Cué-Cué Marabitanas, o mais novo mito amazônico

Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

A ILUSÃO MESSIÂNICA

Mércio Pereira Gomes (*)

http://merciogomes.blogspot.com/2007/10/iluso-messinica.html

No post intitulado "Meu protesto indignado", de 23/09/2007, mencionei dois temas polêmicos sobre os quais diversos amigos e participantes deste Blog me pediram maiores esclarecimentos. Um deles foi sobre o que é o mameluco e qual o papel do novo mameluco na história atual do indigenismo brasileiro. Naquele mesmo dia, à noite, teci algumas considerações sobre esse assunto e o postei no Blog.

Hoje vou considerar a questão da ilusão messiânica como sendo um dos fatores utilizados pelo indigenismo de oportunidade prevalente no panorama indigenista brasileiro da atualidade.

Em poucas palavras, a ilusão messiânica é a pregação que diversas Ongs exercem sobre alguns povos indígenas para que eles sintam que sua condição de oprimidos na sociedade brasileira pode ser revertida e redimida pelo exercício de práticas messiânicas. Acontece não só por parte das Ongs de cunho religioso, como o CIMI, a OPAN e algumas missões evangélicas, mas também por Ongs laicas. É que a idéia messiânica, embora oriunda do sentimento religioso, se exerce com base em um discurso religioso ou para-religioso, mas por práticas políticas e com objetivos políticos. As justificativas religiosas encobrem os interesses políticos e dão legitimidade às ações políticas.

Um dos principais sentimentos para-religiosos é de que a vontade do querer está acima das possibilidades objetivas da realidade. Assim, o "é só você querer" é o mote utilizado para levar jovens líderes indígenas a arriscar sua posição social e partir para o enfrentamento. Outro mote é “Deus está conosco”, outro ainda é “somos injustiçados pelo mal”.

Movimentos messiânicos existem no mundo inteiro, das Ilhas do Pacífico, passando por África, Oriente Médio, Europa e Américas. O termo vem da palavra hebraica "messiah", que quer dizer "o ungido", isto é, o escolhido (de Deus) para ser o libertador do povo hebraico. Os hebreus realizaram movimentos messiânicos em diversos momentos de sua história. Por exemplo, quando estiveram cativos na Babilônia e no Egito e quando foram subjugados por Roma. Jesus Cristo foi visto inicialmente como o messias que os hebreus esperavam para livrá-los do jugo romano, mas depois viram que seu objetivo era outro, bem diferente e mais amplo.

Os movimentos messiânicos quase sempre ocorrem nos contextos de opressão política e discriminação cultural, de destituição de direitos humanos e de condições econômicas adversas, inclusive do aumento de desigualdade social e da queda de padrões de vida.

No Brasil, a situação de uma grande parte dos povos indígenas é condicionante a movimentos messiânicos. Muitos se encontram em terras diminutas onde mal dá para viver, como os Guarani e Kaingang; tantos são discriminados nas cidades, como os Bororo e Terena e muitos mais são ignorados e rejeitados como culturas e sociedades com direitos de cidadania e direitos específicos.

Os povos indígenas têm mitos religiosos e discursos políticos que lhes demonstram o quanto perderam de autonomia política e felicidade social. Os mitos descrevem as condições agradáveis (se não paradisíacas) em que antes viviam, em contraste com a atualidade, quando estão submetidos a condições de submissão e pobreza. Assim, a interpretação política da realidade é de que toda sua infelicidade advém da presença dos europeus e da formação do Brasil. Diversos povos indígenas realizaram movimentos messiânicos visando reverter sua situação infeliz.

Movimentos messiânicos, portanto, são reações politico-religiosas à opressão. Sua linguagem é religiosa ou semi-religiosa e seus métodos de obter o poder são radicais (A contra B, independentemente do contexto; A sempre justo e do bem, B sempre injusto e do mal). É certo que movimentos sociais surgem com essa visão, e só a partir de sua vivência com o mundo real é que ela vai se modificando e se tornando mais estratégica diante das adversidades encontradas.

Pois bem, messianismo é um movimento endógeno, nasce de dentro das tradições religiosas de um povo, em confronto com sua realidade injusta. Já a ilusão messiânica é a imposição do discurso messiânico de fora para dentro. Não nasce do povo ou grupo que deve exercer a força política. O discurso advém de considerações políticas formadas de fora e se impõe sobre a visão interna do povo.

Temos visto essa imposição claramente no caso dos índios Guarani de Mato Grosso do Sul. Ali, diversos grupos religiosos e para-religiosos impõem suas visões sobre comunidades Guarani que se sentem oprimidas e injustiçadas e os levam a tomar atitudes que, de antemão, todos sabem que implicam perigo de morte. Os impositores sabem dessa conseqüência, mas, movidos pela auto-ilusão messiânica, não procuram soluções que se baseiem em maiores possibilidades de realização e continuidade. Atiram ao destino o destino dos outros.

Nas décadas de 1980 e 1990 as retomadas dos velhos tekohá dos antepassados guarani foram realizadas por movimentos endôgenos dos próprios índios Guarani, que estavam constrangidos em 8 terras indígenas. Essas retomadas foram bem sucedidas porquanto a Funai conseguiu levar a termo a demarcação de cerca de 20 novas terras indígenas, sendo que restam ainda mais umas quatro ou cinco em processo de demarcação.

