FESTA NO TERREIRO

FESTA NO TERREIRO

Uma linda manhã. Os pássaros trazem até nós, com seus solfejos, as belas canções que a natureza inspira a seus filhos prediletos. Os porcos grunhem no curral; as cabras balem no cercado e as vacas mugem na estrebaria. As aves fazem sua festa particular no terreiro; os pintos correm atrás das mães piando desesperadamente; algum galo mais afoito, trepado no moirão da cerca, espicha o pescoço e canta a cantiga que decorou na sua adolescência. Os perus com seu “glu, glu, glu” envaidecido, procuram impor respeito aos demais galináceos pelo tamanho avantajado, com graciosas coreografias, fazendo-se ainda maiores e mais importantes, estufando as penas.

Mas essa algazarra toda tem um nome só – fome. Todos os bichos, mal raia a aurora, pulam dos seus ninhos e poleiros e saem do seu respectivo confinamento para encher o papo e o bucho com os alimentos que lhes cabem por sorte e por direito. Depois de satisfeitos nem mais se lembram dos seus benfeitores. Viram-lhes as costas e cada qual vai atrás dos seus interesses. Alguns até trabalham e retribuem a atenção recebida. A galinha põe ovos; a vaca dá leite em troca do pasto e a cabrita amamenta seus cabritinhos. Mas, em sua grande e absoluta maioria, só se lembram dos seus benfeitores quando nova fome aperta ou se nova oportunidade se oferece para colher mais fácil o milho do que procurá-lo, tendo que para isso trabalhar (correr por toda a roça).

A seara dos políticos é mais ou menos comparável a um sítio do interior. Os bichos são eles; os milhos são os nossos votos. Mas esses bichos da cidade são mais malandros que os bucólicos animais do interior. Não só correm para catar cada grãozinho disponível, arranhando-se e se indispondo entre si para consegui-lo, como, ainda, compram milhos avulsos e escondidos entre os dejetos do terreno infecto dos seus respectivos “sítios” e, vezes há, inventam milhos para encher seu papo.

Ainda nem raiou a aurora de dois mil e dez e os bichos famintos já estão todos a postos para receber o seu quinhão. Bem como aqueles outros bichos de verdade, estes de ocasião viram as costas ao terreiro em que comeram e só voltam quando novamente estão com fome.

Afonso Martini
Enviado por Afonso Martini em 27/11/2009
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