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O PROFESSOR DA BOLA

O PROFESSOR DA BOLA
William Pereira da Silva

A Educação Física é uma das disciplinas mais ricas numa escola, não desmerecendo as outras que tem seu valor intrínseco. Disciplinas como português, matemática, história, geografia, ciências... Tem uma diretriz preparada com livros prontos, os professores possuem conteúdos para cada série em que atuam, seguem um padrão já estabelecido por autores e editoras, os professores de Educação Física não tem este privilégio, tendo de pesquisar muito para conseguir os conteúdos. No nosso campo de atuação tem de conviver com várias realidades diferentes, cada escola, cada ambiente necessita de um planejamento especifico diferentemente das outras disciplinas, na qual seu conteúdo pode ser aplicado da mesma forma em realidades totalmente distintas. A  educação física precisa de espaço e material próprio para desenvolver suas atividades. Por ser amplo seus leques de atuação podem utilizar da arte, da dança, da música, dos exercícios físicos, da ginástica, das modalidades esportivas, da recreação, das artes marciais, do lazer, das competições, das academias... Enfim atuamos como nenhuma outra disciplina e é isto que a torna riquíssima em conteúdos e atividades.
Nas instituições em que a educação física é valorizada, há investimentos em recursos humanos e materiais, torna-se uma ação dinâmica onde se traduz numa comunidade que resplandece energia, força, vigor, vivacidade, as benesses são visíveis em todos os sentidos, primordialmente no referente à saúde, na qualidade de vida das pessoas  envolvidos no processo das atividades na educação física.
Em muitas escolas existe a predileção pela disciplina educação física trazendo uma dinamicidade onde os alunos têm participação efetiva demonstrando satisfação em estar inserido no contexto dos jogos, da recreação, dos movimentos corporais no seu amplo campo de ação. Noutras a educação física  passa a ser enfadonha, aborrecida, praticamente não há investimentos, esta disciplina passa ser insignificante diante da visão pequena e medíocre daqueles que não entendem seu real significado e valor para a educação global do desenvolvimento humano.
Nós, professores de educação física muitas vezes somos tachados de “professores da bola”, visto como aquele educador que pretende somente passar o tempo da aula sentado e vendo os alunos jogarem bola. Professores com este perfil existem em minoria, é reprovável? Sim. Entretanto numa análise mais apurada devemos entender o que faz um profissional dar aulas repetidas vezes somente colocando seus alunos para jogarem bola? Existem justificativas? Sim.
Considere esta realidade. As aulas de educação física são ministradas no horário normal das outras disciplinas. A escola não possui nenhum recurso material, nem ao menos uma bola, nada, nada. O pátio interno é amplo, porém o mato e a lama predominam em maior extensão restando apenas um pequeno campo de futebol com duas traves,  duas quadras ao ar livre, pequenas, sem nenhum padrão de medidas,  com seu piso todo comprometido com buracos e muito saliente. A aula deve ser dada na sala. O professor planeja conteúdos de relaxamento, alongamentos, recreação, jogos de salão, aplicação de textos. Imediatamente é rebatido pelos alunos que alegam em não querer estas atividades, reclamam que já passam a semana toda em sala de aula, sentados, recebendo conteúdos das outras disciplinas e não agüentam mais as salas, querem é sair e usar os espaços ao ar livre, movimentar-se, afirmam categoricamente que educação física tem de ser no campo ou na quadra. O professor leva-os para o campo, para a quadra, tenta ministrar aula de recreação, coloca-los em circulo, em fileiras, alguns obedecem à maioria não, mostram insatisfação nos procedimentos utilizados pelo professor, todos exclamam que querem mesmo é jogar bola. Os alunos em sua maioria são da periferia, alguns de favelas, revelaram nunca ter praticado aulas de educação física, são fora da faixa etária correspondente a sua série. O professor tenta dialogar, mostrar a importância de desenvolver outras atividades alem de jogar bola, os alunos ameaçam ir embora, demonstram revolta. Solução. Jogar bola. A pratica exigida por eles em todas as aulas é jogar bola e prevalece por todo um período. O professor planeja inserir outras modalidades como voleibol, handebol, queimado... Em parte é aceito e começa a mudar somente a pratica do jogo de futebol em dias alternados, mas a predominância é a bola. Raros são os alunos que fogem desta pratica e vai jogar xadrez, dama e buscam sempre outras novidades que o professor oferece.
Daí é que surgem os professores da bola, onde a situação vivida exige adaptar-se a realidade da comunidade escolar e somente com o tempo podem mudar a concepção da cultura do jogo de futebol enraizada na alma do brasileiro. Precisa de muita paciência, dedicação, planejamento, estratégias, força de vontade, cativar os alunos com amizade, pouco a pouco  induzir a pratica da cultura corporal onde todos vejam o corpo como um todo, onde tem de utilizar mãos, braços, pés, pernas, abdômen e “cabeça” não somente para cabecear a bola, mas também para pensar e ver a possibilidade de usar o espaço e tempo oferecido em sua totalidade com funções diversificadas.
PROFESSOR WILLIAM PEREIRA DA SILVA
Enviado por PROFESSOR WILLIAM PEREIRA DA SILVA em 26/05/2009
Código do texto: T1615441

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Sobre o autor
PROFESSOR WILLIAM PEREIRA DA SILVA
Mossoró - Rio Grande do Norte - Brasil, 61 anos
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2 e-livros (906 leituras)
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