DE ACADEMIAS E PUXA-SAQUISMO

Academia, neste país, parece ter virado balcão de gentilezas e de puxa-saquismo. É agência para fornecer diplomas e epítetos honorários e/ou honoríficos a quem, quase sempre, nunca sente pejo em recebê-los, ainda que sem merecê-los.

Veja-se o caso do Sr. José Sarney. Escreveu um livro, o “Norte das águas” e, porque com o pé no estribo da Presidência da República, entrou fácil e inteirinho para a confraria dos imortais de casaca da Academia Brasileira de Letras. Foi um doce no paladar de um escriba de província, sem preconceito com os meritórios provincianos, até porque também sou provinciano, e mais, sem livros nem notoriedade alguma. Pois, agora, encarapitado na corte, esse mandatário – literal mesmo, que manda –, lá com a “sua” altíssima sensibilidade política, vem de ser questionado se, de fato, teria lido todo o Machado de Assis. (Para ser útil à verdade, sobre o político e poeta/escritor José Sarney, hoje pensaria de modo diverso. Grandes homens, também, revisaram seus pontos de vista. Ele possui alentada obra, mas dele apenas li três livros: “Os donos do mar”, Saraminda e “Norte das águas”. Gostei muito do primeiro).

Agora foi a vez do Sr. Roberto Marinho, que não escrevinhou uma só produção de relevância, além dos limites de seus esparsos artigos do jornalismo. Não coseu obra alguma de expressão e, se o fez, publicando algo ruim, é porque é dono do maior truste nacional das nossas telecomunicações, a poderosíssima Rede Globo de Televisão, sem contar o gigantesco parque editorial, a cadeia de emissoras de rádio, discadora da Internet, canais fechado de tevê e a montanha de revistas e jornais, prontos para ‘rifar’ ou eleger até presidentes da república. Empresário bem-sucedido, quando muito, a merecer homenagens – sem gala ou pomposamente? –, a fim de não ir hibernar na várzea do total esquecimento. (Embora o senhor Marinho já não viva, na essência, conservo as considerações dadas como atuais. Quanto a eleger e expulsar presidentes, é popular a afirmação de que foi a TV Globo que elegeu e depois cassou o Collor de Melo).

RM aboletou-se na cadeira do contista / cronista Otto Lara Resende, o mineiro bom que partiu, vestindo o mesmo fardão de Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira e Jorge Amado. Vamos medir as pedras do jogo? Ah, mas as diferenças são astronômicas. Acredita-se, até, num certo desconforto deste último escritor, em viagem pelos longes da Europa. E por certo com a “viradinha no túmulo” dos dois magistrais poetas citados, em primeiro lugar. Entre outros titãs e revéis da ABL, já desencarnados deste vale de lágrimas, que também, lá do além-túmulo, devem demais sentir-se em desconforto.

As academias, quiçá sem exceção, inclusive e sobremaneira as academias estaduais, transformaram-se em bancas de fornecimento de títulos e salamaleques para aqueles que, eventualmente, estão agarrados às ancas e ao cabresto do poder, mormente o poder político. E a nossa academia de letras, a cearense, assim como a paulista, a capixaba, a potiguar, a catarinense, por exemplo, nenhuma entidade destas, no País, fica imune ao festival de titulações e/ou homenagens políticas e politiqueiras, inundando de lauréis as nossas vidinhas provincianas.

Com verborragia própria do excelente poeta e homem de letras Artur Eduardo Benevides, eis que a simplória Academia Cearense de Letras, na passagem dos festejos dos seus 92 anos de existência, a 10 de agosto (de 1993), irá sair-se com esta tirada colossal: tirar o chapéu para o governador do Estado, vassourando ao rés-do-chão da subserviência, e também homenagear certo secretário de estado, logo o da pasta da Fazenda. Entenda-se bem: lá de onde emana o “vil metal”. (Nem faço questão de citar os nomes do governador e do secretário laureados, ou bajulados; assim, estaria corroborando com a comenda da nossa provinciana academia).

Uai, como diz o mineiro... Macacos me engulam, se aceito bajulações gratuitas. E cadê os méritos, expressos em obras escritas e publicadas por aqueles dois senhores, governador e secretário? Longe se está de pretender minimizá-los, na cena da vida pública. Contudo, daqui a pouco, eles estarão lá, com fardão e tudo, ambos muito anchos e pimpões, como insignes acadêmicos, imortais como os senhores José Sarney e Roberto Marinho. Trata-se, pois, sem dúvida, de uma oferenda, como se óbolo de igreja; uma oferta, uma promoção ocasional, um “queima” político do nobre e venerando grêmio literário mais antigo do País, a nossa Academia Cearense de Letras. Para honra de todos os filhos deste Estado, ela é mais anosa que a própria Casa de Machado de Assis. Ou, então, “mudaria o Natal”, face aos novéis critérios seletivos das academias de todo o território nacional?

Não diremos o mesmo do Sr. Demócrito Rocha Dummar (leia-se: Grupo de Comunicação O POVO, jornal e afins), que, diferente de outrem, sem comparar-se ao mandarim da TV Globo, um cultor fervoroso dos valores alienígenas, aquele cearense ilustre (in memoriam, pois falecido em 2008) tem contribuído efetivamente para fazer-se um jornal sério, combativo e que pode ser nomeado / nominado como uma trincheira de lutas cívicas e democráticas, no Estado do Ceará.

Feitas as devidas exceções, mesmo entre quadros das elites, sinceros votos de pesar às academias de intelectuais, científicas ou de letras, as quais, por prática comum, embarcam na canoa furada do oportunismo e das inoperantes câmaras municipais de vereadores. Elas, academias e câmaras municipais, enaltecem e superestimam as “igrejinhas” de demagogos da politiquice tupiniquim e das confrarias empresariais. Em detrimento da cultura e da inteligência, ainda estamos a pagar para ver o poeta Mário Quintana, preterido na ABL, sentar-se no lugar a que realmente faz jus, no topo das miudezas literárias que transitam e tomam chá na Casa de Machado de Assis. (De fato, o gaúcho Mário Quinta morreu sem pôr o pé na ABL, como seu integrante, mercê da prática interna do puxa-saquismo, que o preteriu sempre um dos maiores e melhores poetas nacionais).

Julho de 1993.

Fort., 17/01/2010.

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(*) Sendo este artigo de data há muito passada (1993), inclusive havendo sido publicado no jornal O POVO, Fortaleza, caderno especial “Jornal do Leitor”, 17/10/1993, aqui e ali, no texto, faço algumas digressões explicativas, entre parênteses, a fim de pôr em dia a situação dos fatos e também para a compreensão do leitor. Leves revisões foram feitas ao original.

Gomes da Silveira
Enviado por Gomes da Silveira em 17/01/2010
Reeditado em 17/01/2010
Código do texto: T2035542
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