LOCOMOTIVAS: O ADEUS DA ESTRELA
Artigo de:
Flávio Cavalcante
 
 
     É exatamente na abertura de um folhetim que o telespectador se identifica e enche os olhos para acompanhar cada capítulo apresentado. Existem aberturas tão marcantes que ficam registradas na memória, assim como algumas cenas e personagens. Locomotivas foi uma das novelas marcantes e teve na abertura essa magia que os telespectadores de outrora ainda lembra dos detalhes e com muita saudade.
 
     2016 foi marcado por grandes perdas na teledramaturgia. Estrelas que brilharam nas telas e a maioria fizeram parte da vida de um telespectador específico, que mesmo com o passar dos anos ainda guarda no peito momentos aprazíveis de toda uma geração que em outrora era um público jovem e hoje, telespectadores adultos que guarda apenas lembranças saudosas.
 
     O que mais dói no coração do telespectador é o desdém e a falta de respeito de não anunciar o falecimento de pessoas que fizeram história e estão na nossa memória.
 
     Quem dos saudosistas de plantão não lembra da abertura da novela Locomotivas? A modelo era Maria Mônica Saboya. No salão de cabeleireiros, a modelo era maquiada e penteada ao som da banda Maria Fumaça. Acredito particularmente que foi uma das aberturas mais marcantes da história da teledramaturgia, apesar da simplicidade e sem efeito especial. Era um presente estar diante da TV para ver cada capítulo apresentado do folhetim. No final da abertura na tela, Mônica Saboya levantava da cadeira e dava um soco na câmera com uma luva de boxe vermelha. A presença da modelo foi tão marcante na abertura, que a acabou fazendo uma participação especial como ela mesma no penúltimo capítulo da trama.
 
     Infelizmente tivemos a triste notícia do seu falecimento e a mídia consumidora dos tempos atuais como sempre mostrou de fato a ingratidão que a televisão representa para seus artistas. Assim como a atriz, muitos ficaram no esquecimento até por estarem há bastante tempo fora das telas, mas esquecem, porém, que foram importantes para levantar o ibope da emissora. Nem o respeito pelo telespectador foi levado em consideração.
 
     Para quem não sabe, de fato, Maria Mônica Saboya, foi uma locomotiva muito potente na abertura e puxou uma série de vagões de atores brilhantes que fizeram do horário da 19:00 um marco na teledramaturgia brasileira entre 01 de março à 12 de setembro de 1977.  Escrita por Cassinao Cabus Mendes e dirigida por Regis Carrdoso. O marco principal deste folhetim foram as cores na televisão pela primeira vez. Lembro-me perfeitamente dos meus pais tirando uma tela artificial de uma Tv Philco de 14 polegadas. A tela servia como uma premonição futura que a imagem ia ser em cores e isto para a época, na cabeça dos telespectadores era algo impossível de acontecer. Foi quando apareceu no mercado o último modelo de televisão semi-transistorizada e Locomotivas veio totalmente em cores fazer valer a profecia da tela e a alegria de quem não acreditava na possibilidade de assistir uma novela em cores reais. Claro que a imagem ainda não era com a qualidade de hoje, mas para a época, a reprodução das cores reais das personagens já era um avanço tecnológico incrivelmente avançado.
 
     O folhetim foi uma explosão de audiência. O autor escreveu inspirado nas vedetes famosas da época Virgínia LaneMara RúbiaNélia Paula e Carmem Verônica. O primeiro título pensado era “AS RAPOSAS” Logo em seguida, Locomotivas, que permaneceu. Na época se usava muito essas gírias “Raposas, Pantera. Tudo referente à mulher bonita, bem delineada de corpo, poderosa e sensual.
 
     O logotipo ficou por conta do genial Hans Donner que consistia no título Locomotivas escrito num quadril feminino, com o V da palavra na parte de baixo do biquíni - ousado até nos dias de hoje.
 
     Uma curiosidade na época, foi que a TV tupi apresentava no mesmo horário a novela “Éramos seis” e devido ao sucesso de Locomotivas, a emissora se curvou diante da realeza mudando o horário da programação e Éramos seis passou a ser apresentada no horário da 19:30 e o mais curioso, com um anúncio nos jornais. “Assim você não perde As locomotivas”. Tudo isso em 14 de agosto de 1977.
 
    No meu ponto de vista o lamentável é a mídia fazer questão de deixar ao léu uma nota do falecimento da talentosa modelo que tanto representou nas telas da época e fez história fixada na memória de muitos veteranos apaixonados de hoje pela teledramaturgia. Já é notório que a televisão é uma mãe sem coração e sem memória e isso prova numa hora como esta, com a perda de pessoas que foram importantes para toda uma geração e agora é esquecida num momento que deveria ser enaltecida numa bela homenagem.
 
ESTAMOS DE LUTO E ENVERGONHADOS
 
Flávio Cavalcante
 
Flavio Cavalcante
Enviado por Flavio Cavalcante em 30/08/2016
Código do texto: T5744348
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2016. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.