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Quem é o cidadão de bem...

Uma Questão Moral

Moral é aquilo que me é útil. Definir e padronizar aquilo que é "bom" e ter a capacidade de fazer a separação daquilo que é "mau", não é uma tarefa fácil. Por isso mesmo, penso eu, arremessaram tal tarefa para os filósofos, que por sua vez, de forma maieutica, devolveram na para o "homem comum".
Em Nietzsche, Filósofo/filólogo alemão do século XIX, o conceito de "bom"e de "mau" origina se na antítese da Divisão de Classes, no entendimento de que o homem é por natureza um ser dominador. Em toda a História humana haverá dominador e dominado. Reside aí a origem da Genealogia da Moral, (...) Como filólogo que é, Nietzsche faz uma análise morfológico da palavra alemã schlecht (mau). Em seus estudos, ele descobre que esta palavra é idêntica à schlicht (simples). Daí, ele chega ao schlichtsweg (simplesmente) e schlechterding (absolutamente), o que traz, desde suas origens, a função de designar o homem simples, plebeu. Tudo isso para provar que as palavras nascem dentro das circunstâncias. Isso revela que a classe dominante acabou associando a classe plebéia ao conceito daquilo que é mau, o oposto, a antítese da classe nobre. Por isso, os homens que se sentem e são privilegiados (classe nobre) é quem espelham o conceito de ‘bom’. Bom seria aquilo que domina, que vence, o forte, o nobre...Mau seria exatamente o oposto; o perdedor, o fraco, o plebeu. Esta será a Moral do Nobre, mortalmente contrária a Moral do Rebanho que terá por base o Ressentimento.
longe de querer manter um debate sobre Nietzsche, ou mesmo, longe de ambicionar um diálogo sobre os conceitos de "bom" e "mau" , trabalhados pelo filósofo; tentarei transcrever em poucas letras aquilo que penso sobre o que pensa a sociedade brasileira em relação a ideia do "Cidadão de Bem". A questão, aqui, é que os valores embutidos na palavra "bem", variam de acordo com quem domina e quem é dominado.
É certo que, palavras como: bem, mal, bom, mau... são circunstanciais e relativizadas. É certo também, que nas sociedades onde a desigualdade economica/social se faz marcante, tais palavras ganham inúmeros outros contornos e múltiplos significados, que na maioria das vezes se fundem e/ou se confundem. Outra certeza que temos, é que A nossa "Genealogia da Moral" ou da moralidade brasileira, foi e é sem sombra de dúvidas, pensada e construída por uma Elite, pelos "senhores", proprietários da Grande Fazenda, donos de escravos, conversada nos salões da Casa Grande, legitimada pela Coroa e abençoada pela Igreja Católica. A moralidade dominante de uma época, pertence a classe dominante, foi e é forjada pela classe dominante. A nossa moralidade é judaica/cristã/ocidental ; ou seja, ela é histórica, politica e religiosamente excludente, privilegiando a poucos. Ao pensar na formação de uma Elite, que viesse administrar a política na colonia, pensou se nos "homens bons", com características da moral do dominador branco, europeu/português. Em primeiro plano, o “homem bom” deveria congregar toda uma espécie de distinção para que o mesmo não fosse acidentalmente confundido com uma figura comum da população local. Com isso, a possibilidade de assumir cargos políticos no espaço colonial não determinava o exercício de um direito amplamente compartilhado entre todas as pessoas. Ser um “homem bom”, discutindo leis, administrando a esfera pública e realizando importantes obras, transformava-se em um privilégio reservado a poucos. Neste caso, Homem Bom, significava ser bom para a continuidade do processo de colonização e exploração da época, que também envolvia a catequização dos nativos (da terra), bem como a disseminação da ideia de que tudo aquilo que destoasse desta tríade moralizante: judaísmo, cristianismo e ocidentalismo deveria ser entendido como algo malígno, mau, danoso para o bom
crescimento da "Nova Sociedade". Então, mau era a cultura do negro, do nativo, suas crenças, suas tradições, suas vestimentas, seus hábitos...e o representante da Coroa aliado ao representante de Deus, ambos "Homens Bons", deveriam lutar para que a moral dominante fosse a do colonizador e não do colonizado/escravo. A moral sendo usada como uma das estratégia de controle social.
Nas diversificadas repartições da colonia, havia este representante da moralidade do dominador. Uma moralidade que para alcançar o fim proposto, não abriria mão de nenhum meio possível, nem mesmo aquele mais sinistro. Permitia se tudo em nome da conquista.
O projeto de moralizar a sociedade através da noção daquilo que é "Bom", diga se, europeu e daquilo que é mau, referindo se ao dominado; foi amplamente transmitido de geração a geração.
A ressurreição da ideia do "homem bom" da época colonial, faz se presente em nossos dias, formulado na concepção que o senso comum traz consigo do "Cidadão de Bem". O Cidadão de Bem dos nossos dias, é herdeiro dos "Homens Bons" e de toda a sua carga moral. Aquela moral católica, branca, dos donos de fazenda, escravistas, que estupravam indigenas e negras. Que tinham o poder economico e consequentemente o poder político em suas mãos. Que praticavam o justiçamento dentro de suas propriedades, pois na maior parte dos casos, o poder da coroa esbarrava na porteira da sua fazenda. O cidadão de bem, os nossos "homens bons", são aqueles que aceitam e concordam com o estupro de mulheres que andam de roupas curtas pelas ruas. São favoráveis ao justiçamento dentro dos mercados, daqueles que miseravelmente furtam uma barra de chocolate. Apoiam a ideia de um único deus acima de tudo e de todos, sem espaços para outras formas de cultos e de fé. O cidadão de bem, os nossos "homens bons", elegem como seus representantes, aqueles que externalizam uma ideologia racista, carregada de preconceito, misógena, sexista, patriarcalista, bem peculiar da nossa era colonial. O cidadão de bem, os nosos "homens bons", quer ter o direito da posse e do porte de armas, para a defesa de sua propiedade assim como os homens bons faziam em épocas passadas.
Nada mudou. Aquilo que era "bom" la atrás para uma elite composta de fazendeiros, senhores, donos de escravos, continua a ser "mau" para os herdeiros da escravidão dos nossos dias. Para as mulheres, consideradas objetos e parte dos pertences do patriarca. O processo Continua bom para o cidadão de bem, branco, elitizado, morador da zona sul, pertencente a elite, responsável pela perpetuação de toda a exclusão e desigualdade social existente em nosso meio.

       Pense, Professor Moises.
ProfessorMoises
Enviado por ProfessorMoises em 25/11/2019
Código do texto: T6803356
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Sobre o autor
ProfessorMoises
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil
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