “concilio de Trento”, houve uma sucessão de decisões sinodais acerca da veracidade ou canonicidade da Bíblia. Segundo Filho (2002, p. 13), “foi durante o concilio de Trento que o decreto de canonicís scripturís enumerava 45 livros canônicos do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento”.

1.4.2. As Versões antigas do Antigo Testamento:

• AS VERSÕES GREGAS/TRADUÇÃO DA SEPTUAGINTA:

A Palestina era o berço do cânon Judaico, mas não tinha com precisão o saber para organizar os livros do Antigo Testamento. Segundo Geisler (2001, p. 94), “Alexandria era o lugar da tradução, não da canonização”.

Em Alexandria a Septuaginta foi traduzida em 250-150 a. C. Segundo Archer (2005, p. 43), “a origem desta versão se registra na carta de Aristeu a Filócrates, cuja origem remonta a um período entre 130-100 a. C.”. A Septuaginta é a mais falada pelos autores do Novo Testamento e pelos Cristãos primitivos.

• PAPIRO RYLANDS 458:

É datado o Papiro Rylands 150 a. C. Contem partes de Deuteronômio (23-28).

• MATERIAL DA CAVERNA (4) DE CUNRÃ:

Foi achadas partes de do livro de Levíticos em papiro, este material achado mantém concordância com o texto da Septuaginta. As partes foram (26:1-16). Foi ainda achada partes do livro de Números em couro. As partes foram (3:30; 4:14).

• PAPIRO 911:

Esse material foi localizado no Egito, no fim do terceiro século d. C. O material contem fragmentos do livro de Gênesis (1-35).

• MANUSCRITO GREGO V. FREER, DOS PROFETAS MENORES:

Esse material é datado do terceiro século d. C. O material coletado contem 33 folhas de papiro e o mesmo está localizado em Washington.

• A HEXAPLA:

É datado a Hexapla de Orígenes, em 240 d. C. Orígenes que viveu por volta de 185-245 d. C. O texto original de Orígenes nunca foi copiado para impressão.

• CÓDICE VATICANO:

Esse Códice contem a maior parte do Novo Testamento alem do Antigo Testamento. O Códice Vaticano é datado de 375-400 d. C.

• CÓDICE SINAÍTICO:

É semelhante ao Códice Vaticano e Alexandrino. É datado 375-400 d. C. O Códice Sinaítico contem partes do Antigo Testamento e o Novo Testamento completo.

• CÓDICE ALEXANDRINO:

Esse contém traços idênticos da Septuaginta e da Hexapla. O Códice Alexandrino é m importante texto do Novo Testamento, datado cerca de 450 d. C.

1.4.3. Versões Gregas:

Entre as Versões do Antigo Testamento, temos as Versões Gregas. No agrupamento das Versões Gregas temos:

• VERSÃO DE ÁGUILA:

Essa versão é datada cerca de 130 d. C. Áquila, nativo do porto, segundo informes tornou-se um prosélito ao Judaísmo.

• VERSÃO DE SÍMACO:

Possivelmente foi datada no ano 170 d. C., Símaco era um Ebionita, ele traduziu o Antigo Testamento para o grego. Símaco era um samaritano convertido ao Judaísmo.

• VERSÃO DE TEODÓCIO:

Essa Versão foi possivelmente datada em 180 ou 190 d. C., essa é uma breve revisão da Versão Grega.

Destacamos todas as principais Versões Gregas posteriores as Versões Hebraicas. Ate este ponto de forma bem séria apresentamos um conteúdo inserido na pesquisa.

Em tópicos posteriores trataremos outras versões tais como: “Os Targuns Aramaicos, as versões latinas, as versões siríacas, as versões especiais e as poliglotas”. Todo esse conteúdo apresentado é parte da construção completa do cânon Bíblico.

REFERENCIAS:

ARCHER, Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento. São Paulo (SP): Vida Nova, 2005.

BITTENCOURT, B.P. O Novo Testamento-Cânon, língua, texto. São Paulo (SP): ASTE, 1965.

BÍBLIA SAGRADA, Abreviação: BEP. Publicação da Bíblia completa: 1990. Editora: Edições Paulinas.

BÍBLIA SAGRADA, Tradução da CNBB – Editora Vozes, 2001.

BÍBLIA SAGRADA, Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 1985.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. 1910-1989. Miniaurélio Século XXI Escolar. 4ª Ed. Rev. Ampliada. Rio de Janeiro (RJ): Nova Fronteira, 2001.

FILHO, Tácito da Gama Leite. Antigo Testamento – Formação e Mensagem. Goiânia (GO): Kerygma, 2002.

FONSATTI, José Carlos. Introdução Bíblica. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 2003.

GEISLER, Norman/ William Nix. Introdução Bíblica. São Paulo (SP): Editora Vida, 2001.

Joas Araújo Silva
Enviado por Joas Araújo Silva em 27/09/2012
Reeditado em 04/12/2022
Código do texto: T3904676
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