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QUEM DEVE MORRER?

A Síndrome de São Pedro


      Machadinho é médico intensivista e responde pela gerência da unidade de UTI num hospital público. No momento ele está com um problemão. A unidade que ele comanda tem apenas oito leitos e todos estão ocupados, menos um. Ele recebeu a notícia de que três pacientes acabam de dar entrada no pronto socorro. Um é um senhorzinho de oitenta anos que está com um câncer terminal. Outro é uma gestante de alto risco que precisou ser operada de emergência e precisa de cuidados intensivos. Outro é um jovem que tomou todas numa festa e se arrebentou inteiro num acidente na estrada.
       Machadinho sabe que só pode atender um dos três. Não tem como improvisar leito na UTI. Isso é impossível em um hospital, embora muitas vezes alguns políticos pensem que é fácil e fiquem pressionando a direção do hospital para que atenda um dos seus eleitores.
       Machadinho terá que escolher. Ele sabe que os dois que forem preteridos correm sério risco de morrer, pois eles terão que ser removidos para outros hospitais e vaga de UTI no sistema SUS é tão difícil de achar quanto um político que cumpra suas promessas depois de eleito.
       A quem Machadinho contemplará? Quem ele escolherá para viver? Quem ele escolherá para morrer?
       Essa é a situação que eu chamo de Síndrome de São Pedro. Os médicos e os responsáveis pelos hospitais, no Sistema Público de Saúde, comumente convivem com esse dilema.
       Dramatizamos a questão com a alusão à UTI, mas isso pode ser estendido para todo o sistema em geral. Por exemplo: cirurgia eletiva quer dizer que existe uma ordem de prioridade para se fazer cirurgias. Isso significa que é preciso escolher quem está precisando mais e quem está precisando menos. Como você se sentiria, caro leitor, se alguém dissesse para você que o seu problema de saúde não é prioritário? Que você vai ter esperar, não se sabe quanto tempo, por uma cirurgia, por que existem outros pacientes mais necessitados que precisam ser atendidos primeiro?
        É cruel, não é? Mas infelizmente é assim. É possível dar saúde para todos, diz o sistema. Mas não é possível dar tudo. E também não é possível dizer quando esse pouco será dado.
        Enquanto isso, no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas, nas Câmaras Municipais e nos gabinetes dos administradores públicos.....
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 02/06/2009
Reeditado em 17/08/2009
Código do texto: T1628044
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Anatalino
Mogi das Cruzes - São Paulo - Brasil
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