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EVANGELISMO EM CIDADES DE CULTURA E TRADIÇÃO CATÓLICAS

Apesar das dificuldades, pastores e missionários não abrem mão de evangelizar em cidades historicamente enraizadas na cultura e tradição católicas



Entre o fim de outubro e início de novembro, a cidade de Juazeiro do Norte (CE) é praticamente invadida por dezenas de milhares de romeiros, que viajam léguas e mais léguas, muitas vezes em condições precárias, para prestar homenagens ou pagar promessas ao padim Ciço, como é chamado o maior ícone da fé católica na região sertaneja. Para os devotos, pouco importa se o Vaticano tenha ou não assinado sua beatificação; desde um suposto milagre – a transformação da hóstia em sangue durante uma missa celebrada há mais de cem anos –, a fama do padre Cícero Romão Batista se espalhou, ultrapassando fronteiras e até mesmos os limites da crença, transformando-o num verdadeiro fenômeno de popularidade entre os nordestinos. Religiosamente falando, Juazeiro do Norte pode até ser o município mais famoso da região, mas não é o único fortemente ligado ao catolicismo. Por ocasião das comemorações da Semana Santa, a cidade-teatro de Nova Jerusalém – região distrital de Brejo da Madre de Deus – se tornou o maior atrativo histórico-religioso do agreste pernambucano, a ponto de, anualmente, atrair milhares de turistas. Considerado o maior teatro ao ar livre do mundo – uma réplica da antiga Jerusalém dos tempos bíblicos –, a encenação dos últimos dias de Jesus é pomposa, tanto que atores globais são convidados para fazer parte do elenco. Bem mais ao Sul, em 12 de outubro as ruas de Aparecida, no Vale do Paraíba, também ficam apinhadas de católicos para as comemorações do dia da padroeira – como eles proclamam. De acordo com a Secretaria Municipal de Turismo, o município de pouco mais de 40 mil habitantes, chega a receber cerca de 10 milhões de visitantes por ano. O que, no entanto, cidades como Juazeiro do Norte, Nova Jerusalém e Aparecida têm em comum, especialmente se analisadas por uma ótica evangélica? Todas se classificam naquilo que alguns crentes costumam chamar de praças ou regiões estratégicas de evangelização em virtude das dificuldades por eles enfrentadas para transmitir a Palavra de Deus, como se um escudo as protegesse da ameaça de outras manifestações religiosas que não a enraizada na doutrina católica.



Como cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém, na opinião de Rubens Macedo Coutinho, líder da Primeira Igreja Batista da Convenção em Juazeiro do Norte, evangelizar nesses lugares requer um pouco mais de cuidado e perspicácia. “Expor a Bíblia de uma maneira meiga e clara tem sido a abordagem mais eficaz, e a conquista da amizade e da confiança é de fundamental importância, além do respeito aos ‘vulgos’ religiosos sem jamais criticá-los”, aconselha o pastor.



Sem fugir das responsabilidades como evangelista numa cidade singular e com inúmeros desafios a serem enfrentados, como ele mesmo define, o religioso priva sempre por manter um relacionamento de harmonia e respeito com os líderes católicos locais, tanto que, juntos, costumam discutir questões  práticas inerentes ao desenvolvimento do município, sem levar em consideração as crenças individuais. “Claro que existe uma luta para manter o controle religioso, uma pressão feita por familiares e também por certos líderes como se a cidade fosse ‘propriedade’ de um segmento específico, mas eu não chamaria isso de preconceito”, ameniza.



