O SEGUNDO MESSIAS
Publicação Land Mark-Editora, São Paulo, 1997
 
 
O Segundo Messias é um livro escrito por Christopher Knight e Robert Lomas, dois escritores ingleses, maçons, que ficaram conhecidos por outro livro por eles escrito, chamado “A Chave de Hiram”.
Neste livro a ênfase é posta em duas questões, que até hoje ainda preocupam os pesquisadores: primeira: de quem é a imagem que aparece no Sudário de Turim? Segundo: É a Maçonaria uma continuação da Ordem dos Templários, ou essa reivindicação dos maçons é apenas uma mistificação renascentista, feita por adeptos da Reforma Protestante, com a finalidade de dar uma aura de nobreza à sua instituição?
A historiadora Bárbara Frale, pesquisadora do Vaticano, através de uma longa e séria pesquisa, já tinha chegado à conclusão que o Sudário de Turim era uma relíquia, que antes de ser conhecida e venerada na Europa, estivera na posse dos Cavaleiros Templários. Era, na verdade, uma relíquia pertencente à família Charney, sendo que um dos membros dessa família, Geofroy de Charney, foi um dos líderes da Ordem do Templo que foram presos e queimados na fogueira por ordem do rei da França, Filipe, o Belo, juntamente com Jacques de Molay. Só depois de mais de um século após a extinção dos Templários, que essa relíquia começou a ser exposta em igrejas da França e acabou sendo comprada pelo arcebispo de Turim, onde ela está até hoje.
A ideia geral sobre o Sudário de Turim é que ele reflete a imagem do corpo de Jesus Cristo crucificado. Essa imagem teria aderido ao tecido de linho no qual o corpo dele, depois de tirado da cruz, foi envolvido. De fato, a imagem é a de um homem que foi crucificado e sofreu todo tipo de mutilações, inclusive tendo a sua cabeça ferida por uma coroa de espinhos.
Todavia, a datação feita com rádio carbono, feita por laboratórios italianos e americanos mostrou que o tecido foi fabricado entre os séculos XII e XIV da era cristã. Portanto, não teria mais de oitocentos anos.  Como a crucificação de Jesus ocorreu no primeiro século da nossa era, há mais de 2000 anos,  essa imagem não poderia ser dele.
A hipótese defendida pelos autores do livro “O Segundo Messias”, é que a imagem do Sudário é a do corpo do último comandante da Ordem do Templo, Jacques de Molay. Supostamente, ele também foi torturado e possivelmente crucificado pelos padres da Inquisição, antes de ser levado à fogueira. As torturas à que ele foi submetido constam do processo que a Santa Inquisição moveu contra os Templários. E a imagem do Sudário combina com as descrições que se fazem do último Grão-Mestre da Ordem do Templo, que tinha cerca de setenta anos quando foi queimado na fogueira.
As dúvidas a esse respeito ainda persistem. A Igreja Romana, é lógico, não aceita a hipótese de que a imagem do Sudário não seja a de Cristo e sim a de Jacques de Molay. Denuncia as falhas que a datação com rádio carbono possa ter, e continua afirmando que esse seria o único retrato de Jesus que existe na terra.
A outra tese defendida pelos autores é sobre a autenticidade da reivindicação da Maçonaria sobre a herança templária. A tradição mais acreditada sobre esse fato seria a de que vários cavaleiros templários teriam fugido da França quando a Inquisição começou a persegui-los em território francês e se refugiaram na Escócia, dando continuidade á Ordem do Templo em terras escocesas, sob a proteção do rei Robert Bruce.
É verdade que a Maçonaria, tal como a conhecemos hoje, é uma instituição que tem raízes escocesas. Ela nasceu a partir de associações criadas na Escócia, com objetivos militares, dando origem á varias outras tradições, como a Guarda Real Escocesa, a Ordem de Cavalaria de Santo André, e depois, quando a família escocesa dos Stuarts, que detinham o trono da Escócia, conquistou também o trono inglês, essas tradições foram trazidas para a Inglaterra. Os ingleses, que já possuíam uma tradição maçônica bastante forte, desenvolvida dentro das guildas dos construtores civis, fundiram as duas tradições, dando como resultado a Maçonaria moderna. Essa tese tem várias confirmações históricas e podem ser recenseadas em documentos da época. E como nos mostram os referidos autores, vários indícios dessa história subsistem nos rituais maçônicos, especialmente dos chamados Graus Superiores do Rito Escocês, que evocam, claramente, motivos templários em seu desenvolvimento.
Sabe-se agora que os Templários realmente se afastaram da doutrina católica por motivos ainda hoje não muito bem esclarecidos. Acredita-se que eles tenham sido contaminados pela doutrina dos Cátaros, uma heresia bastante forte que dominou uma boa parte da população do sul da França nos inícios do século XIII, ou que eles tenham, durante o período em que viveram na Palestina, descoberto documentos que provavam ser a história de Jesus, tal como defendida pela Igreja Católica, uma farsa. Mas o fato é que eles negavam mesmo as crenças defendidas pelo Vaticano, especialmente a divindade de Jesus, o seu nascimento virginal e principalmente a sua ressurreição. E por isso foram julgados hereges e um grande número deles acabou sendo queimado nas fogueiras da Inquisição.
Evidentemente, a Maçonaria não adota as mesmas crenças templárias, no que concerne a história de Jesus e as construções teológicas da Igreja Romana. A Maçonaria moderna é ecumênica e respeita todas as crenças. Mas não se pode dizer que ela seja inteiramente cristã, porque não é. Se fizermos um estudo mais aprofundado das tradições cultivadas pela Maçonaria moderna encontraremos muito mais elementos de crenças judaicas, vinculadas à tradição da Cabalá, e componentes da chamada filosofia gnóstica, conjunto de crenças que vigorou no Ocidente durante os primeiros anos da Era Cristã. Elas seriam, na opinião dos autores, os remanescentes da verdadeira doutrina ensinada por Jesus, adotada pela Igreja de Jerusalém, fundada pelos autênticos apóstolos de Jesus. Essa Igreja, conforme se infere nos Atos dos Apóstolos, e encontra confirmação nos textos de autores antigos, como Flávio Josefo, por exemplo, foi aquela liderada por Tiago, irmão mais novo de Jesus, que segundo o historiador acima citado, foi morto a pedradas pelos membros do Sinédrio quando defendeu, perante as autoridades judaicas, a tese de que Jesus era o Messias esperado. A Igreja de Roma, no entanto, preferiu ficar com as teses de Paulo de Tarso, que transformou o Messias judeu no Cristo universal, uma ideia que não tinha nada a ver com a doutrina original de Jesus, que era dirigida apenas e tão somente ao povo judeu.
Pode-se não concordar com as teses dos autores do Segundo Messias. Elas são, na verdade, um tanto delirantes e não trazem nenhuma novidade ao que já foi escrito sobre o tema. Mas que é um exercício semiótico interessante, isso é.
No fim, o que fica é sempre a velha constatação de que tudo se justifica pela fé. Para quem crê em Deus nenhuma explicação é necessária. Para quem não crê, nenhuma explicação é suficiente