Por que a Funai conseguiu esse feito? Porque eram outros tempos, quando o valor da terra nua era bem menor do que atualmente e os fazendeiros aceitavam condições de ressarcimento que hoje não aceitam mais. Hoje a reação é forte em todas as instâncias, inclusive, ou melhor, sobretudo, no Judiciário, onde os relatórios antropológicos já não encontram aceitabilidade e deferência.

Buscar soluções para a questão guarani é de suma importância para o indigenismo moderno. A mudança nas legislações estaduais que permitam o ressarcimento dos fazendeiros ou colonos que vivem em terras declaradas indígenas vem sendo tentado em vários estados. Por sua vez, os próprios Guarani estão buscando meios de organizar suas economias, de educar seus filhos, de se capacitar para novos empregos, enfim, de se relacionar com o mundo ao seu redor sem perder suas características culturais. Os Guarani sabem como vivem no Brasil, nas condições possíveis, e sabem como vivem seus patrícios no Paraguai. Vivem no mundo politico e procuram seu caminho nesse emaranhado de visões e opiniões. É a partir desse ponto de vista que o diálogo com eles deve ser retomado.

A auto-ilusão messiânica é um vício intelectual e político próprio de militantes que só acreditam na violência para resolver os problemas sociais e culturais do mundo. Mesmo quando vêem os resultados negativos, continuam a teimar em usar métodos messiânicos. Não querem saber dos exemplos da história e das dinâmicas próprias das nações. Não querem avaliar o peso da força anti-indigenista presente na sociedade brasileira, especialmente em regiões agrícolas, e assim insistem que a questão é só de manter a vontade política por via da ilusão messiânica. Não têm visão estratégica nas suas ações, porque se fiam unicamente na intervenção messiânica, seja ela Deus, o Estado ou a força de vontade.

A ilusão messiânica também tem configurações laicas. Veja, por exemplo, a proposta do ISA de forçar a Funai a demarcar a Terra Indígena Cue Cue Marabitanas em tal dimensão que junte em uma única área as terras indígenas Yanomami (9,9 milhões de hectares) e Alto Rio Negro (10,5 milhões de hectares), as quais, junto com a demarcação de mais duas terras contíguas ao Sul, totalizariam cerca de 23 milhões de hectares e fechariam uma fronteira contínua de 2.500 km com a Venezuela e a Colômbia.

Para quê? Não seria para provocar os militares, os políticos regionais e a opinião pública brasileira (que vê essas ações com um misto de mistificação e desaprovação) e levantar uma celeuma desgastante para a causa indígena e para o governo brasileiro diante das pressões que iriam tentar angariar pelo mundo?

É evidente que o ISA não acha viável a formação de uma nação indígena em um território desse tamanho, e é provável que nem o deseje. Também não acredita que os 40.000 indivíduos indígenas, espalhados por esse território em diversas etnias e comunidades, poderão dar conta de organizar esse território em disjunção com o Estado brasileiro.

Assim, o objetivo do ISA é ilusionista e messiânico, no sentido de que eles se consideram capazes de cuidar desse território à revelia do Estado, obtendo recursos do exterior e internamente, como se estivessem governando um estado autônomo. Não é outro plano senão aquele que apresentaram no início do governo Lula. O ISA achava que até as Forças Armadas deveriam estar subordinadas a esse planto mirabolante. Hoje esse plano foi diluído e vem dissimulado na terminologia “território de cidadania”, tal como está apresentado no plano de ação da atual gestão da Funai. A ironia dessa dissimulação não pode passar desapercebida.

Por outro lado, a ilusão messiânica não é imposta em todos os povos indígenas. Estes são selecionados de acordo com suas carências, sujeições e abertura ao convencimento. Nunca, por exemplo, nenhuma Ong tentou impor essa visão aos Xavante, aos índios do alto Xingu, aos Kayapó ou aos Cintas-Largas e Waimiri-Atroari. Nem quando algumas comunidades indígenas mais precisavam de ajuda externa, essas Ongs vieram ao seu socorro. Por exemplo, na retomada da Terra Indígena Maraiwatsede, ninguém, a não ser a Funai, foi emprestar sua solidariedade e sua dedicação aos Xavante, mesmo que a questão fosse tão importante e tão comemorada a posteriori.

Os perigos da ilusão messiânica, tanto na vertente religiosa quanto na laica, são imensos. A ilusão messiânica acende uma luz vermelha no panorama indigenista brasileiro na medida em que seus métodos e sua realização claudicante incitam sentimentos anti-indigenistas que poderão levar a um grave retrocesso na tradição indigenista brasileira. Não é isto que está acontecendo no Congresso Nacional, com deputados e senadores fazendo todo tipo de proposta para acabar com as demarcações de terras indígenas, a dissolução da Funai, a estadualização da ação indigenista, a abertura das terras indígenas ao arrendamento e a mineração predatória?

A ilusão messiânica não tem escrúpulos, nem responsabilidade, nem ao menos caridade, por mais que tenha raízes no sentimento cristão. Ao buscar a salvação pelo martírio dos índios, vão pregá-los na cruz, sem redenção terrena. Será isto o quê os índios desejam?

(*) Antropólogo (Ph.D. University of Florida, EUA, 1977), Professor da Universidade Federal Fluminense, ex-Presidente da Funai, autor dos livros "Os Índios e o Brasil", "O Índio na História", "The Indians and Brazil", "Darcy Ribeiro", "A Vision from the South", e "Antropologia".