A justificação

A JUSTIFICAÇÃO

O termo justificação traz agregado consigo o sentido do verbo justificar e aponta para a ação ou efeito da graça divina, que torna os homens justos, É um sinônimo da restituição à inocência original.

Na teologia bíblica do Antigo Testamento, o juiz ”justifica” (do verbo sãdaq) quando declara a inocência de alguém (cf. Dt 25,1). Justificar, naquele contexto veterotestamentário era “absolver no tribunal”.

No Novo Testamento, a partir da pregação de Jesus, fala-se em uma “vocação dos pecadores”, quando vemos sua declaração de que “não veio chamar os justos, mas os pecadores” (cf. Mt 9,13). Esses últimos, se forem penitentes e humildes, serão os mais aptos para receber os benefícios de Deus.

Na teologia paulina, observa-se que, como a justiça é incompatível com o pecado, e sendo que a justificação inclui perdão e absolvição do pecado, o ponto de partida da doutrina do apóstolo é necessariamente a sua concepção do pecado. A humanidade, antes e fora de Cristo se encontra debaixo do poder universal do pecado (cf. Rm 3,23). Para São Paulo a extinção real do pecado e a santificação do ser humano pertencem, sem dúvida à essência da justiça e da justificação (cf. 1Cor 6,11).

Segundo a doutrina católica, a justificação "é a obra mais excelente do amor de Deus”. Trata-se da ação misericordiosa e gratuita de Deus, que perdoa os nossos pecados e nos torna justos e santos em todo o nosso ser. Isto tem lugar por meio da graça do Espírito Santo, que nos foi merecida pela paixão de Cristo e nos foi dada no Batismo. O justo viverá por sua fé (cf. Rm 1,17; Hab 2,4).

A justificação inicia, mas não obriga, a "resposta livre do homem’, ou seja, a adesão individual e livre ao plano de salvação arquitetado por Deus. Para isto, requer a fé em Cristo e a colaboração com a graça divina. Os católicos acreditam que o homem é justificado pelas obras e pela fé (Tg 2, 24), porque a fé sem obras é morta (v. 17). Logo, as boas obras são uma afirmação, prática e reforço da fé, que é fundamental para a justificação. Todo este processo de justificação só é possível por causa da graça divina, "que justifica" os homens.

O Concílio de Trento ensinava que a justiça merecida por Cristo deveria ser apoiada pela justiça do próprio pecador que cooperava com a graça através das boas obras. Na visão de Trento, a justificação é um processo, na qual o pecador é tornado justo, misturando a justificação com a santificação. Estes dois termos são virtualmente sinônimos em Trento.

Na visão católica, a justiça é infusa (e não imputada), causando mudança na vida interior do pecador. A justiça é antes transformadora do indivíduo do que creditada a ele. Segundo esta perspectiva, o pecador é justificado com base numa justiça interna (iustitia in nobis ou iusticia infusa) do que por uma justiça que vem de fora. Em resumo, na teologia católica, a justiça é dada ao justo antes que ao pecador, sendo por isso a justificação o resultado da justiça infusa de Cristo.

A partir destes ensinamentos do Concílio de Trento, a Igreja Católica ensina que o pecador é justificado pela fé em Cristo, mas é uma fé informada e fundamentada pelo amor e motivada pela graça divina. A justificação tornar-se-ia semente e força criadora de uma nova vida cristã fundada na fé, na esperança e na caridade (e também nas boas obras). Essa fé em Cristo é infusa no coração do homem, como um dos dons teologais conferidos a partir do Batismo, de forma que ela perdoe o pecado original.

O que é justificação? Para colocar de forma simples, justificar significa declarar justo; fazer alguém justo diante de Deus. Justificação é quando Deus declara justo todo aquele que recebe a Cristo, baseado na justiça de Filho sendo debitada às contas daqueles que o recebem. A justificação é como um princípio das Escrituras. A passagem principal que descreve justificação em relação aos crentes encontramos em Romanos 3, 21-26:

Agora, porém, independentemente da Lei, manifestou-se a

justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas. É a

justiça de Deus que se realiza através da fé em Jesus Cristo,

para todos aqueles que acreditam. E não há distinção: todos

pecaram e estão privados da glória de Deus, mas se tornam

justos gratuitamente pela sua graça, mediante a libertação

realizada por meio de Jesus Cristo. Deus o destinou a ser

vítima que, mediante seu próprio sangue, nos consegue o

perdão, contanto que nós acreditemos. Assim Deus manifestou

sua justiça, pois antes deixava pecar sem intervir: eram os

tempos da paciência de Deus. Mas, no tempo presente, ele

manifesta a sua justiça para ser justo e para tornar justo quem

tem fé em Jesus.

