A AMIZADE COMO UTILIDADE NA OBRA ÉTICA A NICÔMACO DE ARISTÓTELES

Pedro Francisco Xavier Neto

RESUMO

O presente artigo tem como propósito investigar e apresentar a amizade utilitarista segundo Aristóteles na obra Ética a Nicômaco. O estagirita divide a amizade em três tipos, a saber: amizade que visa o prazer, a amizade perfeita ou virtuosa e a amizade que visa a utilidade. Propõe-se nesse trabalho discorrer sobre este último tipo, cuja base é o interesse. Inicia-se com alguns trações biográficos do filósofo, contendo dados que são importantes para entender seu pensamento, e um breve relato sobre a sua obra e como esta se divide. Logo em seguida faz-se uma breve apresentação geral a obra pesquisada, com seus livros e assuntos. Antes de adentrar na amizade que visa utilidade, é exposto como Aristóteles concebe amizade, abordada no livro VIII e IX, da obra, respectivamente. Finalmente, discorre-se sobre o que é a amizade que busca a utilidade. E por fim, algumas considerações sobre o tipo de amizade oposto, ou seja, a amizade virtuosa.

Palavras-chave: Aristóteles. Amizade. Utilidade

INTRODUÇÃO

O tema da amizade é algo que se debate desde os tempos da Grécia Antiga por pensadores, como é o caso de Aristóteles. O homem não consegue ser feliz sozinho, mas sim na vida da polis, na vida em comunidade. Sendo assim, ter amigos é uma virtude fundamental para viver bem e, por conseguinte, um tema que não poderia deixar de ser abordado pelo estagirita.

Dessa forma, o presente artigo está organizado em três partes. Incialmente faz-se uma abordagem histórico-biográfica de Aristóteles, mostrando um pouco do contexto que ele nasceu e viveu e que influenciaram na construção do seu pensamento. Na segunda parte, a Ética a Nicômaco é apresentada de uma maneira geral, para situar o leitor no contexto de toda a obra.

Por fim, a última parte, refere-se ao tema em si e está subdividida em três. Na primeira é explanado o conceito de amizade para Aristóteles, bem como o motivo pelo qual supostamente, escreveu sobre o assunto. Na segunda, parte aborda- se um dos três tipos de amizade, a que visa utilidade, onde os amigos não se amam por si mesmos, mas em vista de um bem ou honra que poderá ter. Ela é comum em desiguais, superiores ou inferiores. Logo em seguida, no último sub tópico, após ter sido apresentada a amizade utilitarista, de forma breve, mostra-se o tipo oposto, a amizade perfeita ou virtuosa, para que dessa forma perceba-se qual seria o ideal de amizade.

1 ARISTÓTELES: VIDA E OBRA

Aristóteles nasceu no ano de 384/383 a.C., em Estagira, cidade-colônia de origem jônica embutida no reino da Macedônia, situada na península trácia de Calcídia. Mesmo estando distante de Atenas, essa cidade era na verdade grega, pois a língua oficial era o grego. Vinha de uma família tradicionalmente ligada à medicina. Sendo seu pai, Nicômaco, médico do rei Amintas e por viver nesse ambiente da ciência médica, foi conduzido naturalmente para a observação prática da natureza (physis) antes de se dedicar à ética, à retórica e à metafísica.

Mondin (1981), divide a vida de Aristóteles em três fases. A saber: discípulo de Platão, preceptor de soberanos e por fim, fundador da escola peripatética.

No ano de 366 a.C, Atenas era o grande centro artístico e intelectual da Grécia. Lá, havia duas instituições educativas: a de Isócrates e a de Platão. Ambas visavam à preparação dos jovens para serem bons cidadãos e prosperarem na vida pública. A primeira, que tinha traços dos pensamentos sofistas, tratava de ensinar como lidar com os assuntos da cidade através da indução e manipulação oral. A academia de Platão, por sua vez, ensinava que o fundamento de qualquer ação era a investigação científica matemática. Diante dessas opções, ele escolheu a última e foi acolhido como discípulo por Platão e posteriormente começou a lecionar. Permaneceu com ele 20 anos (PESSANHA, 1987).

