“No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam as faces do abismo; E o Espírito de Deus movia-se sobre as águas.” Gênesis, 1; 2,3.
13_yod.gif
 
               Como era uma “Existência Negativa”,
               Que estava só num espaço atemporal;
               Ele tornou-se a “Existência Positiva”,

               Que agasalha em Si o Todo universal.
 
               Quem sabe esse Big- Bang dos ateus,
               Que um cientista vê no seu telescópio,
               Não é o justo momento em que Deus,
               Está fazendo um parto em Si próprio?
.
               A visão é bem estranha, eu reconheço;
               Mas a imagem transmite boa filosofia
               E fica mais fácil a ideia de um começo.
 
               Este tema merece um pensar profundo:
               Se antes do universo já um Deus havia,
               O que Ele era antes de ser este mundo?

 
                                 
       Em um de seus mais famosos trabalhos, o físico Stephen Hawking situa o início do tempo no momento de nascimento do universo conhecido, momento esse chamado de Big Bang.¹ 
Por isso,  para os cientistas, o tempo começou junto com o espaço, razão pela qual ele sempre é representado em um eixo cujas linhas começam em um ponto zero e se alongam na mesma proporção.
       Destarte, poder-se-ia dizer que, em termos reais, Deus nasceu junto com o universo, e em termos de vida positiva, ele teria a mesma idade que o mundo físico ostenta. Por isso a Cabala o chama de "Ancião dos dias".

      Nessa mesma especulação, pode-se fazer a intrigante pergunta que tem atormentado filósofos, cientistas e intelectuais de todos os tempos e nunca foi respondida a contento: Se foi Deus que fez o universo, o que Ele era e o que fazia antes de começar a fazê-lo? Ele já existia antes do mundo físico? Ou Ele “nasceu” junto com ele? 
      A Bíblia, ao registrar esse fato não é menos metafórica e misteriosa do que os compêndios científicos que procuram explicar como o universo nasceu. Ela fala que “no início Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia e as trevas cobriam a face do abismo.” E então, do meio ás trevas Deus fez sair a luz. E Deus viu que a luz era boa e por isso a separou das trevas. E com ela fez todo o restante da realidade existente. Não é isso que Einsten também intuiu com a sua equação E=mc2:?
      O texto bíblico deixa bem claro que Deus já existia antes de fazer o universo porque foi Ele quem o fez. Assim, Ele já tinha uma existência anterior ao mundo. Dessa forma, Ele não pode ser o universo, como sustentam alguns filósofos panteístas, que identificam Deus com o universo físico, como se ele fosse algo capaz de existir por si próprio. 
      A Bíblia identifica Deus como o "Espírito que movia-se sobre as águas." Uma expressão enigmática que nunca pode ser explicada a contento dentro da lógica comum, pois se o mundo ainda era pura trevas e a terra era informe e vazia, que “águas” eram essas sobre as quais o Espírito de Deus se movia? Pois, ao que parece, elas já existiam antes de Deus separar a luz das trevas. Hawking (Uma Breve História do Tempo, 1989), escreve que no início do universo, que dizer, no momento seguinte à explosão do campo energético que lhe deu origem, um "oceano" de quarks e anti quarks se formou, dando origem à várias partículas atômicas chamadas de prótons, neutrons, mésons e bárions, de cuja união formaram-se os núcleos de hidrogênio, hélio, lítio e deutério. Esses elementos, segundo esse grande cientista, (considerado por muitos colegasseus  um novo Eisnten), estão na origem dos primeiros átomos. Portanto, assim nasceu o universo: a partir de "um mar primordial" de energias dispersas, originadas da explosão de um centro único de infinita potência radioativa. 
      A Bíblia nos dá uma identificação e uma ideia do que era Deus antes de começar o mundo: Ele era um Espírito. Ele movia-se sobre as "águas primordiais". Se ousarmos colocar essa metáfora dentro das especulações de Hawking, poderíamos imaginar Deus como a "Mente", ou a "Mão", que organizou essas energias dispersas, concentrando-a em átomos, produzindo assim, as "sementes" das quais sairia o universo. Mas a segunda pergunta fica ainda sem resposta: O que Ele fazia antes de começar o mundo?

    
       Essas especulações são tão intrigantes que os próprios rabinos, produtores e comentadores da Bíblia, tiveram que quebrar a cabeça para responder á multiplicidade de questões que surgiram a esse respeito. Formou-se então a Grande Assembléia Sagrada, grupo de inspirados rabinos, iniciados na Grande Tradição da Cabala, que tornou-se uma escola de interpretação esotérica da Biblia,  com o objetivo de estudar essa e outras metáforas bíblicas. E desses estudos saíram outras metáforas, ainda mais misteriosas e desconcertantes, mas muito originais e de uma beleza poética estonteante, que se tornou a Grande Tradição da Cabala.
      A Cabala tornou-se, pois, uma forma de linguagem, desenvolvida especialmente para explicar as escrituras sagradas, pois estas, no entender desses estudiosos, foram redigidas em código, e para entendê-las corretamente, era preciso decodificá-las, para que a palavra de Deus, nelas contida, pudesse fazer sentido para a humanidade.
     Para responder á intrigante pergunta de quem era Deus e o que fazia antes de começar a fazer o universo físico, eles criaram o conceito de Existência Negativa” e “Existência Positiva”. 