Somos justificados (declarados justos) no momento de nossa salvação. Justificação não nos faz justos, mas declara nossa justiça. Nossa justiça vem de colocarmos nossa fé no trabalho completo de Jesus Cristo. Seu sacrifício cobre o nosso pecado, permitindo com que Deus nos veja como perfeitos e sem qualquer mancha. Por causa do fato de que como crentes estamos em Cristo, Deus vê a justiça de Cristo quando Ele olha para nós. Isso alcança as exigências de Deus para perfeição; portanto, Ele nos declara justos – Ele nos justifica. Romanos 5, 8-11 resume esse conceito muito bem:

Mas Deus demonstra seu amor para conosco porque Cristo

morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Assim,

tornados justos pelo sangue de Cristo, com maior razão

seremos salvos da ira por meio dele. Se quando éramos

inimigos fomos reconciliados com Deus por meio da morte do

seu Filho, muito mais agora, já reconciliados, seremos salvos

por sua vida. E não só isso. Também nos gloriamos em Deus

por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual obtivemos

agora a reconciliação.

Acho que aqui cabe uma pergunta: Por que esse pronunciamento a respeito da justiça de Deus é tão importante?

Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio

de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 5,1).

É por causa da justificação que a paz de Deus pode governar em nossas vidas. É por causa do fato da justificação que crentes podem ter a garantia de salvação. É o fato de justificação que deixa Deus começar o processo de santificação, o processo pelo qual Deus torna realidade em nossas vidas a posição que já ocupamos em Cristo.

Alguns segmentos católicos, pentecostais e evangélicos empregam critérios fundamentalistas, privilegiando o cumprimento da lei em detrimento da vivência da vida da graça.

Sabendo que ninguém é justificado por observar a Lei de

Moisés, mas por crer em Jesus Cristo, nós também abraçamos a

fé em Jesus Cristo. Assim fomos justificados pela fé em Cristo e

não pela prática da Lei, porque pela prática Lei ninguém será

justificado. Aliás, foi em virtude da Lei que eu morri para a Lei,

a fim de viver para Deus. Com Cristo eu fui pregado na cruz. Eu

vivo, mas não sou eu que vivo, é o Cristo que vive em mim (Gl

2, 16.19s).

Há dias, assisti o pronunciamento de um padre, na Rede "Canção Nova", numa legítima manifestação de um cristianismo eminentemente engessado e legalista. Não recordo seu nome; se soubesse diria. É um cidadão de meia idade, carequinha, magrão, de óculos, e usava uma vetusta batina preta. Quando abriu o programa e vi o preletor chegar de batina, senti o perigo, ou seja, seríamos levados a um banho de fundamentalismo. Pois ele gastou o tempo inteiro do programa falando nos “Dez Mandamentos”, repassando a superveniência da Lei sobre qualquer outra atitude. Durante o programa o religioso não falou em solidariedade, partilha, caridade, perdão, acolhida ou outra virtude da alteridade; discorreu o tempo todo sobre leis, regras e mandamentos, com as devidas (e aterrorizantes) sanções do pecado, da perdição e da danação final. De acordo com seu pronunciamento, só o cumprimento irrestrito da Lei seria capaz de justificar o ser humano. Curiosamente não falou na fé que faz o justo viver, mas somente no poder coercitivo da Lei.

Há quem confunda perdão com justificação. O perdão é temporário, concedido apenas para ser removida a condenação em um determinado momento, ao passo que justificação é permanente, trazendo a remoção da culpa e a concessão das boas relações com Deus. O perdão é apenas um ato de misericórdia divina, com a necessidade de ser repetindo sucessivamente por toda nossa vida Cristã. A justificação é completa, nunca é repetida, e abrange o passado, o presente e o futuro da nossa vida. Conforme aprendemos na Escritura,

Por meio dele (Jesus Cristo), todo aquele que crê é justificado

de todas as coisas de que vocês não puderam ser justificados

pela Lei de Moisés (At 13,39).

Existe, portanto, uma diferença bem clara entre a justificação e o perdão, como lemos em Jo 13,10:

Quem já se banhou (justificação) não necessita de lavar senão

os pés (perdão).

Vou concluir lembrando que no episódio do jantar na casa do fariseu (cf. Lc 7, 36-50) se pode observar que o dono da casa era um rigoroso cumpridor da Lei de Moisés, esquecendo-se de recepcionar o Mestre com as coisas básicas da hospitalidade: o beijo, a ablução da água nas mãos e nos pés, e o óleo perfumado sobre a cabeça. Ao contrário, a mulher pecadora, que certamente não observava a Lei, foi justificada (teve seus pecados perdoados e seu gesto entronizado na história) por aqueles atos que denotaram sua fé e seu amor por Jesus.

O autor é Doutor em Teologia Motal, Filósofo e Escritor