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Parábolas Para o Coração

CONTEXTO

Marcos 3 nos relata que Jesus ensinava em uma sinagoga onde estava um homem que tinha ressequida uma das mãos. Os inimigos de Cristo observavam para ver se Ele curaria no sábado, a fim de o acusarem. Eles estavam tão convictos em seu ódio por Cristo que se preocupavam mais com ter algum motivo para acusá-lo do que com o bem-estar do povo. Esse registro serve de alerta para nós: muitas vezes tentamos colocar nossos interesses mesquinhos e egoístas no caminho do agir de Deus. Isso pode prejudicar outras pessoas, que poderiam ser abençoadas se nós nos colocássemos a favor da correnteza do poder do Senhor, ou pode nos destruir, uma vez que se preciso for Deus vai nos atropelar para fazer o que determinou fazer. Ignorando as tramas dos adversários, Jesus disse ao homem da mão ressequida: “Vem para o meio!” (Mc 3.3). Então, lhes perguntou: “É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la?” (3.4). Ficaram em silêncio.

O quarto mandamento diz: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho (...)” (Ex 20.8-10). Isso nos lembra que, ainda que devamos fazer todas as coisas para a glória do Senhor, existem algumas atividades que glorificam a Deus de maneira mais clara que outras. Para fazer uma distinção, todas as coisas lícitas podem se tornar em adoração a Deus, mas algumas coisas são próprias de culto ao Senhor.

Por exemplo, podemos adorar a Deus por meio do trabalho, estudo, sexo, comida, bebida, etc. Mas devemos priorizar determinadas atividades distintas, como a leitura da palavra, a oração, a comunhão com os irmãos, os sacramentos, etc.. A essas coisas podemos chamar de culto. Nessa passagem, Jesus está ensinando que os atos de misericórdia, fazer o bem às pessoas, também fazem parte dessa ordem especial de atividades que denominamos “culto”.

A Confissão de Fé de Westminter[1] (XXI, 8) concorda com isso ao ensinar que “este sábado é santificado ao Senhor quando os homens (...) não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia”. Igualmente, o Catecismo[2] (q.117) ensina que devemos passar todo o Dia do Senhor nos exercícios públicos e particulares do culto de Deus, “exceto aquela parte que se deve empregar em obras de necessidade e misericórdia”.

Outro princípio revelado por Jesus aqui, Tiago 4.17 coloca nas seguintes palavras: “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando”. Isso porque Jesus diz aos fariseus em Mc 3.4 que se Ele se recusasse a fazer o bem àquele deficiente físico, isso já seria fazer mal a ele, e se Ele se recusasse a libertar a sua vida, isso seria como matá-lo. Por isso Jesus não quebrou o quarto mandamento quando, com uma só palavra, ordenou que aquele homem fosse curado. Primeiro, porque o quarto mandamento exige que façamos atos de misericórdia ao dizer “lembra-te do dia de sábado, para o santificar”; segundo, porque recusar-se a fazer o bem sem um bom motivo é pecado.

Marcos 3, a partir do versículo 7, e Mateus 12, a partir do versículo 15, narram que, como os fariseus queriam matar Jesus, Ele se retirou para o mar da Galileia, e grandes multidões O seguiram. Certo dia, na Galileia, trouxeram-lhe um endemoniado que era cego e mudo e Jesus o curou. Vendo isso, as pessoas ficaram admiradas e, atônitas, começaram a se perguntar se Ele não era mesmo o Filho de Deus. Os fariseus, porém, movidos por seu ódio, acusaram o Senhor de expulsar demônios pelo poder de Satanás. Jesus então refutou essa acusação absurda dizendo que não faria sentido Satanás expulsar seus próprios enviados. Ao contrário, o ministério de exorcista do Senhor era parte de Sua obra de amarrar o Diabo para que o reino de Deus prevalecesse.

Então Jesus lhes advertiu que todo pecado poderia ser perdoado, exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo. Mas o que é essa blasfêmia? Esse é um dos textos mais debatidos da história. Alford[3] define tal pecado como um aberto desprezo do poder presente do Espírito Santo trabalhando em e para o Reino de Deus. No caso dos fariseus, esse desprezo se manifestou ao atribuir a demônios uma obra que eles sabiam ter sido feita pelo Espírito (sabiam porque foram iluminados, provaram o dom celestial e ouviram a palavra de Deus).

