Rasgo Heróico duma Dama de Moçâmedes

Em 1869, a Fortaleza de S. Fernando, em Moçâmedes, servia de quartel a mais de 100 praças dum Batalhão. Eram, na maioria, criminosos que ali estavam a cumprir pena por delitos graves. Num dia de Novembro daquele ano, as praças revoltaram-se, com gritos a partir da caserna, contra o capitão (comandante).

A informação chegou ao Chefe do Conselho que dirigiu-se para Fortaleza, para falar com os manifestantes e pôr ordem. Conseguiu, mas instantes depois, um novo ruído vinha dos alojamentos que ficavam fora da Fortaleza. Dirigindo-se para lá, com a companhia do comandante do corpo e de alguns oficiais, depois de alguns passos retrocedeu para a caserna porque aquelas praças agitaram-se de novo, arrombaram a porta da caserna e da arrecadação do armamento. Com isso, armaram-se e começaram a berrar na parada e algumas empurraram o capitão para fora da Fortaleza.

O Chefe do Concelho, depois de ouvir um tiro (que não atingiu o capitão), correu até junto dos revoltados para impedir que fosse disparada outra arma. Felizmente, obedeceram, embora mantiveram atitude agressiva.

O Chefe, chateado com a atitude das praças, exigiu-lhes explicação. Por si e em nome do grupo, três falaram que:

- estavam oprimidos com serviços violentos e castigos rigorosos;

- roubavam-lhes o pão;

- e de tudo era culpado o capitão Miranda.

O Chefe prometeu atender-lhes e pediu que apresentassem em termos respeitosos e na secretaria militar, onde no dia seguinte os receberia. Depois o Chefe conversou muito com eles, dando conselhos. Eles aquietaram-se, parcialmente, e foram na caserna. Então, o chefe, receoso, foi para casa pelas duas horas da madrugada.

Na Fortaleza, na calada da noite, os indisciplinados saíram, secretamente, da caserna, foram abrir o paiol onde apossaram-se da pólvora.

Tomando conhecimento, o Chefe do Conselho compareceu de imediato e viu que os soldados estavam com as armas carregadas. Repreendeu-lhes e aconselhou-os a arrecadá-las, mas nem todos obedeceram.

Os sucedidos propagaram-se pela vila e subúrbios, e os moradores preocupados com um possível ataque a eles e seus haveres, pensavam em se preparar para a defesa. Mas, o Chefe do Concelho tranquilizou-os dizendo que a questão era militar e que nada iria lhes incomodar.

Infelizmente, o optimismo do Chefe caiu por terra, pois os soldados arranjaram pretexto, comunicando-se entre eles, que os agricultores com os seus servos estavam vir armados para os prender. Por isso, tomaram conta da artilharia e apontaram para a vila.

O Chefe, preocupado, voltou à Fortaleza, onde, dessa vez, impediram-lhe de entrar. A situação estava caótica, os insurgentes liderados por um atrevido e insolente soldado que ao chefe disse: que se julgavam independentes de praticar tudo que quisessem, não queriam oficiais nem reconheciam poder algum a não ser o seu, que era o poder da força; que estavam decididos a arrasar a vila, saquear os edifícios, com excepção da família e casa do Chefe do Concelho. E que aceitariam serem comandados pelo Chefe do Concelho, caso quisesse.

Por força maior das circunstâncias, o Chefe aceitou e no comando procurou chamá-los à boa razão e dissuadi-los de avançarem com seus torvos intentos. Infelizmente, não aceitaram, e disseram que em breve fariam correr rios de sangue.

A situação era melindrosa, que fez o Chefe retirar-se para tentar congregar a população e oporem-se contra os sediciosos. Infelizmente, muitos moradores, apercebendo-se que os rebeldes estavam com todo armamento, fugiram para as Hortas.

Estava iminente a destruição da vila, e o Chefe do Concelho julgando esgotado os meios para manter a ordem, desesperava-se.

Naquele aflitivo momento, a esposa do Chefe do Concelho, a Dona Maria do Carmo Lobo de Ãvila, decidiu arriscar para evitar a tremenda desgraça na vila. Assim, saiu resolutamente de sua casa para a Fortaleza, e, confiada, corajosa e varonil, apareceu de improviso aos revoltados. A gentileza senhoril do seu porte e o excesso prestígio das suas virtudes contiveram os rancorosos impulsos dos revoltados, que espantados com o imprevisto que lhes causou, e, confundidos pela severidade que ressumbrava do nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formando fileiras e apresentando-lhe armas.

A senhora Dona Maria do Carmo venceu-lhes pelo sentimento. Quer dizer, "mostrou-lhes, dominada por irreprimível eloquência, a hediondez do crime que iam cometer, e dirigiu-lhes, numa inflexão de voz tocantemente angustiosa, súplicas ardentes e afervoradas." Os revoltosos comoveram-se e arrependidos protestaram inteira obediência. Depois, o Chefe do Concelho, que estava ao lado da esposa, ordenou-lhes então, que se entregassem. Assim, a vila ficou salva, graças a palavra enternecedora duma dama fraca e delicada.

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(Referência Bibliográfica: Moçâmedes, 2º vol. 1974)

Att., Mwéene-Ndaka, ajudando a história a não se apagar.

Mwéene Ndaka
Enviado por Mwéene Ndaka em 22/03/2024
Reeditado em 23/03/2024
Código do texto: T8025473
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