O clima daquele período, cume do pensamento grego e expansão do mundo helênico, influenciaram muito o pensamento aristotélico. Contudo, ele irá contrapor o espírito de observação e a índole classificatória, típicos da observação naturalista, e que constituíram traços fundamentais do seu pensamento (PESSANHA, 1987).

Em Antenas, Aristóteles era da classe dos metecos (estrangeiros residentes) que não eram cidadãos. Por isso, ao contrário de Platão, não se preocupa com os problemas da pólis, fazendo da política um objeto de estudo especulativo. Ficou órfão cedo, e herdou uma herança boa de seus pais que foi custodiada por pais adotivos.

Quando morreu Platão, em 347, a. C, Aristóteles e transferiu-se para Assos, na Ásia Menor, a convite do príncipe Hérmias, ex-integrante da academia e amigo. Nessa cidade fundou uma Escola com Erasto e Corisco, onde provavelmente lecionou cursos de disciplinas filosóficas (REALE; ANTISERI, 2003).

Essa saída de Atenas, pode ter sido motivada pelo fato de Aristóteles não ter sido escolhido para substituir o seu Mestre na Academia, uma vez que ele achava-se o mais preparado para isso. Mas pelo contrário, foi escolhido Espeusipo, que tinha convicções bem diferentes de Aristóteles (PESSANHA, 1987).

Após a morte do príncipe, ele dirigiu-se a Lesbos, onde permaneceu dois anos. Levou consigo Pítias, sobrinha e filha adotiva de Hérmias e que foi sua primeira esposa. Após a morte dela, desposará Herpilis, que lhe dará um filho e discípulo, chamado Nicômaco (REALE; ANTISERI, 2003).

Em 343 a. C., recebeu um convite de Felipe da Macedônia para confiar-lhe a missão de educar Alexandre, seu filho. Entre eles, nasceu uma amizade, simpatia e dessa forma Aristóteles pôde influenciar significativamente na sua personalidade. Porém nunca apoiou seu jeito de ser general e conquistador, que buscava a fusão da civilização grega com a oriental. Algo que para Aristóteles era impossível, uma vez que, a natureza e o gênio desses povos eram diferentes. Dez anos depois Felipe é assassinado e Alexandre sobe ao trono com apenas 20 anos. Não sendo mais necessária sua presença, Aristóteles volta à Atenas. Lá, ele fundou sua própria escola, chamada Liceu, pois ficava ao pé do Templo de Apolo Liceu, tornando-se, assim, rival da Academia, que no momento era liderada por Xenócrates. Seus discípulos ou alunos eram chamados peripatéticos, pois as aulas eram realizadas na forma de passeios pelos pórticos.

Com o passar dos anos o Liceu tornou-se um grande centro de estudos, sobretudo das ciências naturais, que influenciaram na física e metafísica aristotélica, na medida em que se reflete na doutrina do movimento, elaborada por Aristóteles (PESSANHA, 1987).

Quando Alexandre, em 323 a.C., faleceu por conta dos seus excessos e intemperanças e vícios, Aristóteles passou a ser perseguido pelo sentimento antimacedônico, e foi acusado de impiedade. Então, foi para uma pequena propriedade sua em Cálcis, na Eubéia, como refugiado. Deixando o Liceu na direção de Teofrasto. Lá, ficou um ano, morrendo em 322 a.C.

Aristóteles começou a construir sua obra na Academia de Platão, mas muitas dessas obras forma perdidas, de modo especial os diálogos. Esses escritos provavelmente teriam um estilo refinado, mas restaram apenas fragmentos que são de estilos áridos e sem unidade formal e orgânica. Nos anos vinte do século passado formou-se a escola histórico-genética, que através da interpretação das várias obras do estagirita, comprometeu em grande medida a unidade filosófica de Aristóteles (REALE; ANTISERI, 2003).

Sobre os escritos de Aristóteles é possível dividi-los em dois tipos. O primeiro são as obras Exótericas, são destinadas ao grande público, ou seja, pessoas de fora da escola e compostas de forma dialógicas, imitando Platão. Destas perdeu-se completamente tudo, restando apenas fragmentos. Exemplos: Eudemo, tratada da imortalidade da alma. E o diálogo Sobre a Filosofia, que rejeita a teoria das ideias de Platão.

