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O Berço Anônimo


               Tenho ido diariamente até a Santa Casa de Misericórdia de Lavras mas foi só hoje, ao passar de carro, que o vi, de longe. Nem deu para observar bem, mas me pareceu uma incubadeira. Pensei: amanhã descobrirei o que é isso. Não foi preciso esperar o amanhã chegar. Um dos jornais de minha cidade tinha na capa uma chamada para um artigo: Berço Anônimo pode salvar vida de bebês em Lavras. Li o artigo, pesquisei na internet (onde descobri que o jornal também havia pesquisado) e estou aqui escrevendo o meu artigo.

               Em Roma, no século XIII, os pescadores lançavam suas redes no rio Tibre e além de peixes recolhiam bebês. Não um ou dois, mas inúmeros. O Papa Inocêncio III, incomodado com isso, ordenou que se estabelecesse um mecanismo onde crianças enjeitadas pudessem ser deixadas em vez de serem assassinadas. Foi assim que se criou a Roda dos Expostos ou dos Enjeitados. Introduzida no Brasil desde os tempos coloniais as Rodas funcioram em todo o país até a década de 40, do século passado, principalmente nas Santas Casas de Misericórdia. Eram feitas de madeira, um cilindro oco que girava em torno de seu próprio eixo, com uma porta voltada para a rua. Sem se identificar, a mãe, ou outra pessoa qualquer, deixava o bebê e girava a roda para que  a porta ficasse voltada para o interior do prédio e a criança pudesse ser recolhida. Foi se modernizando e nos últimos tempos instalou-se uma campaínha do lado de fora para que, quem estivesse do lado de dentro pudesse ir logo buscar o bebê. Acabou entrando em desuso e com isso bebês passaram a ser abandonados em qualquer lugar e até a serem assassinados. 

       Ainda não havia ouvido falar do Berço Anônimo e até pensei que fosse uma criação local, mas não é. Não só no Brasil, mas em várias outras partes do mundo ele está sendo colocado a disposição daquelas mães que não querem ou não podem criar seus filhos mas querem deixá-lo em um lugar seguro. Histórias tristes se multiplicam nas páginas de jornais: são bebês jogados em lagoas, valas de esgoto, enterrados em buracos de tatu, deixados em caixas de sapatos e até em baldes. São bebês que, mais que filhos de suas mães, são herdeiros da ignorância e da miséria que grassam em nosso país.

       No site da Academia Brasileira de Letras encontrei uma transcrição do jornal Folha de São Paulo, de fevereiro de 2006. Nela é narrada a história real de um médico não identificado, que provavelmente foi um dos últimos a serem colocados na roda dos expostos. Criado por uma família de classe média, tomou conhecimento de sua história através da mãe adotiva. É claro que ficou abalado. Fez terapia mas nada adiantou. Encontrou uma maneira muito peculiar para se curar: criou uma nova roda, mas não uma roda pequena e sim, uma bem grande onde ele cabe direitinho. E então criou um ritual, bastante estranho por sinal, mas perfeitamente compreensível: no dia de seu aniversário, todos os anos, a porta de sua mansão é aberta e alí é colocada a gigantesca roda. Ele entra, a roda gira , a campainha soa e a porta se abre novamente dentro de casa, onde sua família o recebe de braços abertos cantando o parabéns a você. 

       Li ainda em um dos links a história de outro médico, esse identificado. Só não descobri se são os mesmos por causa das datas citadas. A história é bem semelhante mas as datas não combinam. Esse médico é um dos principais defensores da criação de locais onde os bebês enjeitados possam ser deixados. Concordo com ele e com todas aquelas pessoas no mundo preocupadas com os bebês abandonados, não importando a razão. Que eles se multipliquem e que o exemplo de Lavras seja seguido: " Não
  joguem seu filho no lixo, traga-o para a nossa Santa Casa"   é  a placa afixada junto a estufa carinhosamente chamada de Berço Anônimo.
Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 22/06/2008
Código do texto: T1046866

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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Maria Olimpia Alves de Melo