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A volta dos que não foram OU "A política da descaracterização"

A volta dos que não foram OU "A política da descaracterização" Mar 30, '09 11:33 PM
for everyone

Torna-se cada vez mais comum no Brasil um fenômeno cultural que eu gostaria de nomear, se soubesse que nome dar - na falta deste, chamo de "política da descaracterização".

Funciona assim: em vez de agredir um inimigo (ou um ídolo, ou uma celebridade, ou um concorrente), DESCARACTERIZE-O. Se você é médico, por exemplo, fale mal do colega para (ex)pacientes, outros colegas, enfermeiros e profissionais da saúde em geral. Mas não se trata de um "falar mal" tradicional, e sim da tal "descaracterização". Explico: em vez de dizer que o cara é ruim, diga que ele "até que" é legal, mas, "coitado", teve uma formação deficitária, não sabe fazer isto ou aquilo (de preferência se não houver como alguém provar o contrário). Diga que ele se formou... na Bolívia, por exemplo, ou melhor: que se formou em Cuba e só clinica no Brasil porque é do PT!!! Diga que os professores que o formaram na Residência Médica o detestam, não o recomendariam para lugar algum, etc, etc. Como ninguém vai checar, em pouco tempo a fofoca "cola" no personagem, "vira" verdade.

É mais o menos o que a mídia havia feito com o Ronaldo Fenômeno: taxaram-no de gordo (o que era verdade, mas não irreversível), vagabundo (o que sua capacidade exemplar de recuperação atlética sempre provou ser mentira) e "baladeiro" (ou boêmio, coisa que a maioria de nossos craques é mesmo, como de quebra a metade esquerda da torcida do Flamengo, coisa que nunca impediu ninguém de jogar, como Romário não nos deixa esquecer). Enfim, mataram o cara antes da hora, enterraram-no vivo... e agora dizem "Ooooooh!" como se presenciassem um milagre. Humpf! Quanto tempo se passou desde aquele comercial que dizia "sou brasileiro e não desisto nunca"?

(Parênteses: engordar é que foi o pior para Ronaldo. Parece que se o cara cair de boca nas drogas, por exemplo, como o multiplatinado campeão das piscinas olímpicas, ele tem perdão - se duvidar até vira "vítima". Mas gordo não. "Só é gordo quem quer", quem não se cuida, quem não se ama. Um atleta engordar? Imperdoável! É. O gordo é mesmo o novo fumante, vítima das patrulhas do "politicamente correto"...)

E agora vem o Rubens Barrichello, que Deus o conserve assim. Morto e enterrado, mortíssimo, humilhado até pelos mancos dos brasileirinhos que a moçada da finada equipe Honda chamou para testar o... carro velho, do ano passado. Tudo bem, você vai dizer, o Rubinho é um mala, nunca ganhou nada... Epa! Peraí! O cara sempre foi campeão, em todas as categorias onde competiu exceto a F1. Na Ferrari, virou lenda sua capacidade de acerto do carro, não só o seu, mas o do Schummy também, que sempre dava uma "coladinha" no que o Rubinho havia feito com o seu carro. Antes e depois, então, o ostracismo de pequenas e péssimas equipes. Mas morto? Mortinho? Nããão. Não!

E que bom que veio a equipe Brawn, com toda a genialidade de seu mentor, que não é bobo nem nada e chamou o Barrichello pelas suas ca-rac-te-rís-ti-cas (dedicado, batalhador, bom acertador de carros, perfeccionista) e não por sua (má e indevida) fama de loser. O resultado está lá: um início de temporada merecidamente brilhante.

Certo estava o Ronaldo, quando desabafou no programa do Galvão Bueno, relembrando não só como lhe faltaram com o devido respeito nos últimos meses, mas como foram esquecidos (JÁ!) outros craques a quem o Brasil deve - no mínimo! - um agradecimento pela conquista da Copa de 2002: leia-se RIVALDO, que para muitos já "morreu" para o futebol, mas continua firme, lá no... qual é o time mesmo? - onde espera pacientemente que alguém se lembre do jogador que ele foi e o convide para uma despedidazinha pela seleção.

 

*   *   *

 

Victor Hugo dizia no poema célebre, já musicado pelo Frejat, que de vez em quando é salutar sentar-se em frente a todo o seu dinheiro e resolver quem manda em quem.

Termino meu (pobre) texto dizendo que de vez em quando é bom para a psique olhar-se no espelho, real ou virtual, e lembrar quem somos, afinal.

O juízo e o julgamento a respeito de quem somos não pode ser pautado tão somente no que "os outros" pensam de nós.

 

*   *   *

 

P.S. Meu retrato está lá, no Google, onde outro dia fui dar uma olhada narcísica em tudo que eu pudesse achar sobre mim mesmo. Há o médico, o escritor, o pai de família; meus textos na grande e na pequena imprensa, minhas participações em concursos públicos, em revistas e congressos médicos.

Aaquele que tenta me descaracterizar está lá também, como virtualmente todo o mundo, hoje em dia. Na primeira página de resultados do Google sobre tal pessoa, seu nome rima com processo.

Chamem-me de babaca, se quiserem, mas é muito bom saber quem eu sou, de vez em quando pelo menos, só para variar.
Tags: vida moderna, descaracterização, vida, futebol, automobilismo, barrichello, ronaldo, medicina
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Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 31/03/2009
Código do texto: T1515239

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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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Renato van Wilpe Bach