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No campo específico da Enfermagem, a ausência ou exigüidade quase absoluta de estudos epistemológicos sobre cuidado promove um mar de indefinições, a tal ponto que os escritos sobre cuidado não são unânimes sequer quanto ao uso de preposições, de verbos, de adjetivos e de substantivos na formação de expressões.

E, parece-me, um princípio intransponível de que se não sabemos o quê e do que falamos também não sabemos o quê fazemos, o quê sentimos, o quê queremos: a formação de pessoas, sociedades e estados, construtores de cidadania, é um ato de Hermenêutica e de Política, entendendo-se por Hermenêutica a ciência filosófica da linguagem da experiência humana e da experiência humana da linguagem e por Política a ciência e a arte de administrar, de gerenciar e de gerir sociedades, estados, governos e a si mesmo como criador da sociedade, de estados e de governos.

A linguagem da experiência humana e a experiência humana da linguagem referem-se à própria situação e condição humanas no mundo histórico pelas quais se constróem e se destróem ambientes, contextos e espaços por saberes e práticas de cuidado ou de não cuidado: a vivência e a tradução dessas vivências de cuidado ou de não cuidado na Enfermagem se disponibilizam ao monitoramento e à avaliação pela linguagem escrita em texto impresso diante da qual nos supomos diante das trajetórias e memórias dos profissionais e pesquisadores do cuidado. Daí, a importância do texto escrito e escrito adequadamente.

No sentido de adequada objetivação da experiência vivida com os recursos lingüísticos nacionais, vale destacar o estudo pioneiro de Simões[1] analisando o uso e a semântica de alguns vocábulos empregados pela enfermagem. Extensivas aos dias atuais, diante das distorções no ensino e na prática de enfermagem, a autora conclui pela:

 -inexistência de homogeneidade lingüística entre os profissionais de enfermagem;

-inexatidão no emprego de palavras quanto à significação dada ou desejada;

-imprecisão no uso e na significação de locuções ou expressões numa oração;

-não uniformidade de certas palavras ou expressões usadas ao longo de um texto aonde se apresenta um assunto;

-emprego excessivo de termos diferentes com significação igual;

-impropriedade no uso de palavras, ocorrendo em alguns casos a arbitrária alteração semântica das mesmas;

-inadequações na escolha e na colocação de palavras para formação de locuções e expressões;

-uso indevido de preposições, em particular as preposições do, de, em, alterando a significação das expressões ou locuções;

-há substituição indébita de palavras e de conceitos, atribuindo-lhes outras significações;

-utilização de palavras ou expressões fora de contextos dos estudos e, portanto, não significativas;

-há consagração de palavras com significação imprópria.

Por causa das impropriedades, inadequações, erros, heterogeneidade e imprecisão da linguagem usada na enfermagem, além de não existir linguagem de enfermagem constituída, o ideal para uma Educação de Enfermagem Centrada no Cuidado é um projeto natimorto por ausência de linguagem de cuidado: não constitui linguagem de enfermagem os existentes glossários ou dicionários de enfermagem que registram linguagem de termos técnicos hospitalares, das ciências médicas ou de quaisquer outras ciências histórico-humano-sociais; a linguagem empírica de cuidado promove a amplificação dos testemunhos e discursos ontológicos, filosóficos, éticos, morais mas não promove o planejamento, o monitoramento, a avaliação dos saberes e das práticas de cuidado e de não cuidado, historicamente deflagrados por sustentáveis ou equivocados programas, atividades e projetos dos sistemas de organização externa da sociedade (entre os quais estão o Estado e suas Políticas Públicas) ou dos sistemas de organização interna da sociedade e a partir dos quais se criou o conceito de sociedade civil organizada.

Recorrentemente falamos em mundo justo, solidário e ético ou mundo de cuidado, promovendo injustiças, exclusões e imoralidades ou mundo de não cuidado: obviamente, a epistemologia do cuidado não resolverá os problemas humanos no mundo histórico, mas serve de instrumento diagnóstico, definidor de ações, de prioridades e de estratégias de cuidado diante das estudáveis e recorrentes estratégias de não cuidado, montadas e mantidas por estados, governos e sociedades de não cuidado. Portanto, a epistemologia do cuidado é conhecimento estratégico.

