Questões levantadas por ateus e céticos

QUESTÕES LEVANTADAS POR ATEUS E CÉTICOS
Miguel Carqueija


Através dos anos e em debates pessoais percebi que nossos irmãos ateus, procurando negar a existência de Deus e justificar, sem Ele, a do universo, com frequência apresentam três perguntas que provavelmente julgam possam embaraçar os crentes. Vamos examiná-las serenamente para ver se têm alguma validade.

1) De que se ocupava Deus antes de criar o Universo?

R) Para que possamos dar resposta satisfatória à objeção em forma de pergunta (não esquecendo, e isso qualquer cientista reconhece, que a inteligência humana não pode de fato abarcar e compreender tudo) devemos procurar discernir a diferença entre “tempo” e “eternidade”. Ao contrário do que à primeira vista se pode pensar, a eternidade não é uma sucessão infinita de tempo, porque não é uma linha, ela não é a chamada “seta do tempo”. A eternidade deve ser entendida como um ponto, um ponto eterno e imutável; por isso dizemos que para Deus, que não está no tempo e sim na eternidade, é sempre “agora”. E como Deus é um ser incriado e atemporal, não faz sentido indagar o que Ele fazia antes de criar o Universo simplesmente porque não existe “antes”.
Se mesmo assim parece difícil entender (não esquecendo que estamos utilizando um raciocínio filosófico) lembro que o tempo e o espaço, fato aceito pela Relatividade einsteiniana, só têm existência objetiva por conterem algo, no caso a matéria, a energia e os eventos. Portanto, quando chegar, como calcula a Segunda Lei da Ternodinâmica, a entropia final do universo, quando toda a energia e matéria estiverem dispersas e nada mais puder acontecer, o próprio tempo cessará de existir (cfr. “O universo e o Dr. Einstein” por Lincoln Barnett). Trocando em miúdos isso quer dizer que o tempo começou e chegará a um fim. Não discuto se podem existir outros tempos e outros universos, como supõe Edgar Allan Poe em “Eureka”. Só conhecemos o nosso universo e ele teve um início, identificado como o “big bang”, quando o próprio tempo teve início.

2) Quem criou Deus?

R) Esta pergunta é muito frequente quando afirmamos que o Cosmos não pode ter criado a si próprio, o que parece óbvio, pois estaria operando antes mesmo de existir.
O Professor Felipe Aquino, que por sinal é físico, já deu uma resposta adequada no programa “Escola da Fé” da TV Canção Nova. Lembrou ele que, se Deus houvesse sido criado, só poderia tê-lo sido por outro “deus”, e este por outro, e assim por diante, “ad infinitum”. O que é simplesmente absurdo. Para admitirmos enfim a existência de um universo, que não poderia ter criado a si mesmo e nem brotado do nada espontaneamente, temos de admitir como única explicação plausível a existência de um Ser Supremo, uma Inteligência Suprema (até porque o Cosmos é uma criação inteligente, matemática) necessariamente onipotente, onisciente e onipresente, além de eterno. Este ser chamamos Deus. Ele não é feito de partes, portanto não está sujeito à decomposição. Em filosofia católica nós o chamamos o “Existente em Essência” (cfr. Frei Sandro Grimani, “O invisível na harmonia lógica do cognoscível”).
Os seres do universo, todos eles contingentes, não possuem em si mesmos suporte para explicar ou garantir sua existência e o mais lógico é que não deveriam existir. Mas parece que existem (existimos) daí necessariamente admitimos que o Criador existe. Não vale tampouco recorrer a uma série interminável de seres contingentes porque, não tendo nenhum deles a razão de sua existência nem poderia tê-la o conjunto; não seria mais que uma soma de zeros e todos nós sabemos que uma soma de zeros, mesmo infinita, dá obrigatoriamente zero como resultado.

3) E se o universo sempre existiu?

R) Esta pergunta, que soa como uma tentativa de escapatória, já foi de certo modo respondida pelo big bang (cujo modelo matemático surgiu com um dos maiores cosmólogos do século XX, o Padre Georges Lemaitre) e pelo argumento da soma de zeros. Ela é também uma simples suposição, sem qualquer espécie de prova (muito pelo contrário). De qualquer forma surge aí um tremendo problema filosófico: se o universo sempre existiu então o tempo é infinito na direção do passado. A ideia em si é enlouquecedora, se você, num jogo de imaginação, mergulhar a sua mente para trás no tempo, milhares, milhões, bilhões de anos, e nada, nenhum inicio, e você prossegue nessa “viagem” louca, trilhões, quatrilhões, quintilhões de anos, até esgotar a nomenclatura matemática e nada... nenhum início, e você prosseguiria eternamente nessa viagem...
Ora, se fosse assim, se o tempo não teve um início, se não houve uma âncora, então como poderia haver uma chegada (a entropia final) sem uma partida? Além disso, se o tempo fosse infinito na direção do passado nós não estaríamos aqui discutindo tais assuntos, porque sequer existiríamos. Pensem bem: se o passado fosse infinito o presente não chegaria jamais, pois o infinito não acaba.
Não espero convencer a todos, mas estes são alguns raciocínios que ofereço à sincera reflexão de quem vier a ler estas linhas.


Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2017.