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É PRECISO CUIDAR DO ADUBO

Policarpo Sousandrade*
filhodapatria_@hotmail.com

Se o solo não for bem adubado, a semente pode até
germinar, mas a árvore sempre produzirá maus
 frutos – se chegar a produzir alguma coisa!


Como você reagiria se, ao invés de se dirigirem ao povo brasileiro sempre com esses chavões bajuladores “do tempo em que o diabo jogava peteca”, como: “brava gente”, “povo ordeiro, honesto e trabalhador”, “povo inteligente”, “povo decente”..., nossos tão conhecidos e tão demagogos – mais demagogos que conhecidos – candidatos a cargos eletivos o tratassem como: “corrupto”, “demagogo”, “hipócrita”, “alienado”, “oportunista”, “incoerente”, “desonesto” “picareta” e assim por diante? Você os aplaudiria da mesma forma ou lhes desejaria a morte?
Conta a narrativa bíblica (2 Samuel 12) que, ao repreender Davi por ter mandado assassinar um de seus comandantes de guerra para assumir a viúva, de quem já era amante, o profeta Natã contou-lhe uma parábola na qual propunha que o monarca determinasse a sentença de um suposto homem rico que roubara e matara a ovelha de um outro, pobre. Sem perceber que se tratava de sua própria pessoa, Davi foi peremptório: “(...) o homem que fez isso deve ser morto (...)”, disse o soberano. Qual não foi o desapontamento do rei quando o profeta obtemperou: “Tu és o homem”! – itálicos acrescidos.
Considerando a narrativa supra, eu lhe pergunto: o que você faria se tivesse poder para decidir o destino do principal responsável pela [des]governança brasileira? E que critério(s) você usaria para identificá-lo?  
Quando lemos o relato acima, ficamos aterrados não só com o reprovável crime do rei Davi, mas, principalmente, com sua profunda incoerência enquanto “juiz” de uma nação que se dizia representante de Deus na terra. E nós, enquanto eleitores, será que estamos sendo menos incoerentes que ele? Será que só os governantes são demônios e nós, anjos? Será que só eles são vilões e nós, apenas pobres e indefesas vítimas? Será que, de fato, desejamos governantes mais decentes ou será que bravateamos tanto apenas para que o barulho de nossos xingamentos abafe a voz de nossa sobrecarregada consciência?
Será que somos mesmo tão diferentes assim daqueles a quem autorizamos nos representar? Será que os candidatos conseguiriam comprar votos se não encontrasse quem os vendesse? Os contrabandistas conseguiriam vender produtos ‘pirateados’ se não encontrassem compradores? Os agentes do serviço público aceitariam propina se não houvesse quem as oferecesse? Ou será que, assim como os governantes – só que em proporção menor, é claro –, o restante do povo brasileiro – e isso inclui você e eu – também sempre dá o seu “jeitinho”?
Em outras palavras, como esperar bons governantes sem, antes, formarmos bons cidadãos? Como esperar bons governantes quando o solo de onde estes emergem é uma sociedade onde tudo se negocia? Uma sociedade onde o aluno vibra quando falta professor ou festeja quando não tem energia elétrica na hora da aula; o servidor público assina um contrato de seis horas de trabalho, mas só cumpre quatro; uma sociedade onde a referência de ídolo para o adolescente é o jogador que faz um ‘gol de mão’ e vibra como se tivesse salvado uma nação? Uma sociedade onde lograr os outros (furar a fila, colar na prova, apresentar atestado falso pra cobrir faltas no trabalho ou na escola, colocar o nome na equipe sem ter participado do trabalho, adulterar a idade pra se aposentar mais cedo ou pra adquirir permissões restritas na internet, vender imitação como fosse original, adulterar prazo de validade de mercadorias vencidas para não perdê-las, mudar o nome da empresa para escapar ao fisco, copiar o dvd ‘emprestado’ da locadora,...) é sinônimo de esperteza, chegar atrasado é cultura e queimar mendigos é “diversão” pra jovens da classe média?. Como esperar que de um solo com esse tipo de adubo possam germinar plantas que produzam frutos desejáveis?
É claro que eu não estou morrendo de felicidade com os governantes que temos, muito menos avocando para si o título de anjos imaculados. Apenas entendo que se somente demonizá-los sem refletir com seriedade e sem o verniz da demagogia – tão comum ao ser humano quanto o ato de respirar – sobre o nosso comportamento como povo e como indivíduo resolvesse a situação, o Brasil, há séculos, já seria a mais íntegra nação do mundo.
Resumo da ópera: os governantes de um sistema representativo – como o nosso – nada mais são que a imagem refletida daqueles os quais representam.



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*Curioso e livre pensador.

Policarpo Sousandrade
Enviado por Policarpo Sousandrade em 14/10/2008
Código do texto: T1228815


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Sobre o autor
Policarpo Sousandrade
Laranjal do Jari - Amapá - Brasil, 49 anos
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