Já que, oficialmente, o Brasil é um país laico – assunto que causa bastante controvérsia, uma vez que a maioria dos feriados nacionais tem respaldo na religião católica – e a liberdade de culto é garantida pela Constituição Federal, nas últimas décadas inúmeras igrejas evangélicas têm se instalado em Aparecida, como a Assembleia de Deus Ministério Bom Retiro, de responsabilidade do comerciante Alcir de Souza Siqueira, que concorda em número, gênero e grau com a opinião do pastor cearense quanto aos métodos de evangelização, mas afirma não ter enfrentado nenhuma dificuldade. “Quando eu fui transferido para cá há mais de dezesseis anos, ainda havia certa resistência em relação aos evangélicos, mas hoje não há problema algum”, afirma com convicção, apontando em números a eficácia de seu ministério. “Atualmente, contamos com mais de 250 membros, dos quais 90% são formados por ex-católicos. É um lugar abençoado para pregar o Evangelho, e eu me dou muito bem com isso”, comemora.

Sediada em Guaratinguetá, também no Vale do Paraíba, em meados do ano passado a Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Pedregulho inaugurou uma célula praticamente colada ao Santuário de Aparecida, mas, antes que a iniciativa seja julgada como provocativa e possa fomentar as discussões entre evangélicos e católicos na região, o pastor Patrício Roberto Araújo adianta que a ideia partiu da própria cúpula da igreja e contou até mesmo com a aprovação do bispo local. “É um sinal de tolerância entre religiões distintas que possuem em comum a fé em Deus e em Jesus Cristo”, sacramenta. Representantes católicos afirmam que, independente da crença, a instalação do templo coloca as duas religiões em contato mais íntimo. Além disso, enquanto os fiéis católicos se dirigem à Basílica, seus cônjuges evangélicos podem participar das celebrações no templo protestante. “Uma obra dessas não tem a ver somente com a fé. Ao fim, eles se reencontram e seguem seus caminhos”, defendem, em condição de anonimato.





Impactos evangelísticos – Com um forte trabalho no interior nordestino, a Jocum-Cariri, de Crato (CE), tem realizado constantes campanhas missionárias – batizadas de “impactos evangelísticos” – em áreas carentes de orientação cristã, como definem os missionários. “Nosso foco é transmitir o amor de Deus ao povo por meio de diversas manifestações artísticas e sociais”, explica o diretor de evangelismo Anderson Araújo da Silva. A mais recente empreitada dos Jovens Com Uma Missão aconteceu entre os dias 28 de outubro e 2 de novembro, justamente na vizinha Juazeiro do Norte, quando um exército de missionários se misturou aos milhares de romeiros durante a tradicional peregrinação.



Distribuição de água e comida, apresentação de peças teatrais, concentrações noturnas em praças públicas, músicas de louvor no melhor estilo do sertão, além, é claro, de pregações; ali vale tudo para atrair a atenção dos romeiros. “Contamos com mais de 350 voluntários, entre brasileiros e estrangeiros”, alegra-se o missionário.

Como a grande maioria dos devotos não dispõe de condições suficientes sequer para suprir os gastos com alimentação e hospedagem, não há católico que recuse uma ajudinha humanitária, mesmo que camuflada por motivos evangelísticos. Com isso, ano após ano os resultados têm sido mais expressivos e animadores. “De tão intenso, o nosso trabalho já alcançou mais de 20 mil pessoas”, comemora Anderson Araújo, que sabe como ninguém driblar as dificuldades enfrentadas por falar de uma religião protestante numa cidade esmagadoramente católica, mas que lamenta pelo preconceito e intolerância que ainda fazem parte de algumas comunidades brasileiras. “Sofremos com perseguições, calúnias e ameaças por parte daqueles que querem mandar na cidade, que até usam a força política de outras igrejas para proibir os trabalhos evangelísticos e sociais. Às vezes somos até chamados de bodes, filhos da mentira, ladrões etc”, reclama, indignado.





Entre o sagrado e o profano – Religiosidade e profanação, ou então, celebração divina e festa popular; essas são algumas das características díspares que fazem da histórica cidade de Ouro Preto um dos lugares mais singulares do país, pivô de constantes controvérsias e questionamentos no que tange às práticas religiosas politicamente corretas, ao menos na concepção de grande parte das comunidades evangélicas. Atualmente, o mesmo sentimento de orgulho dos ouropretanos pelo riquíssimo legado histórico e à arquitetura colonial de suas igrejas e casarões – na década de 1980, a cidade foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Universal da Humanidade –, tem sido também atribuído ao que eles consideram como um dos melhores carnavais de rua da região, ocasião em que o número de devotos da fé praticamente míngua, enquanto que os foliões se amontoam ladeiras de paralelepípedo abaixo.



