Os Santos Anjos da Guarda - O Mistério da Misericórdia - Carta 123

OS SANTOS ANJOS DA GUARDA

O mistério da misericórdia

Depois disso vi um Anjo descer do céu... (Ap 20,1).

A crença nos anjos, como seres espirituais, mensageiros de Deus já foi mais intensa. Hoje, os desvios da modernidade, como o pragmatismo, o materialismo, a indiferença e a perda substancial da fé têm colocado a crença nos anjos e em sua missão em segundo plano. Também os cultos esotéricos, que veneram os “anjos cabalísticos” e outras ideias ajudam a um distanciamento do sentimento que tínhamos pelos anjos, há tempos passados, como nos séculos XIX e XX. O ponto alto da angelologia (parte da teologia que estuda os anjos) está na Anunciação:

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da

Galiléia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em

casamento a um homem chamado José, que era descendente de

Davi. E o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela

estava, e disse: “Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está com

você!” Ouvindo isso, Maria ficou preocupada, e perguntava a si

mesma o que a saudação queria dizer. O anjo disse: “Não tenha

medo, Maria, porque você encontrou graça diante de Deus. Eis que

você vai ficar grávida, terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus.

Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor

dará a ele o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre

os descendentes de Jacó. E o seu reino não terá fim”. Maria

perguntou ao anjo: “Como vai acontecer isso, se não vivo com

nenhum homem?” O anjo respondeu: “O Espírito Santo virá sobre

você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o

Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus. Olhe a

sua parenta Isabel: apesar da sua velhice, ela concebeu um filho.

Aquela que era considerada estéril, já faz seis meses que está

grávida. Para Deus nada é impossível!” Maria disse: “Eis a serva do

Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo a deixou

(Lc 1,26-38).

A palavra anjo (do latim angelus e do grego ánguelos, ἄγγελος), segundo a tradição judaico-cristã, é uma criatura celestial, que serve como ajudante ou mensageiro de Deus. Na iconografia comum, os anjos geralmente têm grandes asas de pássaro e uma auréola. São donos de uma beleza delicada e de um forte brilho, por serem plenos de energia, e por vezes são representados como uma criança, por terem inocência e virtude. Os relatos bíblicos e a hagiografia cristã contam que os anjos muitas vezes foram autores de fenômenos miraculosos, e a crença corrente nesta tradição é que uma de suas missões é ajudar a humanidade em seu processo de evolução. Jamais se entenderá os anjos sem penetrar no mistério da miseriórdia de Deus.

Os anjos são ainda figuras importantes em muitas outras tradições religiosas do passado e do presente, e o nome de “anjo” é dado amiúde indistintamente a todas as classes de seres celestes. A maioria das religiões e filosofias, todas aceitam como fato sua existência, dando-lhes variados nomes, mas às vezes são descritos como tendo características e funções bem diferentes daquelas apontadas pela tradição judaico-cristã, esta mesma apresentando contradições e inconsistências, de acordo com os vários autores que se ocuparam deste tema.

De tempos em tempos, o mundo secular tem descoberto e penetrado ousadamente em terrenos onde, até então apenas transitavam os místicos, os teólogos e os pensadores: o mundo espiritual. A moda do ocultismo esotérico, os avanços da parapsicologia, os equívocos da psicologia pós-freudiana, as teorias sobre os Ovnis e vida inteligente em outras galáxias, o descobrimento das experiências psíquicas, algumas derivadas do delírio das drogas e culto das filosofias orientais, tudo levou o homem moderno a pesquisar, nem sempre de forma coerente e racional, as ciências espirituais, onde se sobressaem das figuras dos anjos. O que antes era vedado à investigação laica, hoje está invadido pela livre especulação.

