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A ironia do mistério

            Completando-se os 100 anos da morte do grande nome do realismo brasileiro - Machado de Assis - como era de se esperar, muitas homenagens foram despendidas ao autor de obras detentoras de temáticas que transcendem o limite do tempo. Temáticas estas que nos fazem ler e reler os textos de Machado e, a cada leitura, encontrar um dado novo, um detalhe que ficou perdido durante uma  primeira leitura.
No entanto, neste artigo, quero me deter em um de seus contos mais conhecidos: A cartomante. O foco de minha análise será em uma das características mais marcantes da obra machadiana, a ironia; característica esta que permeia todo o conto, chamando atenção do leitor para fatos que, a princípio, passariam despercebidos.
O conto já tem início com uma famosa frase proferida por uma personagem shakespeariana, Hamlet: “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha nossa filosofia”. Esta intertextualidade com a obra de Shakespeare  divide-se em duas vertentes de análise: a primeira é a assimilação que o leitor faz, logo de início, entre  o título místico do conto e a conotação misteriosa da frase, isto é, fica-se com a impressão de que o conto vai pender para o lado místico, misterioso; em uma segunda interpretação, o próprio enredo de “Hamlet” (a estória do príncipe dinamarquês que se vê em conflito quando o espírito de seu pai lhe revela que seu próprio irmão, isto é, tio de Hamlet, lhe traiu, matando-o para conseguir seu lugar no trono da Dinamarca. A peça, como muitas outras do rol dramático de Shakespeare, termina em tragédia) adianta ao leitor o desfecho trágico da narrativa.  Todavia, tomando-se a vertente mística de análise da frase introdutória do conto, nota-se, já de início, a ironia machadiana. Vejamos de que forma tal afirmação se confirma.
Costuma-se dividir “A cartomante” em três partes: a introdução do conto seria, linearmente, o meio da narrativa, quando Rita e Camilo já têm um envolvimento amoroso e, a primeira, querendo saber por qual motivo seu amante cessou as visitas à sua casa, recorre à cartomante, e “vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança , e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez”. É também na parte introdutória que surge a intertextualidade com a obra shakespeariana, em palavras mal formuladas por Rita, que tentava explicar a Camilo o porquê de ter consultado a cartomante.
A segunda parte do conto é um flashback sobre como se formou o triângulo amoroso: “Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens.” A retomada da história entre as três personagens pode ser considerada irônica, pois, desde o momento em que o narrador inicia o flashback, ele nos dá indícios de como se deu o envolvimento amoroso entre Camilo (este amigo de Vilela) e Rita: o momento em que os dois são apresentados um ao outro – por ocasião da volta de Vilela da província – deixa claro que já havia entre os dois certa curiosidade em se conhecerem; curiosidade esta incutida pelo próprio Vilela, que sempre falava (bem) de Camilo para Rita e vice-versa: “- É o senhor? Exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.”, “Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa”. O toque irônico da afirmação “nenhuma explicação das origens” ainda se confirma a partir do momento em que morre a mãe de Camilo, ocasião decisiva para que o triângulo se formasse: “Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar horas ao lado dela, era sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela... Liam os mesmo livros, iam juntos a teatros e passeios...”. Ora, o próprio narrador nos informa, claramente, “como daí chegaram ao amor”. Entretanto o fato de o narrador ser onisciente intruso, segundo Ligia Chiappini: ...”consegue um certo distanciamento irônico que acaba chamando atenção para os implícitos da HISTÓRIA, suas intenções últimas.” (CHIAPPINI: 1991, p. 28). Ou seja, no caso de “A cartomante”, o narrador “finge” não conhecer a origem do envolvimento amoroso entre as duas personagens, mas, ao mesmo tempo em que exprime tal pensamento, chama atenção do leitor para o que está implícito, ou melhor, no caso deste conto, para o que está explícito pelas palavras dele mesmo, conforme afirmei logo acima.
No decorrer do conto, surge o conflito, no momento em que Camilo passa a receber cartas anônimas nas quais afirma-se que sua aventura com a mulher de seu amigo é conhecida de todos. Em virtude destes acontecimentos, Camilo deixa de ir à casa de Vilela em uma tentativa de reduzir as suspeitas sobre o romance. Porém a tentativa é vã, no dia seguinte o mesmo recebe um bilhete de Vilela: “Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Seu conflito aumenta com a idéia de estar descoberto pelo amigo: “Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo.”.
