WILSON SIMONAL - A POLÊMICA CONTINUA


O lançamento do documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei traz de volta à cena um dos maiores cantores já surgidos no Brasil. Além de grande cantor, um perfeito “show man”, daqueles que conseguem domínio total da plateia.

 

         Wilson Simonal nasceu em 1938 num bairro pobre do Rio de Janeiro e começou a cantar calipsos e rocks em inglês, no fim dos anos 50, para divertir os soldados do oitavo Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, onde serviu o exército.

 

         Acabou sendo descoberto pelo compositor Carlos Imperial, que o levou para o seu programa de TV, Os Brotos Comandam. O primeiro disco que gravou foi o compacto simples “Teresinha”, um chá-chá-chá de autoria do próprio Imperial. Chegou a cantar no templo da bossa nova, o Beco das Garrafas, em Copacabana, Rio de Janeiro, levado por Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli. Naquela época gravou um de seus melhores discos, “A Nova Dimensão do Samba”, de bossa nova, que nos traz, entre outras, “Lobo Bobo”, “Nanã” e “Inútil Paisagem”, esta com um arranjo que é uma verdadeira obra prima.

 

         A melhor fase de sua carreira ocorreu em 1966 e 1967, quando lançou uma série de sucessos como “País Tropical”, “Eu Fui no Tororó”, “Meu Limão, Meu Limoeiro”, “Os Escravos de Jó”, “Sá Marina”, “Vesti Azul”, “A Praça” e “Tributo a Martin Luther King”, esta, um hino de louvor à raça negra. Essas músicas deram origem a um estilo que ficou conhecido como “Pilantragem”. Juntou-se a três músicos excepcionais, César Camargo Mariano, Toninho Pinheiro e Sabá, os dois últimos remanescentes do sensacional Jongo Trio e que, na época, haviam formado o Som Três. Não há a menor dúvida de que grande parte de seu sucesso veio dessa união. Sua popularidade era tão grande que chegou a reger um coro de quinze mil vozes no show de encerramento do IV Festival Internacional da Canção (FIC), no Maracanãzinho, Rio de Janeiro.

 

Até o lançamento dos discos “Simonal” (1970) e “Jóia, Jóia” (1971), o cantor era respeitado pela mídia e adorado pelos brasileiros, quando um incidente mudou sua vida para sempre. Tudo aconteceu no ano de 1971, ao ser denunciado de que encomendara a agentes do Dops uma surra (seguida de tortura) em seu ex-contador, Rafael Viviani, que, segundo ele, o teria roubado. Denunciado, Simonal foi condenado a mais de cinco anos de prisão que cumpriu em liberdade. O agente do Dops, Mário Borges, um dos seus muitos amigos militares (e o torturador em questão), o acusou de ser informante e colaborador do órgão de repressão e tortura do governo. No mesmo ano, já se via o resultado de tal revelação, quando Simonal foi vaiado em um show no Teatro Opinião. O disco “Se Dependesse de Mim”, de 1972, foi ignorado pela mídia e pelo público. No meio artístico, Simonal foi esquecido. Chegou a ficar preso por 12 dias em 1974, acusado de extorsão. Nada foi provado, mas a esquerda tachou-o de dedo-duro e ele foi repudiado pelos companheiros de profissão, tendo seus discos quebrados pelos radialistas. A bola de neve foi aumentando à medida que os órgãos de imprensa, como “O Pasquim”, aceitaram tal informação e começaram uma caça às bruxas contra o artista, que perdeu prestígio, amigos e teve vários contratos cancelados. Ninguém mais queria saber dele, que passou a ser sinônimo de coisa ruim.

 

A segunda mulher do cantor chegou a levantar documentos confirmando a ausência de registros de que Simonal tivesse colaborado com a repressão. Nenhum artista reclamou de ter sido prejudicado politicamente por Simonal, mas ele carregou a acusação de delator para o resto de sua vida. Em 1991, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, emitiu um habeas data informando que não havia nenhuma documentação deixada pelo extinto e temível Serviço Nacional de Informações (SNI) que apontasse o cantor como um delator. Para Wilson Simonal de Castro sobraram apenas acanhadas apresentações em boates decadentes. Em 2003 a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) o reabilitou simbolicamente, após uma investigação do caso, a pedido da família, sobre a surra ao seu ex-contador. Um documento da Secretaria Nacional de Direitos Humanos revelou que não havia nenhuma prova contra Simonal. Mas já era tarde demais, pois o cantor morrera havia três anos. O desgosto o tinha levado à depressão e ao alcoolismo, vindo a falecer em 25 de junho de 2000, aos 62 anos. Apenas nos anos 90 voltou-se a falar de Wilson Simonal e em 1995 foi lançado seu 36° e último disco, o CD de inéditas “Brasil”.

 

         O documentário expõe, de forma definitiva e comovente, tanto a brilhante carreira do cantor quanto o seu calvário depois de ser considerado bate-pau da ditadura. A direção é de Cláudio Manoel (do grupo Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal. Muitos o acusam de apelativo em termos emocionais e o encaram como uma espécie de redenção ao cantor.

 

         Muito bem... Depois de tudo isso e do lançamento do filme, leio e também assisto a uma entrevista do respeitado compositor Paulo Vanzolini (autor, entre tantos sucessos, de “Ronda”, “Praça Clóvis” e “Volta por Cima”), publicada no site de “O Estado de S. Paulo”, onde ele confirma que Simonal se gabava de ser dedo-duro da ditadura. "Ele era o maior dedo duro mesmo. Não só era como se gabava de ser. Na frente de muitos amigos dizia 'eu entreguei muita gente boa'.” Vanzolini critica o documentário  "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei". "Essa recuperação que estão fazendo do Simonal é falsa. Ele era dedo-duro mesmo", completou.

 

         Acredito que toda essa polêmica a respeito de Wilson Simonal ainda venha a se estender por um longo tempo e é provável que nunca seja devidamente esclarecida. Talvez a sua condenação ou absolvição fiquem a critério de cada um de nós, principalmente para aqueles que, como eu, são capazes de saber no que a dureza daqueles tempos foi capaz de nos transformar.

 

 

 

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