Entram, então, em ação, grupos de crentes que se misturam aos carnavalescos convencionais nas alegorias e serpentinas, mas com uma diferença fundamental no propósito: brincar o carnaval de uma maneira saudável, sem extravagâncias e, de quebra, abocanhar almas para Cristo. Ou seja, unir o útil ao agradável. Esse é o “impacto evangelístico” do bloco Jesus Bom a Beça que, a exemplo do que acontece na romaria de Juazeiro do Norte, também é coordenado por uma base missionária da Jocum. “Temos uma identificação muito grande com o povo de Ouro Preto, tanto que caímos na graça de evangélicos, católicos e espíritas, que nos aceitam e se sentem amados e abençoados com a nossa proposta. A própria sociedade e as autoridades locais reconhecem a importância do trabalho evangelístico realizado junto aos jovens que participam do carnaval”, orgulha-se o Pedro Bezerra de Souza – mais conhecido como Tio Pedro –, diretor na Jocum de Contagem, cidade da zona metropolitana de Belo Horizonte.



Paraibano de nascença e mineiro de coração, o missionário admite, sim, realizar um trabalho bastante forte de evangelização, mas sem forçar a barra ou tentar impor nada a ninguém. “Simplesmente estamos ali com nossos valores e princípios bíblicos bem definidos. Com isso, conseguimos evangelizar em massa durante todos os dias de carnaval”, continua.



Ainda, de acordo com o evangelista, pregar numa cidade "aparentemente" tão católica não acarreta em nenhuma dificuldade além do habitual em comparação a outras praças. “Temos consciência que somos muito pequenos diante de tantas igrejas históricas e pomposas, mas jamais deixamos de confiar em Deus e sabemos que ele está conosco”, finaliza.





Aparecida – O Milagre



Com direção da cineasta nipo-brasileira Tizuka Yamasaki, no mês de dezembro estreou nos cinemas brasileiros o filme Aparecida – O Milagre, protagonizado por Murilo Rosa e Maria Fernanda Cândido. No roteiro, a história de um empresário bem-sucedido, mas que entra em crise existencial depois que o filho, com o qual mantém uma relação não muito amistosa, sofre um grave acidente. As circunstâncias o levam a rever certos conceitos e retomar às suas origens humildes, cujas lembranças o remetem à mãe, uma fervorosa devota de Aparecida. Para Gláucia Camargos, a intenção não é retratar a história de uma santa, mas um episódio importante da cultura e da religiosidade brasileira. Aliás, o projeto não saiu da noite para o dia; pelo contrário, segundo os idealizadores, passou por um estudo de vários anos. “Trata-se do maior símbolo católico e cultural do país, e eu estou muito feliz por levar ao público uma história que mistura fé e entretenimento”, afirma a produtora. Nesse sentido, adeptos de diferentes religiões têm uma boa razão para prestigiar o longametragem; os católicos, pela devoção à “rainha do Brasil”, como eles próprios a chamam; e os crentes, pela questão cultural ou mera curiosidade. É o caso do assembleiano Alcir de Souza Siqueira, envolvido diretamente com a comunidade aparecidense. “Apesar de ser pastor evangélico, eu pretendo assistir ao filme; afinal, é importante ficar bem informado sobre as questões culturais relacionadas à comunidade”, conclui o religioso.



Fonte: Revista Eclésia - Edição 146



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José Donizetti Morbidelli
Enviado por José Donizetti Morbidelli em 24/01/2011
Reeditado em 12/03/2012
Código do texto: T2749051
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José Donizetti Morbidelli
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