A segunda são as obras Esotéricas ou acromáticas, que referem-se a pequenos tratados que foram a base didática destinada apenas aos seus alunos e que tratam de problemas filosóficos e ciências naturais. Pode-se citar como exemplo os Tratados de Filosofia Moral e Política: a Ética a Nicômaco; a Grande Ética, a Ética Eudêmica e a Política. Esta ultima é um conjunto de oito livros não muito bem articulados.

Ele é o filósofo por antonomásia, não só porque elaborou um sistema que oferece uma explicação completa do mundo que nos cerca, como também porque nos deixou, em seus tratados, um modelo incomparável da técnica de filosofar. (MONDIN, 1981, p. 82).

2 A ÉTICA A NICÔMACO

Entre os escritos morais e políticos de Aristóteles, tem-se a Ética a Nicômaco, escrita entre 335 a. C. a 323 a.C no cenário da fundação da escola peripatética. Essa obra foi escrita pedagogicamente para o seu filho Nicômaco, como uma forma de orientá-lo a uma vida feliz. Pois para Aristóteles, o homem tende ao bem supremo, que é a felicidade, embora algumas vezes isso não pareça, que só é atingida quando o homem se relaciona com o outro. Segundo Aristóteles, alcançar uma vida feliz é preciso alguns princípios éticos, que não é uma vida cheia de prazeres, honras.

Aristóteles apresenta vários conceitos de valores para uma boa convivência na polis, ou seja, ser virtuoso, que nada mais é que através da razão, escolher o justo meio dos extremos.

A Ética a Nicômaco se constitui num modelo fundamental porque, diversamente da filosofia posterior, Aristóteles não restringe o aspecto prático ao âmbito da teoria moral, mas desenvolve uma teoria mais ampla em relação ao bem viver, ao agir correto e ao refletir racional; Além do mais, esse aspecto está inserido numa teoria do político. (WOLF, 2013, p.9).

A obra é dividida em dez livros que abordam temas como a felicidade, a amizade, a justiça, a temperança, o prazer. Wolf (2013) faz um desdobramento do conteúdo do livro de uma forma resumida e que ajuda a entender a estrutura geral do texto: O Livro I trata da questão do bem do homem, a vida política é exposta do livro II ao VI. Nos Livros VIII- XI trata-se de temas afins. O Livro x, por sua vez, ocupa-se com o prazer e com a vida teórica.

Agora se faz uma apresentação mais específica, tendo ainda em base, Úrsula Wolf: O primeiro livro refere-se ao tema da felicidade e eudaimonia, o seu conceito e mostra que ela é o fim último do homem. Só o virtuoso é que consegue ser feliz. No segundo livro, trata-se principalmente do que é a virtude (arete), que pode ser adquirida tanto pelo hábito ou através do ensino. Dando continuidade, o livro III, mostra que o homem tem a liberdade e é responsável tanto pela sua virtude, como pelos seus vícios. Fala também da coragem e temperança. Esta é considerada por ele o meio termo dos prazeres.

No livro IV, Aristóteles continua falando um pouco de liberdade e logo em seguida trada de algumas virtudes: calma, magnificência, magnanimidade. O livro V, trata da justiça correlativa, política e a injustiça contra si mesmo. Depois, no livro VI, apresenta mais seis virtudes, chamadas aretai intelectuais: ciência, arte, prudência, razão, inteligência, sabedoria.

Seguindo, no livro VII, faz uma crítica aos incontinentes, intemperantes, que não têm domínio sobre si e que vivem no vício. A segunda parte do capítulo aborda o assunto do prazer (primeiro tratado).

O conceito de amizade, sua importância e seus tipos são explanados nos livros VIII e IX. Ela é tratada como uma virtude fundamental, que evita que muitos males aconteçam com os homens e que conduz o homem à felicidade. O livro X, inicia-se com o segundo tratado sobre o prazer. E em seguida, é possível afirmar que trata-se de um complemento ao livro um, em resposta à questão da eudaimonia, que é alcançada a partir da libertação dos vícios e más inclinações do prazer. Conclui, com a transição para a política.

