CRÍTICA

Considerando-se alguns equívocos e alguns clamores de pessoas que escrevem e sonham ser analisadas por críticos literários, produz-se este exercício de breve reflexão cujo objetivo é o de debruçar-se sobre a questão da crítica literária.

Em leituras para uma rápida fundamentação encontra-se que:

“Um dos primeiros tipos de crítica a surgir na imprensa foi a crítica literária, dedicada a analisar livros, romances, poemas e outras obras de Literatura. No século XIX, escritores como Victor Hugo, Émile Zola e Machado de Assis faziam crítica literária ao mesmo tempo em que publicavam seus próprios trabalhos”.

Informa-se, ainda, que na área jornalística, a crítica comenta determinado tema artístico-cultural com o objetivo de informar o leitor. Nesse momento adota-se uma pespectiva descritiva, mas que envolve também a avaliação:

“A crítica é feita pelo crítico, jornalista ou profissional especializado da área, que entra em contato com o produto a ser criticado e redige matérias ou artigos apresentando uma valoração do objeto analisado. Em geral, o crítico não pode apresentar uma avaliação puramente subjetiva, mas também deve apresentar descrição de aspectos objetivos que dêem sustentação a seus argumentos”.

Considere-se que a palavra crítica aflora aos ouvidos como uma sentença, um vocábulo amedrontador, pois muitos são os que fazem questão de interpretar de forma caolha as abrangências e significados do termo. Criticar é analisar, separar, julgar, indicar pontos negativos e também os positivos. Esses pontos negativos são os “erros”, inadequações, imperfeições, impropriedades, falhas. Não se trata absolutamente de uma questão de gosto. Aliás, um crítico é um juiz e deve lutar ferrenhamente pela neutralidade, objetividade, isenção, afastamento e justiça _ o que, diga-se, não é fácil de conseguir sem muito treino intelectual e espiritual.

Assim como o crítico, o artista precisa estar preparado para aceitar, debater, questionar, revisar, ponderar, julgar a crítica que recebe. Mais difícil ainda, pois obra é filho e ninguém em sã consciência aceita que sejam apontadas falhas em filhos. Isto não significa dizer que não se deva pensar friamente sobre o assunto.

“É esse sentido de nosso modo comum de ouvir a palavra que temos de afastar do primeiro plano da Crítica Literária. Pois não corresponde nem ao significado etimológico nem à origem histórica da palavra nem tampouco à vigência, isto é, à função e o modo de ser da Crítica Literária. Etimologicamente, crítica provém do verbo grego krinein, cujo primeiro sentido é "separar para distinguir" o que há de característico e constitutivo. Essa separação distintiva se exerce, remontando à ordem dos fundamentos constituintes e por isso elevando-se a uma ordem superior, à ordem originária. O primeiro sentido de crítica é tão pouco negativo que indica o mais positivo do positivo: a posição do que é decisivo e determinante de todo positivo. Só secundariamente, como conseqüência dessa posição constitutiva, é que a palavra Crítica inclui a recusa do não-determinante, do não-decisivo e não-constitutivo”.

A função de crítico literário envolve uma série de aspectos sócio-culturais. A sociedade e a cultura brasileiras, por sua vez, não aceitam com bons olhos a correção, o ajuste, o julgamento, a opinião de um estranho, mesmo que esse estranho esteja preparado para tal fim e dele se precise para a confirmação do valor e do pertencimento de um criador a alguma atividade. Há muitos melindres, entretanto pessoas esclarecidas não aceitariam adquirir um imóvel cuja construção não tenha sido aprovada pelo olhar crítico do engenheiro. E bem assim, inúmeros exemplos poderiam ilustrar esta exposição.

Todo cuidado é pouco para se elaborar uma crítica. Tome-se, para comparar, o caso do futebol onde as exigências de um país são duras, cruéis, sobre juízes de partidas, bandeirinhas, técnicos e jogadores. Sobre eles brilhará o sol do palavreado dos comentaristas esportivos, se forem bem sucedidos. E sobre eles recairá o furor de toda a imprensa em ocasiões de fracasso. Por que um povo exige tanto sobre esportes e não quer saber da crítica de arte ou da crítica literária?

Um crítico é um crítico e tem de se reconhecer o seu valor. E, para exercer a função, tem que ser tão ou melhor preparado do que o é a equipe de profissionais que lida com os esportes. Não pode qualquer um meter-se a analisar, julgar e opinar contrária ou favoravelmente às produções artísticas sem o competente respaldo. Elogios sem fundamentos não têm o mínimo valor. Apenas massageiam o ego.

