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Notas sobre o nosso jardim.

O jardineiro fiel revelou o quanto podemos aprender através do sofrimento, das decepções e também do amor. A possibilidade de refletirmos sobre os caminhos da nossa sociedade a partir dos encontros e desencontros de pessoas usadas e descartadas pelo sistema.
Em outro momento histórico poderíamos, com muito mais facilidade, expressarmos nossa indignação diante do capitalismo e dos seus interesses. Hoje calamos frente a um discurso totalitário, uma só fala e uma só visão. As grandes corporações, o papel do Estado e dos diversos organismos internacionais protegidos pela aparência do desenvolvimento, do progresso, do humanitarismo...São grandes interesses, na realidade, que possuem uma lógica, que defendem seus privilégios e que se mantém no poder destruindo o mundo.
O filme também nos trouxe a sensação de vazio, o retrato de pessoas solitárias, a morte sem rosto, indivíduos usados como cobaias para o benefício de poucos, homens, mulheres eliminados por não servirem mais aos propósitos da grande indústria. Percebemos, por outro lado, que muitos buscaram, mesmo diante da total aridez e cupidez do nosso tempo, o questionamento e a crítica do modelo.
Qual o caminho para aqueles que buscam justiça? A violência, presente ao longo de toda a narrativa, nos deixa uma importante pista para respondermos a tal questionamento. Fica evidente que o legal e o ilegal estabelecem relações muito mais complexas do que aquelas que apreendemos como normais. Aliás, seria interessante também repensarmos nossas definições sobre tais esferas e sobre o papel que elas desempenham na ordem mundial.
Cito, então, alguns exemplos para nossa reflexão: 1- a relação da diplomacia da grande potência anglo-americana com os demais países e com as grandes corporações; 2- a atuação das agências internacionais, especialmente da ONU, diante das tragédias do continente africano; 3- o controle exercido pelo poder através das novas tecnologias da comunicação, afinal, somos rastreados e vigiados em cada movimento, e finalmente, 4-a beleza cultivado pelo jardineiro não é contrastante com a miséria das gigantescas favelas do Quênia, mas, o seu complemento.
Devemos, portanto, pensar sobre aquilo que estamos cultivando nos nossos jardins. A fidelidade envolve a consciência sobre nossas ações e sobre como compreendemos a nossa relação com a sociedade.
Após a exibição, percorrendo a nossa cidade, captei algumas imagens que me lembraram muito a África mostrada pelo filme. A nossa periferia é o nosso continente africano, não apenas na sua arquitetura semelhante, todos aqueles barracos, que parecem retirados de Nairóbi, mas, principalmente no sofrimento dos seus moradores, os mesmos olhares encontrados na fila do exame para a tuberculose, e na maneira como também são descartados. Preço para construirmos a nossa civilização diriam muitos da nossa elite que, de modo semelhante à elite africana, desfila tranquilamente com seus carros importados.

Matheus Marques Nunes
Texto para o grupo de estudos.
Marques Nunes
Enviado por Marques Nunes em 10/06/2009
Reeditado em 10/06/2009
Código do texto: T1641592

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Sobre o autor
Marques Nunes
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Marques Nunes