Um ponto importante de se notar é como as velhas crenças supersticiosas do personagem começam a renascer em sua mente devido ao medo que sente (sentimento este bastante típico da personagem realista, que, ao contrário do herói romântico, sente medo e tenta, a todo custo, impedir os conflitos sociais): “... e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas... A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velha crenças, as superstições antigas.” Esta é considerada a terceira, última e mais importante parte do conto: é neste
momento que se confirma a ironia presente na conotação mística da frase shakespeariana que introduz o conto.
Uma análise deste conto realizada por Salvatore D' Onofrio é bastante interessante, pois revela  ao leitor, passo a passo, de que maneira Machado de Assis impõem sua visão realista e,  por conseguinte, cientificista do fatos; de que maneira ele vai negar o suposto “dom” que se atribui às cartomantes, confirmando, também, a irônica idéia de mistério implícita na frase dita por Hamlet, à qual me referi no parágrafo anterior.
Camilo é dominado pelo ar de mistério desde o momento em que decide consultar a cartomante que, maliciosa e experiente, incute a ansiedade e excitação no cliente desde o momento em que ele aperta a campainha: “Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante.” O aspecto humilde e pobre da casa da cartomante também contribui consideravelmente, dando a impressão de que, de fato, a mulher possui o dom da premonição, que não é uma charlatã que engana seus clientes por dinheiro: “Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.”
Neste segundo momento, partamos para a análise das previsões feitas pela cartomante: Camilo senta-se diante da mulher, tendo o único foco de luz da sala refletido em seu rosto, fazendo com que suas expressões faciais dessem à  cartomante informações sobre seu estado de espírito: “- Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...”, “Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.” Este trecho  deixa claro que a expressão facial de Camilo permitiu à “sibila” fazer sua primeira previsão, que teve a confirmação “maravilhada” da personagem. Assimilando a informação dada pelo cliente, a cartomante faz a segunda previsão: de que  o rapaz quer saber se algo acontecerá a ele, e este não só confirma a previsão da cartomante, como ainda lhe fornece um dado novo sobre o caso, a existência de uma mulher: “- A mim e a ela, explicou vivamente ele.” Com esta informação, a vidente faz sua previsão para o futuro: “Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo.” Note-se que a cartomante não nomeia o “terceiro”, pois ela não tem como saber a quem exatamente Camilo teme (poderia, por exemplo, ser o marido de sua amante ou pai; em suma, qualquer pessoa que fosse contra o romance).
Como vimos, a cartomante faz previsões a Camilo a partir de informações – físicas ou verbais – fornecidas por ele mesmo, o que faz cair por terra a idéia de misticismo presente em “há mais cousas no céu e na Terra do que sonha nossa filosofia”. Além disso, o próprio desfecho trágico da narrativa nega a existência de mistério no conto, mostrando que a cartomante errou sua previsão futura sobre o amigo de Vilela: “Vilela não lhe respondeu; tinhas as feições descompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entretanto, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: - ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o  morto no chão.”
Concluindo esta análise, creio que a frase introdutória não é irônica somente por descobrirmos, ao final do conto, que não há mistério em torno do suposto dom da cartomante, mas também porque atribui a idéia de mistério a uma incógnita que paira ao término da leitura: De que maneira Vilela descobriu o romance entre sua mulher e seu melhor amigo? Ele de fato descobriu? O narrador de “A cartomante” tem onisciência seletiva, isto é, centra-se em apenas uma das personagens, no caso, o Camilo. Por isso não temos outras informações a não ser as que se referem aos pensamentos e conflitos deste personagem. Portanto, a grande ironia é a que o narrador faz ao deixar em nós, leitores, a dúvida sobre como Vilela descobriu a traição de seu amigo, se é que a descobriu.

Juliana Luna
Enviado por Juliana Luna em 15/11/2009
Reeditado em 29/01/2010
Código do texto: T1925639


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Sobre a autora
Juliana Luna
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
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