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Releitura com cheiro de tinta fresca

Com as cores da alma


Os melhores escritores que li na vida eram os que sabiam pintar com as palavras. Melhor: sabiam pintar e bordar com as palavras. Tinham na paleta mágica das palavras as cores da alma e o poder do encantamento da agulha – a nos cutucar e remendar por dentro.

Escritores de palavras... Passei por tantos... Escritores de imagens... Esses moram na minha alma, com seus quadros humanos sempre me cutucando no vai-e-vem do range rede, emoções e pensamentos. Como esquecer Ana Terra, Bibiana, Capitão Rodrigo, Clarissa, Vasco e o menino paralítico?

Impossível rebobinar a fita e apagar a voz profunda de Riobaldo - humanamente impossível. E... Nonada ecoa como o estampido de um tiro no sertão errante da minha alma. Mergulho no fundo do poço; escavo o barro com as unhas e mesmo assim a voz, as neblinas e uma saudade sem remédio de Diadorim... Riobaldo habita minha varanda lírica...

Atravesso insônias, visito cárceres, escrevo carta e a pintura em branco e preto de Vidas Secas desenhou dentro de mim uma paisagem retirante e esquálida, gracilianamente uma rachadura exposta... E vejo o homem, a mulher, o menino mais novo, o menino mais velho, a cachorra... Baleia! E um soldado amarelo. Memorável ter caminhado de pés descalços pela secura silenciosa da paisagem humana de Graciliano Ramos, também inesquecível (obras completas na minha estante)!

Às cinco da tarde, mesmo quando não penso, penso em Drummond. Desfio um colar de rezas, salmodrummondiando o anjo torto que mora comigo, na cidadezinha qualquer por onde vagueio e vou devagar... Com a obstinação das duas mãos e o sentimento do mundo... Toco seus seres? Não. Eles me tocam, como uma legião de anjos de mil faces, e me ensinam a conviver com a pedra no meio do caminho. E me comovo e me esqueço a contemplar e a sentir a mão que toca os meus ombros e ela não pesa mais que a mão de uma criança. E essa vontade de escrever, que me paralisa o trabalho, não vem de Itabira, mas tem tudo a ver com Drummond...

Abro a mão e salta uma estrela, depois uma rosa... Eis Bandeira pintando, pintando... Enquanto contemplo o que ele pintou, sinto o cheiro da tinta fresca de suas palavras me mandando ouvir um tango argentino... E me ensinando a amar Mário de Andrade, na pintura, com aqueles “docemente dos nanquins mais melancólicos”. Irremediável, vou recitando o que me possui a alma...

E pintam tão bem os bruxos! Machado e Baudelaire. Só para citar dois e nem visito as pessoas de Pessoa, um caso à parte, e os outros mágicos de além mar. E o quadro Capitu, oblíquo e dissimulado, como a fruta dentro da casca, me propondo enigmas. Cada vez que leio, um calafrio. E Bentinho saiu do teatro antes do fim de Otelo... Freud desconstruindo e Machado construindo, num tabuleiro de difícil xeque-mate. E ao vencedor, as batatas!

Baudelaire me chama à sua barraca, onde minuto antes entrara um pícaro. Prometia malabarismos de pequenos poemas em prosa e eu que já tinha passado pelas flores do mal... E pelas flores das flores do mal... Entro de mala e cuia. E me engano. E me encharco de umas tintas inimagináveis, só sentindo, sentindo. Eles me assaltam. Saio transmudada e nada será como antes. E ainda na borda da mesma lona vem a moça Isabel Câmara cantarolando: “Ninguém me ama/Ninguém me quer/Ninguém me chama/De Baudelaire”.

E os prazeres tortos das palavras sensíveis, nervo de dente de siso exposto ao gelo e ao vento na pintura movediça de Clarice. Ela entrou. Eles entraram. Deixei que se acomodassem no incômodo que me causaram. Depois tranquei a porta e engoli a chave. Vez em quando, sorrateiramente, rasgo o ventre, retiro a chave, abro a porta e convivo grávida de falas.

Pinturas hão passando dentro de mim, riachinhos espelhados, brilhantes seixos deslizam no cristal fininho de maio. E me toca tanto a pintura íntima e delicada da borboleta pousada Adélia Prado, o universo do seu quintal. Aquelas palavras de vizinhas saltando o muro, as memórias das pequenas epifanias, migalhas nobres do pão sagrado da poesia na mesa posta dos nossos dias. E salve Adélia, a formiguinha-lava-pé pintando essas dores de saudade da minha mãe. Pintando, plantando uns canteirinhos fecundos de poesia e aromas raros.