Se atribuir a Satanás uma obra que é do Espírito Santo é blasfêmia, o contrário também procede: atribuir ao Espírito algo que você sabe que não foi Ele é igualmente blasfemo. Satanás continua agindo por meio de falsas revelações, vozes do céu, sonhos, profecias mentirosas, milagres, teologia ruim, etc.. Uma pessoa que sabe que uma obra é maligna e ainda assim a atribui ao Espírito Santo O está desonrando. Segundo Jesus, tal coisa não será perdoada.

A blasfêmia sempre se manifesta com palavras, mas ela é apenas a exteriorização de algo que está no coração, a saber, uma rejeição irremediável do Espírito. “O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más” (Mt 12.35). O próprio Evangelho de Mateus faz a conexão entre a blasfêmia contra o E.S. e esse princípio, basta lermos 12.31-35. Assim, a blasfêmia contra o E.S. não é qualquer ofensa; pois muitas vezes O ofendemos por ignorância, ou sem a intenção, ou mesmo porque ainda não fomos iluminados para entender o que estamos realmente fazendo. Ela se trata, na verdade, de uma atitude de ódio irremediável contra Deus e o Seu Espírito. Todos os homens, sem Jesus, no fundo odeiam ao Senhor. Mas alguém que chega nesse estado de apostasia, em que o arrependimento é impossível, já não tem mais nenhuma esperança, somente “uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários” (Hb 10.27) de Deus.

Não devemos, todavia, aceitar o que alguns falsos mestres fazem, usando esse texto para ameaçar pessoas que questionam suas doutrinas e falsas manifestações espirituais, sob a acusação de blasfêmia. Só é possível cometer a blasfêmia contra o Espírito Santo conscientemente. Ou seja, negar a ação do Espírito Santo na vida de um obreiro só se enquadra nessa categoria quando você sabe que ele é um homem de Deus e ainda assim nega isso. Questionar alguém que você ainda não sabe se verdadeiramente obedece ao Senhor é, no máximo, um pecado de ignorância, e não creio que isso se enquadre nesse caso. Por fim, se você puder se arrepender disso, é sinal que Deus lhe concedeu o arrependimento e o Espírito não se afastou de você.

A partir do texto paralelo em Mateus 12, alguns papistas fundamentam a doutrina do purgatório, uma vez que eles entendem que, se Jesus está dizendo que a blasfêmia contra o E.S. não será perdoada “nem neste mundo nem no porvir”, isso significa que alguns pecados são perdoados após a morte. O mundo “porvir” (Olam Habbah, em hebraico) é um termo comum na tradição judaica que se refere à época gloriosa após a vinda do Messias, em oposição ao século (idade, era ou mundo, seguindo outras traduções) presente (Olam Hazeh), que é o tempo entre a queda de Adão e a vinda do Messias. Ou seja, Jesus está dizendo nesse versículo que a blasfêmia contra o Espírito Santo não seria perdoada nem antes da vinda do Messias, nem depois da vinda Dele. Ele não está falando nada sobre algum perdão após a morte, muito menos de um purgatório.

Pode ser controverso se o Olam Habbah começou na primeira vinda de Cristo ou se começará na segunda, mas ele não está em oposição ao Olam Hazeh no sentido de que o mundo presente é esse mundo e o século futuro é o mundo dos mortos, como supõe os defensores do purgatório, mas eles são períodos de tempo distintos. Por isso a maneira como Marcos expõe essa fala de Jesus é mais simples: aquele que comete tal pecado jamais será perdoado. Provavelmente o mundo “porvir” começa após a ressurreição dos mortos, o que é justamente o que os judeus crêem e o que o Credo Niceno-constantinopolitano parece afirmar: "Esperamos a ressurreição dos mortos; e a vida do mundo vindouro".

Nisto, chegaram a mãe e os irmãos de Jesus, e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo. Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram: “Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura” (Mc 3.32). Então, ele lhes respondeu, dizendo: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” (Mc 3.33). E correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3.34-35). Se fizermos a vontade do Senhor, seremos agraciados com a benção de fazer parte da família de Deus, do povo que Jesus conquistou com o Seu sangue.