      Esses são termos que designam Deus “antes” e “depois” de fazer o mundo. Nesse sistema, Deus (Ein Sof, ou Ayn Sof, אין סוף em hebraico), é visto como uma forma de "energia" que em dado momento expandiu-se para fora de si mesmo, tornando-se o universo material (Ain Sof Aur).  O primeiro termo (Ein Sof) é a própria energia concentrada em si mesma, e quando ela se manifesta, se torna En Sof Aur, ou seja, a Luz Ilimitada, que preenche o espaço vazio.   


                               

No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam as faces do abismo; E o Espírito de Deus movia-se sobre as águas.” Gênesis, 1; 2,3.

      Essa visão mística do nascimento do universo é definida no Livro do Mistério Oculto (SeferHaDziniuta), com a curiosa metáfora que diz: “antes que o equilíbrio de consolidasse, o semblante não tinha semblante”.²
      Aqui está inserta a estranha idéia de que antes de fazer o mundo, ou seja, antes de o Espírito de Deus manifestar-se como existência física, Ele já existia como uma forma de energia, que embora não manifesta, já continha em si mesma todos os atributos do universo manifestado. Inclusive as próprias "águas" em que ele se movia, que pode ser entendida como a substância da qual Ele viria, mais tarde, a gestar a vida.
      Ele era uma “existência negativa”, na qual a mente humana não pode penetrar justamente porque ela só pode conceber um plano de existência positiva, onde as ações podem ser identificadas e suas causas recenseadas. E daí nasceu a não menos curiosa ideia, que também pode ser encontrada entre os taoístas, de que, para haver criação, é preciso a existência de duas forças contrárias, dois polos de ação energética que atuem em sentidos contrários, mas convergentes, chamadas de Yin e Yang. Positivo e negativo. Macho e fêmea. Matéria e espirito. Ou seja, o movimento dialético que dá vida ao universo.
                            
     Se quisermos dar fumos de ciência á essa ideia podemos chamar essas forças de relatividade (a expansão do universo causada pela força da explosão inicial) e gravidade, que promove a orgnização do caos inicial mantendo essas forças dispersas em estruturas organizadas e funcionais. 

       A pergunta que surge dessas especulações é: será por isso que Deus, a Existência Negativa, resolveu fazer o universo, para poder ter uma Existência Positiva? E assim poder criar? Tudo leva a crer que sim, por isso os cabalistas cristãos definiram Deus (e seu filho Jesus) como o Verbo que se fez carne e habitou entre nós. ( No início era o Verbo, o Verbo estava com Deus, e um Deus era o Verbo)- João , 1:1.2

       De fato, essa idéia da divindade , desenvolvida pela Cabala supre a necessidade que a mente humana tem de situar um início para o universo e imaginar, não um fim para ele, mas uma finalidade. Deus, o Espírito, ao fazer o universo, fez para si mesmo um corpo material. Sem esse corpo Ele não teria como criar. Como fez depois, para o homem Adão, uma fêmea (outra metáfora para a qual a Cabala tem uma explicação bastante criativa). Sem ela não haveria criação e a humanidade não existiria. Dessa forma tudo se encaixa, e nós podemos concluir: o universo é o corpo material de Deus. Por isso ele é feminino, como diz o Tao. Ele é a natureza, mãe das Cem Famílias. ( Tao Te Ching, verso I)³
       E como reconhece o Papa, a versão bíblica do nascimento do universo, tal como expresso em Gênesis, 1;2;3, em absoluto contradiz o que diz a ciência quando afirma que ele nasceu de uma grande explosão atômica ocorrida há bilhões de anos atrás. Isso quer dizer que quando maltratamos a natureza estamos maltratando o próprio corpo de Deus. 
      Assim como todos os bebês já existem antes do seu nascimento (primeiro no pensamento e nos DNAs de seus pais) e depois no esperma do pai e no óvulo da mãe,  também Deus já existia antes de “dar a luz a si mesmo”, como Potência Imanifesta em estado latente e depois como Potência Manifestada em multifacetas formas. 
     Por isso é que  chamamos, metaforicamente, o Big Bang  de o “Parto de Deus” e a Cabala o figura como o Grande Semblante e o Ancião dos Dias. (continua)
 __________
¹-
Stephen Hawking- Uma breve história do tempo- Madras, 1989
² - Knorr Von Rosenroth, A Kabballah Revelada- Madras, 2006
³- Lao Tse- Tao Te Cing- Ed. Pensamento, 1986