Fiel

Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Hebreus (10:23)

-- Posso guardar essa prancha para você, disse Ramon, um dos três donos do Restaurante Fiel, para o filho de um dos clientes.

-- Estava comendo um sanduíche de carne assada, quando Pepe, o outro sócio, com um sorriso, trazia da cozinha, um pernil, fresquinho, que permanecia em um local com visibilidade panorâmica, enquanto esfriava para ser colocado dentro do balcão de vidro, onde ficavam as guloseimas.

Tibúrcio, o garçom aproximava-se do quitute que estava sendo contemplado por cada freguês, que não agüentava de ansiedade, para receber um pequenino naco para aferição do sabor da iguaria, acabada de sair do forno.

- Pedacinho seu Gil? Perguntara simpática e habilmente o brejeiro Tibúrcio, um dos fundadores do Fiel.

-- Roinow, gerente de um grande banco, com um sorriso de orelha a orelha acabara de chegar e vendo-me disse: Gilberto, não vai comer o pernil do Ramon?

-- Ramon chegara dinamicamente da cozinha, simulando enorme pressa falou com Tibúrcio: Esqueceu de guardar o pernil?

Esse "misenscene", fazia o petisco ser totalmente vendido antes de ir para o balcão.

-- Esporângio, hoje não vai sair pescadinha? - perguntou um cliente ao outro garçom.

-- Gervásio você hoje "tá" meio estressado. Já olhou a travessa que tenho na minha mão? Não está cheia de peixe? Quer uma porção para levar ou para comer aqui?

Castelo tinha chegado da pescaria e entregara o molinete para Pepe guardar, enquanto vinha conversar com o pessoal, contando sobre seu viver "far-niente".

De oito da manhã até meia noite, com exceção dos dias primeiro de janeiro e vinte e cinco de dezembro, esse bar lota por completo. Aliás, lá no Flamengo, as calçadas foram alargadas e conseqüentemente, ocupadas por mesas, dobrando o número de freqüentadores.

-- Quanto é que eu devo -- perguntou Roinow, pegando o talão de cheques para pagar a conta do mês?

-- Boa noite Ramon - disse o Coronel, enquanto levava para pagar quando pudesse e quisesse, um frango super, bem feito, cheiroso!

No sábado dei uma passada no Fiel, vendo as mesmas pessoas, chegarem comerem e irem embora, sem acertar conta nenhuma, numa aterrorizante confiança.

Com tantos clientes, tentei verificar se aceitava cartão, tinha consulta a cheque ou aceitava cartão de débito. Nada disso. A caixa registradora até hoje funciona a manivela.

Eu já conhecia os sócio Ramon e Pepe. Dessa vez era o Paco quem estava. Perguntei a ele:

-- Como você faz para encher a casa?

-- Seu Gilberto, o Fiel, trabalha com cliente "Gold". Verifique que aqui tem escritores, jornalistas, funcionários públicos importantes, empresários e militares. Nós conhecemos as famílias de todos eles. Há uma confiança total entre nós e os clientes. Eles chegam comem, levam coisas para casa. A empregada ou alguém da família vem aqui pegar, refrigerante, salgadinho. Nós nos limitamos a servir com prazer mesmo todo esse pessoal. É gente muito boa. Anotamos e depois recebemos, sem nenhum problema.

-- Como você faz quando um cliente encontra divergência entre o que você está cobrando e o que ele acha que deve?

-- Geralmente estou enganado (risos). Peço desculpas, concordando em receber o valor que o cliente acha correto e ainda dou um brinde. Uma foca, depois de fazer uma gracinha, não tem direito a um peixinho?

-- Cano, nós tomamos em uma percentagem tão minúscula que não dá nem para sentir. É a seleção natural da espécie. Esse tipo de indivíduo, acaba sumindo para bem do povo e felicidade geral da nação.

-- Paco. O que mais você faz, para manter esses laços com os clientes?

-- Promete que não vai espalhar? Quatro coisas:

1 - A cada duas horas, é produzido um assado, que circula majestosamente pela copa do bar, chamando sempre a atenção do cliente. Tem dona de casa que até sabe quando vai sair a gostosura e vem comprar para enriquecer o almoço ou jantar;

2 - Não cobramos em nenhuma hipótese, aquilo que os clientes estão nos devendo. Preferimos arcar com este ônus, a perder o cliente. Nossa clientela como você viu, é bem seleta, só acontecendo algum imprevisto, quando alguém perde o emprego. Ai ocorre um atraso que logo é corrigido, voltando tudo ao normal;

3 - Cozinho para as esposas dos clientes. Elas pedem para cozer, leitão, cabrito, peixe, avestruz e o mais que você possa imaginar. Às vezes falam que só querem a metade. O excedente eu vendo. Basicamente é nossa única carne de pescoço. Mas eu pago um valor adicional ao cozinheiro para ele não se sentir explorado e se danar;

4 - Patrocinamos o futebol (pelada), todas as quartas-feiras, filmamos o jogo e exibimos na quinta, naquela tv grande que você está vendo;

5 - Temos uma "Promoção Secreta". "Tá" vendo este folder? Somente é mostrado aos clientes fiéis. Quem não é da casa, nem sabe da existência dele. Aqui informa por exemplo os prêmios por consumo mensal:

. R$ 200,00 um chaveiro ou fita com o último jogo gravado.

. R$ 300,00 duas entradas de cinema

. R$ 400,00 uma bola de futebol oficial

. R$ 500,00 desconto de 10%

-- Você não pretende se automatizar, conquistar novos clientes?

-- Bobagem automatizar. Tudo aqui é pendurado. Ainda por cima tenho que descontar cheque de vários clientes, enquanto não sai o pagamento deles. Os novos clientes são trazidos pelos antigos. Nossa maneira de trabalhar é do tempo de Colombo.

-- E porque não de Cabral.

-- Nós somos espanhóis. A principal característica de nosso povo é ser Fiel.

Gilberto Landim
Enviado por Gilberto Landim em 08/03/2007
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