A PARÁBOLA DO SEMEADOR

A seguir, no capítulo 4, Jesus conta e explica a parábola do semeador. Antes de mais nada, uma parábola é, segundo Vincent Cheung, uma comparação entre uma verdade natural e uma verdade espiritual[4]. Muitas pessoas acham que Jesus falava por parábolas para explicar melhor aquilo que estava dizendo, mas nos versículos 11-12 Cristo diz que é justamente o contrário, Ele falava por parábolas para que as pessoas não entendessem mesmo ouvindo as verdades divinas, não se convertessem e não fossem perdoadas. Nem mesmo os discípulos mais próximos de Cristo entendiam, e só eram capazes de compreender se Ele explicasse. Em Jo 16.29-30 os próprios apóstolos afirmam que preferiam que Jesus falasse claramente e não por meio de figuras, pois assim podiam entender o que Ele dizia e crer Nele.

Um dos motivos porque Cristo obscurecia Seu ensino dessa forma era para fazer com que somente aqueles que O buscassem de coração, se dedicassem a entender o que Ele dizia e andassem com Ele pudessem, ouvindo as explicações, compreender o que lhes era dito. O Evangelho de Mateus coloca a questão de outra forma, em 13.10-15, dizendo que não era concedido ao povo conhecer os mistérios do reino dos céus porque o coração deles estava endurecido, de maneira que ouviam o que Jesus dizia de má vontade, intencionalmente se fecharam à compreensão das Suas palavras e por isso não conseguiam entender. Parece-me que Marcos e Mateus estão enfatizando dois lados de uma mesma moeda: o Senhor os rejeitou e eles rejeitaram ao Senhor, de modo que eles se endureceram, e por isso Deus fez com que endurecessem. Jesus apenas expôs, ao usar parábolas, a má vontade do povo em relação à palavra de Deus.

A parábola do semeador é importante porque ela é sobre como ouvir a Palavra de Deus, o que inclui todo o Evangelho de Marcos e também as outras parábolas. Por isso Jesus diz: “Não entendeis esta parábola e como compreendereis todas as parábolas?” (4.13). Isso significa que essa entender essa parábola é importante para entendermos as outras, seja por causa do seu tema (ouvir a Palavra de Deus) seja por ser uma das mais fáceis, e, consequentemente, abrir a mente para o entendimento das demais.

Essa história começa com alguém lançando sementes em qualquer lugar. Uma parte delas foi caiu à beira do caminho, vieram as aves e a comeu. Outra caiu em terra rochosa, o que, segundo o reverendo Rowland[5], não significa um solo revestido de pedras, mas um solo com um pouco de terra sobre rochas, de modo que a semente não consegue criar raízes profundas, tornando-a mais frágil; devido ao sol e à falta de umidade, a planta logo morre. Outra parte caiu entre os espinhos; os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto. Outra, enfim, caiu em boa terra, vingou e cresceu, frutificando.

Segundo a explicação do próprio Jesus, essa parábola ilustra quatro tipos de pessoas. O primeiro ouve a palavra, mas não consegue compreendê-la adequadamente, então vem Satanás e tira-a do coração deles. O segundo ouve e recebe com alegria, mas a palavra não cria raízes nele, de modo que quando chega vem a angústia ou a perseguição, logo tropeça. O terceiro ouve a palavra e permite que ela germine, mas as preocupações mundanas e a cobiça sufocam a palavra, ficando infrutífera. E o quarto é aquele que ouve, recebe e pratica, frutificando.

Como devemos, portanto, ouvir e ler a palavra de Deus? Primeiramente, precisamos nos esforçar para compreendê-la. Ela não chega ao nosso coração se não passar pela nossa mente. O relacionamento com o Senhor envolve, também, um esforço mental para entendermos o que o Altíssimo nos diz. Segundo, não basta apenas entendermos a Palavra, mas devemos também meditar sobre ela, a fim de que ela transforme nossa maneira de pensar e, consequentemente, de agir.