Em termos gerais, infelizmente, o aprofundamente teológico na crença aos anjos nâo realizou, historicamente grandes progressos. A literatura sobre a angelologia é mais laica do que consagrada. Os teólogos e padres se preocupam mais das questões próprias da relação Homem-Deus-Homem. Ao vivermos em uma época mais cristocêntrica, diminuiu a adoração ao Espírito Santo (a Renovação Carismática tenta revivê-la), a devoção pelos anjos e santos – e aí se inclui a veneração à Virgem Maria – nâo tem a ressonância do culto popular de décadas passadas. Dentro desse contexto gostaria de respigar uma questão que levantei em meu livro “Os anjos existem”? (Ed. Vozes, Petrópolis, 1989) e ¿Angeles, existem? (Editorial Lumen, Buenos Aires, 1995):

• A diminuição do interesse e da assistência à Missa. As antigas

tradições católicas ensinavam que os anjos assistiam a Missa

e logo após “voavam para Deus para levar as nossas orações”;

• O ceticismo, o racionalismo e o neopsicologismo

obscureceram o estudo e a devoção aos anjos;

• A devoção mariana da segunda metade do séc. XIX e

princípios do séc. XX fez diminuir o culto antes dedicado aos

anjos;

• Como os anjos são, jerarquicamente, simples servos de Deus,

a mentalidade pragmática de muitos imagina que, atentos à

Revelação e sob a Provdência, podem prescindir da proteção

dos anjos.

O clássico quadro da nossa infância, das crianças atravessando uma ponte de madeiras soltas, sobre um rio caudaloso, protegidos por um anjo com as asas abertas, hoje pertence às imagens do passado, mais artísticas do que religiosas. Para muitos, os anjos são lendas e sonhos das fantasias infantis. Infelizmente!

Na verdade, existem poucas obras sérias a respeito dos anjos. Isto me levou a escrever em 1989 “Os anjos existem?” e a promover cursos, retiros e workshops sobre o assunto. Há aí dois motivos: a inexistência de bons livros de angelologia em português; a fraca menção do trabalho dos anjos no projeto de Deus e, por último, em função desse desleixo, nem a oração do “Santo Anjo do Senhor” é mais ensinada nas catequeses formais de Primeira-Eucaristia e Crisma.

Eu creio que os anjos são criaturas de Deus, às quais a piedade divina confiou a sua proteção, para cuidar de nós e nos mostrar o caminho do Reino dos céus. A maioria das obras que se encontra por aí, por mais incrível que possa parecer, mescla o estudo de anjos e demônios, e acaba falando mais dos últimos que dos primeiros. A teologia dos anjos está pouco difundida nos meios cristãos em geral. É lamentável, pois se trata de uma irrefutável realidade espiritual, que faz parte da piedade cristã, capaz de auxiliar os fiéis a enfrentarem com mais coragem e serenidade os sofrimentos, as incertezas e, sobretudo, as tentações. Nesse aspecto, os anjos se revelam privilegiadamente como nossos defensores, além de mensageiros de Deus. Os anjos são uma realidade bíblica. Há referências sobre eles desde o Gênese até o Apocalipse:

Ele (Deus) expulsou o homem e colocou diante do jardim do Éden

os querubins com espada chamejante, para guardar o caminho da

árvore da vida (Gn 3,24).

Eu, Jesus, enviei o meu Anjo. Ele atestou para vocês todas essas

coisas a respeito das igrejas. Eu sou o Rebento da família de Davi,

a brilhante estrela da manhã (Ap 22,16).

A atividade dos anjos é relatada em quase todos os livros das Sagradas Escrituras, em cerca de trezentas passagens no Antigo e no Novo Testamento. Então volta a questão: quem são os anjos? Trata-se de um nome dado a seres espirituais, cuja função se divide em duas etapas: serem mensageiros de Deus, e estabelecerem a proteção dos seres humanos. A expressão anjo vem do hebraico tradicional, onde mal’ak aponta para um sentido de mensageiros. Mais tarde, os LXX e a Vulgata traduziram para anjos, com o mesmo significado.

Como natureza, podemos dizer que os anjos são seres espirituais, geralmente invisíveis, supraterrestres, criados por Deus para determinadas funções, que são, basicamente, servir de arautos (mensageiros) e pontos de contato entre os mundos visível e invisível. Santo Agostinho, em um de seus sermões (Sermo VIII, 3) afirmou que os anjos estão a serviço de Deus e – por determinação deste – também ao serviço dos homens. Algumas culturas e religiões – que não é o nosso caso – afirmam a existência de espíritos da natureza, ou supra-humanos, semideuses e demiurgos. Em encontros, retiros e conferências se escutam muitas questões e perguntas a respeito dos anjos, como função, natureza e forma.

