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IN HOC SIGNO VINCES !

«Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Fizeram, só por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.»

Luís de Camões, LUSÍADES, I - 14



Vem esta questão a propósito da publicação, hoje mesmo, de um artigo que, pelo seu realce e impacto muito deixa a desejar, nomeadamente quanto às intenções por ele veiculadas. É que, pela sua forma e conteúdo é tendencioso porque demonstra uma descarada oposição àqueles que estão dando testemunho de incentivo e de confiança aos filhos da nação que, longe da Pátria, estão procurando honrar e dignificar, por actos valorosos, esta mesma Pátria.
E esta manifestação, esta “febre da bandeira”, demonstrada por estes cidadãos, quanto a mim, tem sido espontânea e singela, quanto baste, e ninguém tem o direito de coarctar, através das formas mais humilhantes vistas nos últimos tempos, este direito que deve ser respeitado. Aliás estas manifestações de patriotismo têm acontecido nas mais diversas conjunturas ao longo da nossa história.
A nossa memória colectiva é que nem sempre nos garante esta base de cidadania a que alguém chama mesmo de alma. Mas, voltando ao nosso caso, para já nem sei como um jornal com a qualidade, a honorabilidade e autenticidade de que se faz apanágio, deixou publicar este mesmo artigo que, no seu todo é simplesmente ofensivo para com aquele público do qual tem emergido - está à vista de todos - em alta percentagem esta manifestação a que os articulistas chama de “bandeirite”. Como se se tratasse não de um sentimento mas, sim, de uma reles doença que há mister de limpar da opinião colectiva.
Não, meus amigos, estes desclassificados escribas - que concerteza até estão a receber honorários do dinheiro que lhes vem da dita escrita - deveriam conhecer um pouco mais da nossa própria cultura e das nossas tradições, antes de opinarem indiscriminadamente sobre o que quer que seja relativo ao povo português. Mas, vejamos por partes. Na dita revista Pública cuja capa, logo aí, demonstra uma ironia sem limites que levanta imediatamente a lebre do sectarismo e da incultura nefasta. Toda ela corporiza a bandeira portuguesa : “mais uma para o monte” , simplesmente desprezível. Que é como quem diz: tomem lá, querem mais ? E o que é pior o próprio legendado: ”AQUI TEM MAIS UMA BANDEIRA - É só uma moda? Medos e razões de uma bandeirite nacional”.
De medos não me parece que, após o vinte e cinco de Abril de 1974, sejam os problemas do nosso colectivo. Aqui até os signos dignificantes da nossa cultura ancestral tem ajudado a limar esses mesmos medos. É o caso dos cravos vermelhos e dos hinos patrióticos alusivos à liberdade - a que alguns pretendem também menosprezar esquecendo-se que eles constituem o mais genuíno património da alma nacional - e não só.
Pois, se não se trata de “medos” fiquemos, com mais justeza, nas «razões». Pois é aqui que reside o segredo deste fenómeno que, mais que folclorite, parafraseando os generosos da onça dos escribas, ou uma moda, é sim um autêntico sentimento e uma mentalidade assumida de solidariedade pátria. Trata-se de um projecto e de um sonho que pertence a todos e da sua consecução que, quer queiramos quer não, está apenas nas mãos de alguns.
E é , por isso mesmo, por solidariedade e apoio àqueles que lá na frente do combate dão a cara e o corpo a esse projecto e a esse sonho que se justifica a onda patriótica das bandeiras. Não naquele sentido que alguns lhe querem dar de exibicionismo e seguidismo ou , como os autores deste artigo, chamando-lhe ”bandeirite”, “nacional-futebolismo”, “fashion”, “pimbalhice” e outras graciosidades... Porventura, não será que estas pessoas pretendendo com a sua pseudo-resistência , à maneira dos “velhos do Restelo”, de outros tempos, querem significar que não deveríamos embarcar em projectos e/ou sonhos que dignifiquem e dêem sentido à nossa história? Ou será que elas mesmas, sim, é que têm medos de não serem capazes de ultrapassar os seus complexos humanos. Todos sabemos que estas ditas pessoas corajosas são as mesmas que têm vergonha de mostrar orgulho na sua bandeira, são as mesmas que têm vergonha de cantar em público o hino nacional, são as mesmas que se calhar têm medo de mostrarem a sua aliança de noivos ou de casados, são as mesmas que têm medo de publicamente confessarem que têm/ou não têm uma certa religião, são as mesmas que têm vergonha até de serem filhos deste pai ou desta mãe humildes, etc. Por estas e outras realidades sejamos mas é sinceros connosco mesmo e não sejamos daqueles que atentam arranjar explicações e argumentos para resolver as lacunas das suas próprias incapacidades.
Não fora a simbologia do ramo de oliveira benfazejo e Noé não sairia com sucesso da sua Arca. Não fora a simbólica marca nas portas do povo hebreu, do sangue do cordeiro vitimado, jamais os filhos de Moisés escapariam à ira do anjo exterminador. Não fora a maviosa música das harpas de David Salomão e Israel jamais veria a glória de Javé. Não fora o arranjo das palmeiras exóticas dos elefantes de Aníbal e jamais os Alpes seriam passados milagrosamente por Cartago. Não fora a ornamentação dos estandartes aquilares dos exércitos de César e jamais este atravessaria o Rubicão. Não fora a cruz desenhada em milhares de estandartes de Constantino - da qual sobressaía a inscrição IN HOC SIGNO VINCES - jamais este sairia vencedor da ira de Machêncio.
E por aí adiante. Sem pretender esgotar o tema com riquíssimos exemplos da nossa história, tarefa para outra incumbência, gostaria apenas de lembrar que o coração da nossa bandeira tem a sua origem nos estandartes do primeiro rei na Nação, sem os quais quem sabe teria sido inviável a vitória de Ourique.
Ou será que o «fenómeno bandeira» é apenas dos tempos que correm ? Ele foi revitalizado nestes últimos tempos como o será concerteza noutras conjunturas.
Para finalizar, com ou sem bandeiras, uma coisa é certa : se na retaguarda dos grandes desideratos nacionais morar o sentimento de união e de confiança naqueles que nos representam e por nós se batem tenhamos a certeza que até o difícil se tornará mais fácil.


Frassino Machado
FRASSINO MACHADO
Enviado por FRASSINO MACHADO em 01/12/2006
Código do texto: T306859
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Sobre o autor
FRASSINO MACHADO
Odivelas - Lisboa - Portugal
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