Terceiro, devemos nos apegar à Palavra com fé e perseverar em crer nela, para não deixarmos de agir conforme o aprendido diante dos problemas. O próprio Jesus deu exemplo disso, não permitindo que as inúmeras dificuldades atrapalhassem Seu ministério. Lembre-se que os fariseus tornaram-se abertamente antagônicos ao Senhor. Provavelmente colocaram espiões atrás Dele. Eles debatiam publicamente com Jesus e mentiam a seu respeito para tentar desmoralizá-lo. E a multidão o cercava por todos os lados, sempre exigindo mais e mais do Seu poder, de tal forma que Ele precisou pedir “a seus discípulos que sempre lhe tivessem pronto um barquinho, por causa da multidão, a fim de não o comprimirem” (Mc 3.9). Ainda assim, sobre toda perseguição e angustia, Cristo continuou anunciando a Palavra.

Quarto, devemos esvaziar nossa mente e coração de preocupações e cobiças, pois elas podem nos impedir de desenvolver desejos, intenções, sentimentos e vontades que se conformem ao que Deus falou. Quinto, devemos ensinar a outros aquilo que aprendemos, através do discurso e da prática, pois isso significar frutificar; o fruto é o lugar onde ficam depositadas as sementes, por meio das quais outras terras poderão ser semeadas.

Examine o seu próprio coração quando estiver lendo ou ouvindo a Palavra. Você está entendendo? Que mudança ela pode causar em você? Como você pode praticá-la? Que dificuldades vão surgir se você viver conforme essa Palavra? Outros pensamentos têm atrapalhado a tua meditação? Você confia no Senhor para atender às tuas necessidades, ou deixará a preocupação matar a Palavra em você? Os sentimentos que a Palavra te provocam são superficiais, ou durarão bastante?

Essa parábola nos esclarece porque a blasfêmia contra o Espírito Santo é tão grave. O Espírito Santo é aquele que nos ilumina para compreendermos as Escrituras, nos fortalece para enfrentarmos as dificuldades, nos transforma por meio da Palavra, nos santifica, nos purifica e frutifica em nós. Rejeitar o E.S. é como rejeitar a água, luz e nutrientes necessários para uma planta. Alguém que insiste nisso jamais se converterá ao Senhor e, portanto, nunca será perdoado. Os inimigos de Cristo não podiam receber a mensagem Dele e conspiravam para matá-lo porque Satanás estava cegando seu entendimento, de maneira que a Palavra não podia penetrar-lhes o coração.

Se você se identifica com os três primeiros solos da parábola – se não tem conseguido entender a Bíblia, ou tem uma fé muito superficial, ou mesmo tem permitido que sua mente esteja cheia de preocupações mundanas e ambições desmedidas – precisa buscar a Cristo Jesus e ao Espírito Santo, a fim de que eles te transformem em terra boa, te libertem de Satanás e eliminem tudo aquilo que impede a semente de germinar e frutificar adequadamente em você. O Senhor é o bom agricultor (Jo 15.1), que sabe como preparar o solo do nosso coração para receber a semente, e sabe como cuidar de nós depois que crescemos. Ainda que a parábola do semeador enfatize a ação humana de receber a revelação divina, ela não deve ignorar que Cristo veio para chamar justamente os pecadores – a terra cheia de pedras, espinhos e pássaros comedores de sementes – para frutificarem. Esse é, aliás, o maior milagre de Jesus: semear onde ninguém jamais pensou que poderia ser semeado e fazer com que frutifique.

OUTRAS PARÁBOLAS E A AUTORIDADE DE JESUS SOBRE A NATUREZA

Depois disso, disse Jesus: “Vem, porventura, a candeia para ser posta debaixo do alqueire ou da cama? Não vem, antes, para ser colocada no velador? Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se faz escondido, senão para ser revelado.” (Mc 4.21-22). Tanto Marcos quanto Lucas colocam essa fala depois da parábola do semeador, indicando que há alguma relação entre elas. O registro de Marcos conclui assim: “Atentai no que ouvis. Com a medida com que tiverdes medido vos medirão também, e ainda se vos acrescentará. Pois ao que tem se lhe dará; e, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” (24-25). Ou seja, precisamos nos examinar para ver como estamos ouvindo ou lendo a Palavra de Deus, pois se a retivermos em nosso coração seremos abençoados, mas se não fizermos isso, até o que já foi recebido iremos perder.