1. Como são os anjos?

São criaturas de Deus, seres espirituais, inteligentíssimos,

dotados de personalidade distinta, que têm consciência de

suas realidades e missões;

2. Qual sua forma?

A forma dos anjos é uma questão controvertida, mesmo entre

os teólogos; Na antiga iconografia dos anjos, estes

apareciam como a figura híbrida do karibú mesopotâmico:

corpo de guerreiro, pés de leão e asas de águia; acredita-se

que querubim deriva de karibú;

3. O que eles podem fazer em nosso favor?

A rigor, conforme o projeto de Deus, tudo! Sendo bons, fiéis e

inteligentes eles podem nos ajudar a buscar a salvação eterna;

4. Quantos são os anjos?

Incontáveis! São tantos quantos são necessários para

executar os planos de Deus. As Escrituras, no Livro de Daniel

(7,10) afirmam que são milhares de milhares, ou doze legiões

(cf. Mt 26,53). Sabe-se, por uma razão lógica, que o número

de anjos é superior ao de seres humanos;

5. Os anjos são visíveis?

Ás vezes eles podem se tornar visíveis: São Gregório

Nazianzeno afirmou que são seres espirituais, mas que, para

cumprir algumas missões de Deus, podem assumir formas

visíveis;

6. Quais os nomes dos anjos?

Não são muitas as passagens da Bíblia em que há uma

referência nominal aos anjos. Preliminarmente, os anjos são

escritos como querubins, serafins e arcanjos. Trata-se mais

do que uma função do que propriamente de um nome.

• Querubim, derivado do acádico karibú, como já vimos,

significa, em algumas bibliografias, “aquele que tem

sabedoria” e, em outras, “aquele que cuida”;

• Serafim, que significa ardente, denota uma classe de anjos e

contemplam a face de Deus, adorando-o com amor ardente;

• Arcanjo quer dizer “príncipe dos anjos” ou, se quisermos ser

mais precisos, origem ou autoridade:palavra arché tem esse

sentido;

Os querubins, serafins e arcanjos aparecem na Bíblia, às vezes como figuras humanas ou mistas (com asas), significando que são mensageiros do poder e da glória de Deus. Encontramos serafins em 1Rs 6,23-29; Is 6,2ss; Ez 25,18ss, entre outros. Os querubins aparecem mais vezes: Gn 3,24; Ex 25,18; 37,7; 1Sm 4,4; Sl 18,10; Hb 9,5. Mais tarde, a literatura judaica começa a dar nomes aos anjos, surgindo então os arcanjos Miguel e Gabriel. Posteriormente vai aparecer Rafael, no texto deuterocanônico de Tobias (3,16ss).

Miguel é “aquele como Deus”, o chefe das milícias celestes que combate contra os demônios. O arcanjo Miguel é patrono e defensor do povo judeu. Miguel é uma importante personagem na luta contra o Adversário, na imortal obra de John Milton († 1674), “O paraíso perdido”.

Gabriel é “o anunciador”. Há controvérsias sobre esse título. Ele é encontrado como “Deus é forte” e “Herói de Deus”. Para os cristãos é o arcanjo da anunciação a Zacarias e à Virgem Maria (Lc 1,26). No AT há referências a Gabriel em Daniel (8,16; 9,21).

Rafael quer dizer “a cura de Deus” (ou “Deus curou”), assim como “a medicina de Deus”. É o menos canônico dos três arcanjos, pelo menos sob o ponto de vista do judaísmo. Todas as referências ao anjo Rafael aparecem no livro de Tobias, cuja canonicidade não é aceita pelos judeus (e consequentemente pelos protestantes). Estes são os nomes dos três anjos que a Bíblia menciona.

Para os católicos, embora reconheçam a existência de uma multidão de anjos que povoam os céus, nominalmente só são conhecidos os arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. O que há fora disto é especulação e foge do ensino da Igreja e da fé das comunidades. A título de curiosidade cultural, poderíamos citar outros nomes de anjos, como o de Uriel, a quem o judaísmo tardio menciona como o quarto arcanjo e outros mais, como por exemplo, a lista proposta pelos grupos esotéricos e cabalísticos: Jeudiel, Baraquiel e Selatiel. A Igreja se opõe a essas teorias, pois não têm nenhum amparo nas Sagradas Escrituras.

7. Existe alguma outra “hierarquia” entre os anjos?

Sim! Embora fuja do contexto dogmático, os espíritos sobrenaturais são agrupados em coros, sob as seguintes fontes: Rm 8,38; 1Cor 15,24; Ef 1,21 Cl 1,16.

