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ESCRAVIDÃO VELADA

ESCRAVIDÃO VELADA

 
    Angústia. Esta é a palavra que melhor define a sensação de boa parte dos trabalhadores brasileiros. Por um lado, felicidade pelo fato de possuírem emprego, por outro, a escravidão escondida. Vivemos hoje nas senzalas das empresas desumanizadas, comandadas pelo mesmo punho firme dos senhores de engenho, pela mesma chibata dos feitores pagos para executar as ordens. Um formato arcaico, mantido pelas mentes doentes de quem só deseja humilhar. Infelizmente o regime escravocrata de ontem se revela o mesmo de hoje, com outros moldes. Somos presos pelas algemas da necessidade de sobrevivência e acorrentados pela falta de oportunidade.
   Fazemos parte de uma sociedade escrava diferente daquela época que, pela história, conhecemos. Somos parte de uma história pior, que será contada de forma velada, sob o véu da mentira. Basta conversarmos com nossos colegas de trabalho para vermos o quanto desestimulados estão. Basta um pouco de conversa. Estamos cobertos por ações gestoras que acreditam fazer o melhor, mesmo que humilhando, usando de meios excusos para amedrontar e mostrar-nos os velhos chicotes, nos acorrentando o cérebro, a possibilidade de externarmos nosso pensamento crítico, acreditando que não somos dotados por tal.
   Precisamos lutar contra esta escravidão velada, que nos impele à tristeza, que nos faz muitas vezes desacreditar do nosso potencial criador e criativo, que nos desmoraliza, nos açoita e nos prende nas senzalas urbanas dos escritórios, dos departamentos administrativos, dos setores das organizações de todos os níveis.
   Porque será que nos permitimos fazer parte deste movimento imoral mantido em algumas organizações? será que somos tão incapazes assim? será que nossa formação acadêmica não nos permite ser críticos diante desta situação? o que mais nos acorrenta a esta vida escrava além de nós mesmos? sim, somos nós quem permitimos que este movimento se mantenha. Claro, se não fizermos um movimento inverso, se não nos mobilizarmos para modificar o sistema implantado, cobrando dignidade, respeito, e principalmente atenção por parte daqueles que nos formam, colocando-lhes a responsabilidade de saber como estamos sendo tratados por estas empresas, como estamos atuando, como estamos devolvendo para a sociedade o conhecimento adquirido em nossas Universidades. Tudo terá continuidade.
  O fantasma da demissão que nos ronda, o medo de perdermos os pequenos benefícios que muitas vezes servem para darmos uma melhor educação aos nossos filhos, ou até mesmo fazermos a compra do alimento para toda a família, são nada mais nada menos que as correntes de outrora. O que fazer diante desta situação de catástrofe profissional que vivemos hoje?  precisamos falar, gritar ,se for necessário, irmos às ruas de forma consciente para exigir a dignidade que tanto nos faz falta. Dignidade para sobreviver, para trabalhar, para morar, para comer. Precisamos ter dignidade para viver!
   Quem consegue ser feliz vivendo sob o regime da escravidão velada? para sermos felizes diante da atual condição de vida, faz-se necessária a luta. Deveríamos pintar o rosto e o corpo como os índios, aprender capoeira como os negros. A batalha já devia ter começado, estamos atrasados para a luta, estamos inertes diante do dragão.
   Feitores nos monitoram os passos, ligam para os médicos que nos atendem em emergências, se sentem tão poderosos a ponto de quererem adivinhar se onde moramos chove ou não, simplesmente para mostrar o quanto são mandatários neste novo formato escravocrata brasileiro. Abafaram as lideranças de ontem, muitos se venderam para o sistema em troca de uma chibata na mão. Sofremos, mas nos calamos, bem diferente dos nossos irmãos negros do passado, que, apesar dos açoites e barbaridades cometidas nas senzalas, souberam lutar por uma condição de vida diferenciada, souberam gritar quando podiam abrir a boca e souberam fugir para os quilombos, articulando o movimento de libertação e luta. Viver sem dignidade, até quando?.


SANDERLY CORREIA.
Sanderly Correia
Enviado por Sanderly Correia em 12/06/2009
Reeditado em 24/05/2010
Código do texto: T1644897

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Sobre a autora
Sanderly Correia
Recife - Pernambuco - Brasil, 46 anos
19 textos (3062 leituras)
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Sanderly Correia