“Porque não é inocente o seu olhar, o crítico literário, seja qual for o plano institucional em que se coloque (académico ou jornalístico) relaciona-se com a literatura, sobretudo com aquela que é sua contemporânea, através de um certo grau de cegueira, como bem observou Paul de Man (P. de Man, 1971), ou através de uma espécie de cegueira interessada que leva o crítico a unicamente ver aquilo que quer ou pode ver. No domínio da crítica literária, faz plenamente sentido a afirmação de M. Merlau-Ponty de que "só encontramos nos textos aquilo que colocamos neles" (1962: viii). Esta é uma realidade inexorável, embora de aceitação difícil quando somos (e nos sentimos) actores culturais coetâneos de uma qualquer prática crítica. No entanto, é ela que agencia a heterogeneidade litigante do conhecimento, e com ela o pulsar agonístico por que uma cultura nacional vive internamente cada um dos seus tempos próprios numa intensa conversação entre diferentes comunidades interpretativas, recorrendo ao conceito de Stanley Fish (S. Fish, 1980), isto é, entre diferentes crenças, diferentes interesses ideológicos, políticos, sociais, sexuais, estéticos; em suma, entre diferentes feixes de estratégias e de normas culturalmente institucionalizadas que coexistem numa relação reciprocamente definidora”.

Acrescente-se, pela extrema importância do que esclarece, mais um trecho:

Na instância autor/crítico, temos essencialmente três tipos: 1) aquele que esporadicamente sentiu a necessidade de fazer crítica literária e/ou pretensos exercícios de poética (Sophia de Mello Breyner Andresen, António Ramos Rosa, E. Melo e Castro, Vergílio Ferreira, etc.); 2) aquele que foi efectivamente crítico e/ou teórico e escritor (Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Alexandre Pinheiro Torres, etc.); 3) e aquele que nunca produziu crítica literária e não aceita geralmente intromissões críticas na sua obra sob pena de a desvirtuar (todos os que não encaixam em 1) e 2). Os que pertencem às duas primeiras espécies tendem a desconfiar da actividade dos críticos profissionais, que vêem como infractores da arte ou desmancha-prazeres da jouissance da leitura. Regra geral, defendem-se com a questão: ‘Não quis dizer nada do que o crítico disse que o meu texto dizia!”.

Continua o texto consultado (ver referências) adiantando que:

“Para o crítico intencionalista, esta questão é a razão de ser da sua filosofia, pelo que agradece ao autor que a repita sempre. Para o crítico não intencionalista, que é o que privilegiamos, tal questão é exterior à crítica, pois não mais o autor é autor de um texto que entregou ao público leitor. Jorge de Sena adverte em “Sistemas e correntes críticas”: “Nenhuma obra de arte tem que temer das análises que a desmontem e a desfibrem, ou que persigam, nas entrelinhas e nas elipses de um estilo, os mais ocultos sentidos. Se ela for realmente uma estrutura significativa, um objecto estético, uma criação (e não é necessário que o seja em nível genial!), as análises apenas porão em relevo, apenas tornarão visível e sensível e descritível e compreensível a complexidade que a crítica intuitiva se deleita em ‘sentir’ sem nos dizer objectivamente de que será que ela se constrói.” (Dialécticas Aplicadas da Literarura, pp.114-115).

É incauto pensar em fazer a crítica literária sem as devidas credenciais para tal finalidade. De toda sorte vale lembrar que a opinião do leitor comum é de muita importância para quem escreve. Afinal, diga-se que um verdadeiro douto em letras, cuja dignidade está acima de preços, não se subjuga facilmente aos ditames da modernidade ajustando ou modificando seu modo de pensar tão somente para ser aceito pela crítica.

“Para Romero, o crítico deve usar os métodos da ciência: indução e dedução, possuir um vasto conhecimento do fenômeno que analisa e ser capaz de julgar qual o lugar do escritor no reino das idéias, não deve corrigir como o fez a crítica pedagógica, mas lhe caberia selecionar o que é e o que não é digno de ser chamado de obra prima. O crítico observa o livro, considerado como um fenômeno intelectual, devendo inquirir sobre a vida do escritor, desde suas intenções às suas tendências mentais e, por fim, relacionar estes fatos ao desenvolvimento geral das idéias, ou seja, a crítica deve selecionar, julgar e distribuir hierarquicamente os papéis que cada escritor deve ocupar”.

Para arrematar estas ideias convém observar que existem cursos de mestrado em crítica literária. Espera-se dos doutores um significativo desempenho científico cujos compromissos sejam com a arte da palavra, considerando-lhe, inclusive, os matizes que a modernidade imprime às diversas obras. E que isto também seja feito de forma honesta e não preconceituosa ou baseada apenas no gosto e interesse daquele que critica.

REFERÊNCIAS

Crítica. Wikipedia, a enciclopédia livre.

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica >

SOARES, André von Held. Vil homem simples. Hora de crítica, 15 de novembro de 2008

<http://andrevhs.blogspot.com/2008/11/crise-e-sua-crtica.html >

MARTINS, Manuel Frias. Crítica literária.

<http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/C/critica_literaria.htm >

CEIA, Carlos. Crítico literário.

<http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/C/critico_literario.htm >

CARDOSO, Camila Chaves Cardoso. Os conceitos de literatura e crítica em dois textos de Sílvio Romero.

<http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/c00017.htm >

Mestrado em Literatura e Crítica Literária - São Paulo Capital - São Paulo

<http://www.educaedu-brasil.com/mestrado-em-literatura-e-critica-literaria-mestrado-6130.html >

OBSERVAÇÃO: TODOS OS ACESSOS FORAM FEITOS NA TARDE DE 15 DE FEVEREIRO DE 2007.