• Virtudes

• Potestades

• Principados

• Dominações

• Tronos

Assim como não se pode estabelecer claras diferenças entre eles, tampouco se pode afirmar que sejam anjos no sentido de mensageiros e servidores do domínio de Deus. Embora apareçam em algumas ladainhas europeias, há no Novo Testamento claras referências a seres sobrenaturais com rasgos nitidamente maléficos e até demoníacos. Sobre essas potencias sobrenaturais, se encontram narrativas nas quais umas são fiéis a Deus enquanto outras manifestam uma clara oposição. Esta oposição pode estar ligada a uma escolha livre, quem sabe perversa, que principados, dominações, tronos, etc. fizeram no começo de sua história (cf. Jd 6; 2Pd 2,4).

A verdade é que se nota certa confrontação, e devemos admitir que as potestades e demais hierarquias se apresentam com uma certa ambiguidade que vinte séculos de exegese não souberam esclarecer. Assim como é prudente não depreciá-las, se recomenda certa moderação em seu culto e estudo, evitando invocações e comunicações, pois Cristo – e isto é afirmado pelas Escrituras – no fim dos tempos, vai submeter e subjugar (cf. 1Cor 15,24) a todas essas hierarquias celestiais. Em algumas versões, potestades, tronos, dominações, virtudes e principados foram excluídos da Ladainha dos Santos Anjos.

Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 8,38s).

No Credo niceno-constantinopolitano a Igreja afirma sua fé: “Creio em Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis...”. Diversos teólogos, entre eles o maior de todos, Santo Tomás de Aquino († 1274) afirmaram repetidas vezes a existência dos anjos. Na encíclica Humani Generis, de 1950, o papa Pio XIII afirmou categoricamente (é um dogma) a existência dos anjos, como seres sobrenaturais, com função de ajudantes dos homens, no terreno espiritual e no material. Como ensina o teólogo alemão Michel Schmaus, em sua obra “Die Engels”:

Os anjos trabalham na construção do Reino de Deus, na obra da criação, consolidação e aperfeiçoamento do Reino. São Miguel lutou vitoriosamente contra o dragão, arremessando-o no inferno (cf. Ap 12,7ss). Fiel ao ensinamento de São Paulo (cf. Hb 1,14), a Igreja afirma que uma das missões dos anjos consiste em ser orientadores dos herdeiros da salvação.

É provável, como afirma São Boaventura, que muitos dos nossos dons espirituais sejam mediados pelos anjos. Também, dentro do mesmo raciocínio, é possível que o êxito dos santos tenha nascido por inspiração angélica, para obedecer e serem fiéis a Deus. No dia do julgamento final, os anjos virão na companhia de Jesus.

Quando vier o Filho do Homem, com seus anjos..

(Mt25,31); Vocês verão abertos os céus e os anjos de Deus

subindo e descendo sobre o Filho do Homem (Jo 1,51).

É imperioso que se identifique que os anjos do Senhor estão intimamente ligados à história da salvação. Como mensageiros, agentes e participantes do projeto de Deus, os anjos atuam junto aos homens com o objetivo de conduzi-los a essa salvação que Deus planejou desde sempre, e que Jesus veio executar.

“Os anjos – dizia Bossuet († 1704) – oferecem a Deus as nossas

esmolas, recolhem até os nossos desejos, fazem valer diante de

Deus também os nossos pensamentos... Sejamos felizes de

termos amigos tão prestativos, intercessores tão fiéis,

interpretes tão caridosos”.

A liturgia católica festeja os Santos Anjos da Guarda dia 2 de outubro e São Miguel, São Gabriel e São Rafael dia 29 de setembro.

Como os anjos podem nos ajudar? Eles vão nos ajudar se nós pedirmos o auxílio deles, se buscarmos sua ajuda. O simples ato de ter um frasco de aspirinas na gaveta não quer dizer que vou me curar da cor de cabeça; eu devo buscar o remédio e tomá-lo.

A Igreja ensina que não se deve adorar aos anjos, pois eles são meras criaturas, e a adoração só é devida a Deus. O vidente de Patmos quis se ajoelhar aos pés do anjo, mas foi repelido por este (cf. Ap 22,8ss).