É impossível que a Palavra de Deus, uma vez germinando, não frutifique. Assim como Jesus não podia se esconder muito tempo dos homens, um filho de Deus também não pode ficar muito tempo sem frutificar. A boca fala do que o coração está cheio, de modo que se nosso coração está cheio da Palavra da Verdade, é essa Palavra que dominará o nosso discurso e a nossa prática. Por outro lado, se você não tem frutificado, se a Palavra de Deus não sai de você naturalmente abençoando outras pessoas, isso pode significar que aquilo que você recebeu não encontrou boa terra em teu coração, o que deve te levar ao auto-exame.

Nos versículos 26-29 vemos uma parábola que é exclusiva do Evangelho de Marcos. Segundo ela, o reino de Deus é como uma semente lançada à terra; o semeador dorme e levanta, de noite e de dia, e a semente germina e cresce, mas ele não sabe como. A terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga. Quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque chegou a colheita. Ou seja, o Reino de Deus na terra cresce gradualmente, sem a ajuda dos homens, até a Vinda de Cristo, que virá colherá os frutos e julgará os homens.

Cheung aplica essa parábola ao crescimento espiritual individual. Como uma planta, nós também amadureceremos gradualmente. Ele não precisa ser necessariamente lento (algumas espécies de bambu chegam a crescer um metro em um dia), mas é processual, de modo que muitas vezes nós não perceberemos nosso próprio crescimento. Por isso, se você pensa não estar progredindo, não desanime tão rápido; não tente comparar seu estado atual com ontem, mas com um ano atrás, ou cinco, ou um longo tempo, e ai você terá uma visão mais realista do quanto já progrediu, se muito ou pouco.

O fato da planta crescer sozinha nos lembra que o nosso dever é semear a Palavra, mas “nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.7). Por isso devemos tomar o cuidado de não acharmos que a Missão da Igreja deva ser exercida através de métodos e estratagemas humanas, mas através do poder de Deus. E assim como o crescimento do Reino no mundo, precisamos entender que não é o nosso próprio esforço o fator principal (embora ele seja importante), mas a graça de Deus operando em nós. Portanto, se você acha que não tem amadurecido o suficiente, antes de dizer como o Sansão de Orwell, “trabalharei ainda mais”[6], busque ao Senhor para que Ele te fortaleça. É Deus que faz a planta crescer, é Deus que faz você crescer e é Deus que faz a Igreja crescer.

A parábola seguinte enfatiza o crescimento do Reino. Segundo Jesus, o Reino de Deus “é como um grão de mostarda, que, quando semeado, é a menor de todas as sementes sobre a terra; mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra” (31-32).

Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: “Passemos para a outra margem” (v.35). E eles, despedindo a multidão, partiram de barco. Ora, levantou-se grande temporal, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. E Jesus estava na popa, dormindo tranquilamente; eles o despertaram e lhe disseram: “Mestre, não te importa que pereçamos?” (v.38). E Jesus, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: “Acalma-te, emudece!” (39). O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. Então, lhes disse: “Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé?” (40). E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?”(41).

Nessa passagem vemos que autoridade de Jesus se estende até mesmo às forças da natureza, que obedecem prontamente às suas ordens. Essa situação ilustra para nós que a verdadeira fé é justamente uma confiança nessa autoridade de Cristo sobre todas as coisas que podem nos fazer mal. O medo diante das dificuldades pode ser um sinal de incredulidade. Jesus não temeu a tempestade porque Ele sabia quem era. Você sabe quem é Jesus? Então não tema também.

[1] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINTER. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm>

[2] CATECISMO MAIOR DE WESTMINTER. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm>

[3] ALFORD, Henry. Greek Testament Critical Exegetical Commentary. Disponível em: <http://biblehub.com/commentaries/alford/>

[4] CHEUNG, Vincent. As Parábolas de Jesus. Tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto. Boston: Reformation Ministries International, 2003.

[5] ROWLAND, A. Human Hearts Tested by Truth. Disponível em: <http://biblehub.com/sermons/auth/rowland/human_hearts_tested_by_truth.htm>

[6] ORWELL, George. Revolução dos Bichos. Edição Ridendo Castigat Mores.
Raphael Andrade
Enviado por Raphael Andrade em 10/03/2018
Reeditado em 10/03/2018
Código do texto: T6276253
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Sobre o autor
Raphael Andrade
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 24 anos
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Raphael Andrade