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, uma das mais brilhantes inteligências do país, é sergipano da cidade de Lagarto.

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AQUI TRANSCREVO O MESMO TEXTO SEM AS CITAÇÕES:

Considerando-se alguns equívocos e alguns clamores de pessoas que escrevem e sonham ser analisadas por críticos literários, produz-se este exercício de breve reflexão cujo objetivo é o de debruçar-se sobre a questão da crítica literária.

Informa-se, ainda, que na área jornalística, a crítica comenta determinado tema artístico-cultural com o objetivo de informar o leitor. Nesse momento adota-se uma pespectiva descritiva, mas que envolve também a avaliação.

Considere-se que a palavra crítica aflora aos ouvidos como uma sentença, um vocábulo amedrontador, pois muitos são os que fazem questão de interpretar de forma caolha as abrangências e significados do termo. Criticar é analisar, separar, julgar, indicar pontos negativos e também os positivos. Esses pontos negativos são os “erros”, inadequações, imperfeições, impropriedades, falhas. Não se trata absolutamente de uma questão de gosto. Aliás, um crítico é um juiz e deve lutar ferrenhamente pela neutralidade, objetividade, isenção, afastamento e justiça _ o que, diga-se, não é fácil de conseguir sem muito treino intelectual e espiritual.

Assim como o crítico, o artista precisa estar preparado para aceitar, debater, questionar, revisar, ponderar, julgar a crítica que recebe. Mais difícil ainda, pois obra é filho e ninguém em sã consciência aceita que sejam apontadas falhas em filhos. Isto não significa dizer que não se deva pensar friamente sobre o assunto.

A função de crítico literário envolve uma série de aspectos sócio-culturais. A sociedade e a cultura brasileiras, por sua vez, não aceitam com bons olhos a correção, o ajuste, o julgamento, a opinião de um estranho, mesmo que esse estranho esteja preparado para tal fim e dele se precise para a confirmação do valor e do pertencimento de um criador a alguma atividade. Há muitos melindres, entretanto pessoas esclarecidas não aceitariam adquirir um imóvel cuja construção não tenha sido aprovada pelo olhar crítico do engenheiro. E bem assim, inúmeros exemplos poderiam ilustrar esta exposição.

Todo cuidado é pouco para se elaborar uma crítica. Tome-se, para comparar, o caso do futebol onde as exigências de um país são duras, cruéis, sobre juízes de partidas, bandeirinhas, técnicos e jogadores. Sobre eles brilhará o sol do palavreado dos comentaristas esportivos, se forem bem sucedidos. E sobre eles recairá o furor de toda a imprensa em ocasiões de fracasso. Por que um povo exige tanto sobre esportes e não quer saber da crítica de arte ou da crítica literária?

Um crítico é um crítico e tem de se reconhecer o seu valor. E, para exercer a função, tem que ser tão ou melhor preparado do que o é a equipe de profissionais que lida com os esportes. Não pode qualquer um meter-se a analisar, julgar e opinar contrária ou favoravelmente às produções artísticas sem o competente respaldo. Elogios sem fundamentos não têm o mínimo valor. Apenas massageiam o ego.

É incauto pensar em fazer a crítica literária sem as devidas credenciais para tal finalidade. De toda sorte vale lembrar que a opinião do leitor comum é de muita importância para quem escreve. Afinal, diga-se que um verdadeiro douto em letras, cuja dignidade está acima de preços, não se subjuga facilmente aos ditames da modernidade ajustando ou modificando seu modo de pensar tão somente para ser aceito pela crítica.

Para arrematar estas ideias convém observar que existem cursos de mestrado em crítica literária. Espera-se dos doutores um significativo desempenho científico cujos compromissos sejam com a arte da palavra, considerando-lhe, inclusive, os matizes que a modernidade imprime às diversas obras. E que isto também seja feito de forma honesta e não preconceituosa ou baseada apenas no gosto e interesse daquele que critica.

REFERÊNCIAS

Crítica. Wikipedia, a enciclopédia livre.

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica >

SOARES, André von Held. Vil homem simples. Hora de crítica, 15 de novembro de 2008

<http://andrevhs.blogspot.com/2008/11/crise-e-sua-crtica.html >

MARTINS, Manuel Frias. Crítica literária.

<http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/C/critica_literaria.htm >

CEIA, Carlos. Crítico literário.

<http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/C/critico_literario.htm >

CARDOSO, Camila Chaves Cardoso. Os conceitos de literatura e crítica em dois textos de Sílvio Romero.

<http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/c00017.htm >

Mestrado em Literatura e Crítica Literária - São Paulo Capital - São Paulo

<http://www.educaedu-brasil.com/mestrado-em-literatura-e-critica-literaria-mestrado-6130.html >

OBSERVAÇÃO: TODOS OS ACESSOS FORAM FEITOS NA TARDE DE 15 DE FEVEREIRO DE 2007.

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, uma das mais brilhantes inteligências do país, é sergipano da cidade de Lagarto.