A inexistência de linguagem de enfermagem constituída e a existência de assistemática linguagem de cuidado, apesar de todo o mar empírico das suas práticas e de suas pesquisas, mantém a enfermagem moderna restrita ao uso e a reconceituação das teorias, dos conceitos, das práticas de outras áreas de saber, além de manter a adoção das terminologias flutuantes dos governos que, por sua vez, se utilizam das concepções teóricas dos grupos de pesquisadores próximos a poderes de Estado comprometidos com o não cuidado.

Pelos estudos sobre cuidar, cuidado e processo de cuidado formou-se uma dissensual tradição de pensamento sobre Ciência do Cuidado, advinda da tradição nightingaleana sobre a significação da palavra nursing, com a qual se designa uma ciência e arte fundada por Florence Nightingale: num pensamento socio-histórico evolutivo acredita-se que Enfermagem, tradicionalmente uma Ciência da Assistência, desenvolve-se para ser uma Ciência do Cuidado; num pensamento histórico-historista  parto do princípio de que Ciência do Cuidado é a ciência filosófica da arte de cuidado ou ciência do sistema filosófico nursing e campo epistêmico a ser sistematizado, autônomo e fundamentador da disciplina Enfermagem. [2]

A palavra e a significação nursing ainda é no século XXI tão desconhecida quão o era para Nightingale no século XIX, sobretudo porque cada um empresta a ela significações adequadas ou inadequadas de acordo com o contexto vivencial em que a mesma é utilizada: o erro dessa anarquia conceitual é não perceber que, a partir da riqueza contextual das vivências, é função do cientista do conhecimento dar-lhe sistematicidade e uniformidade, pelo menos como ponto de partida e de referência para uma mínima identidade. Fora disso, estamos girando no emaranhado tecido da doxa, da opinião, do palpite.

Minha perspectiva é de avançar na significação de nursing para estruturação da Ciência do Cuidado, sobretudo porque Nightingale[3] já declarara a impropriedade da palavra nursing para expressar o seu pensamento, utilizando-a naquele momento por falta de outra palavra melhor; por esta declaração de impropriedade, o substantivo nursing, utilizado por Florence, tem para mim a significação de Ciência do Cuidado, refere-se, em sentido estrito, ao pensamento nightingaleano como Sistema Filosófico Nursing ou Sistema Filosófico de Cuidado; em sentido geral, é a ciência da Arte de Cuidado.

A Enfermagem Brasileira está alheia à tradição da Escola de Enfermagem Ana Néri com o triângulo CIÊNCIA, ARTE e IDEAL - aliás, uma referência à genialidade missionária de Florence Nightingale e o seu ideal ecossanitário: se continuarmos alheios à revolução ecossanitária produzida por Florence Nightingale, além de destruirmos o ideal nursing, continuaremos incompetentes para criar a ciência nursing e permaneceremos reduzidos a técnicos ou tecnólogos da doença pela absoluta incompreensão do que seja a arte nursing.


[1] SIMÕES, Cleamaria. Considerações sobre o uso e a semântica de algumas palavras empregadas nos textos da REBEn no período de 1974-1978. Rev Bras Enferm, Brasília (DF) 1980 jul-set;33(3):305-309.

[2] FERNANDES, Carlos Roberto. A Enfermagem superando a Enfermagem. In: 57o. Congresso Brasileiro de Enfermagem, 2005, Goiania. Anais do 57o. Congresso Brasileiro de Enfermagem. Brasilia : ABEn-Nacional, 2005; [CD-ROM]

[3] NIGHTINGALE, Florence. Notas sobre a enfermagem: o que é e o que não é. São Paulo: Cortez. 1989.

Carlos Fernandes
Enviado por Carlos Fernandes em 27/08/2007
Código do texto: T626366
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Carlos Fernandes
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