Os pesados portões do paraíso não escondem o que o ácido Caio Fernando tatuou na camada mais profunda da minha pele... Ouço uns blues, sigo anjos decaídos por labirínticos corredores e esconderijos. E o dragão me queima como uma carta nas mãos que eu desejasse muito ter escrito, que eu precisasse muito ter escrito, mas engoli as palavras certas e as palavras erradas. E ela me traduz num ponto enigmático que me escapa sempre entre o umbigo e a rua de dentro... E eu rezo para que seja doce, doce, doce, doce, doce, doce, doce, sete vezes, o mantra do dragão Caio F. Anjos de porre vagam pelas luzes da cidade que não iluminam e acedem a noite pintada nos meus corredores, que cheiram a éter e morte. Além do muro, Caio é um grafito na linha do meio que me divide em partes desiguais... Vou pra rua, vou pra vida... Vôo.

E tem Elisa, que ouvi cantar, que vi desnudar a poesia em gestos de atriz. Essa foi pintando e bordando em mim, do começo ao fim, jogando pro céu uma chuva prateada de palavras de tintas fortes... Amor, rotina, separação, saudade, legumes na geladeira, lua menina que menstrua ao léu das ruas, e a escrava-poesia muito mais nua sai para passear... E me leva junto na pincelada...

Ah, esses pintores e suas palavras-tintas mágicas! Tintas que têm as cores da alma. E a primeira pintura de palavras a gente nunca esquece. Assim, nunca esqueci Erico Verissimo (obras completas na estante para deleite meu!). Segui todos os quadros de Clarissa. Guardo como um tesouro (sem necessidade de releitura) a menina e sua cabeleira no balanço dos galhos do pessegueiro e o olhar de Amaro ainda me perturba dentro do quadro... O grito esganiçado, aquele passo em falso na escada, o papagaio, o segredo: Clarissaaa! E nunca deixei de seguir a menina: música ao longe, um lugar ao sol, imagens. Impossível esquecer o quadro: o minuano, Vasco na janela, o pátio, um cachorro seguindo uma fresta de sol. E o pintor que me seduziu assim com suas cores fundou continentes na minha alma ávida de povoamento. E vieram as cores de Ana Terra, Capitão Rodrigo, Bibiana...

Aí me vem um pensamento: se eu fosse escritor... Ah, se eu fosse escritor desejaria ser um pintor desses abusados. Dispensaria os pincéis, a química das tintas, o linho das telas, as estáticas molduras... Se eu fosse escritor cultivaria em mim o mais inventivo dos pintores. Ao invés de tintas, pintaria com palavras. Desejaria uma paleta com as cores da alma de Erico (e teria palavras-cores de ventania e de tempo), de Jorge (Palavras-cores de mar da Bahia, café, cacau, dendê, pimenta, cravo e canela), de Adélia (Palavras-cores de quintal, asas de borboleta, rezas salpicadas na cozinha), de Graciliano (Palavras-cores de terra seca, cacto, sol), de Guimarães (Palavras-cores de veredas, de sertão em toda parte, de travessia, de neblina, de buritizal, de olhos de Diadorim, de voz de Riobaldo, de demônio no oco do homem), de Bandeira (Palavras-cores de rosas e estrelas), de Drummond (Palavras-cores de mina e de Minas, sentimento do mundo, anjo torto e pedra, sempre pedra), de Machado e Baudelaire (Palavras-cores de tudo, de personagem, de cena, de olhar demolidor), de Clarice (Palavras-cores de avidez, de medo, de real moído, de prazeres que nunca terão nome); de Caio (Palavras-cores de ácido, de anjos tresloucados, de porres, de orgasmos, de duplos, de sentidos indistintos), de Elisa (Palavras-cores de incêndio, de palco, de luzes, de vida).

Ele chegou agora, do fundo mais fundo... De José Mauro de Vasconcelos não esqueceria jamais as palavras-tintas mágicas que me deram a chave do mundão de dentro, um coração de vidro multicolorido – que eu enchi de lágrimas preciosas; tintas que me arderam os olhos – e uma canoa encantada, de nome Rosinha... Até hoje ela me navega no fundo da pintura... Minha rosa, minha flor, minha nega, meu amor... Eu me confessaria frei abóbora. Ah, e tem Maria (José Dupré)... Éramos seis, retrato familiar, e até hoje a solidão de dona Lola me incomoda tanto... E na pintura: telhado cor de cinza solidão.

Se eu fosse... Se eu fosse... Queria muito um pouco de tudo isso, um pouco do segredo da magia de cada um deles, pouquinho mesmo que fosse. E faria do meu jeito palavras-cores só minhas e pintaria hoje um pintor com a febre do mundo, com a febre de Deus, mas que só tivesse palavras e páginas em branco... E a doce tortura das cores da alma.

Goiânia, 27-5-2007.
Cida Almeida
Enviado por Cida Almeida em 15/09/2008
Reeditado em 15/09/2008
Código do texto: T1179461

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Sobre a autora
Cida Almeida
Goiânia - Goiás - Brasil, 59 anos
3 textos (321 leituras)
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Cida Almeida