3 A AMIZADE NA ÉTICA A NICÔMACO

3.1 CONCEITO

Constata-se que, Aristóteles foi o primeiro a idealizar de forma estruturada e delinear os tipos de amizade (Wolf, 2013). E em sua ética nicomaqueia, tratou desse tema nos livros VIII e IX. Assim sendo, surge um questionamento sobre qual seria a razão para essa escolha. Giovanni Reale, explica que há diversas razões, e nos dá três delas:

Em primeiro lugar, a amizade é para Aristóteles, estruturalmente ligada à virtude e à felicidade, portanto, aos problemas centrais da ética. Em segundo lugar, a problemática da amizade, por Sócrates e, sobretudo por Platão, como vimos, já fora debatida a fundo e conquistara uma notável consistência filosófica. Em terceiro lugar, a estrutura da sociedade grega dava à amizade uma importância decididamente superior á que dão as modernas sociedades, de modo que também desse ponto de vista explica-se a particular atenção que lhe dedica o Estagirita. (REALE, 2015, p.114).

Afirma MONDIN (1981) que entre as virtudes investigadas por Aristóteles, a amizade ocupa um lugar de destaque, pois sem ela o homem não pode ser feliz. Aristóteles assegura essa importância no início do Livro VIII, dizendo que, mesmo se alguém possuísse todos os bens, não escolheria viver sem amigos. Levando isso em consideração, os ricos e pessoas que exercem autoridade e poder, são os que mais precisam de amigos, pois de pouco serve a prosperidade sem a oportunidade de beneficiar alguém.

Duas características fundamentais da amizade são a reciprocidade e o querer o bem do outro, no interesse dele próprio e não só nos nossos. Quando se deseja o bem a outrem, mas não há uma correspondência, nem o outro sabe, chamamos isso de benevolência, apenas (ARISTÓTELES, 1984).

À luz dessas ideias, o conceito de philia, apresentado por Aristóteles, aproxima-se, de certo modo, ao que se entende por amizade atualmente: relação positiva, entre pessoas que desejam bem uma a outra. Dessa forma, a busca do bem por si mesmo (o bem querer), base e a essência da amizade, não pode permanecer oculto (WOLF, 2013). Caso permaneça oculto e não seja mútuo, não pode ser considerada amizade, pois essa relação acontece de forma superficial e que passa, não existe intimidade. Mas ao contrário, acontece repentinamente.

Alguém que ao passar na rua, dá uma esmola a um mendigo, não está desenvolvendo uma relação amistosa, mas agindo com boa intenção e boa vontade. De fato, isso pode ser o início de uma amizade, mas não é em si. Uma das marcas da amizade é o desejo de estar junto, sentir prazer na companhia do outro. Sobre isso Aristóteles afirma:

É por isso que, enquanto os jovens são rápidos em fazer amizades, o mesmo não se dá com os velhos: os homens não se tornam amigos daqueles em cuja companhia não se comprazem. E, da mesma forma, também as pessoas acrimoniosas não se tornam amigas facilmente. (EN 1158a, 1-10).

A reciprocidade e o desejo de estar juntos são considerados marcas da amizade, visto que os homens podem até ajudar-se mutuamente no que for preciso, mas se estes não passam os dias juntos e se deleitam da companhia do outro, e dessa forma, não é possível afirmar que são amigos. (EN 1158a, 5-10). A amizade é baseada na partilha e apreciação de coisas afins, mostrando assim a sensação de convivência entre eles.

Em contrapartida, duas pessoas que estão distantes uma da outra podem manter sua relação de amizade, mas o que se desfaz não é a amizade, mas a atividade. Entretanto, se esse distanciamento é longo, pode parecer que houve um processo de esquecimento (ARISTÓTELES, 1984).

Amizade é uma virtude, e o amor é uma emoção. Sendo assim, é possível sentir amor por coisas inanimadas, mas não amizade, já que o amor reciproco pressupõe uma escolha, que tem origem em uma disposição de caráter (virtude). Os homens são benevolentes com aqueles que amam, não por sentimento, mas por virtude e pelo que eles são. O amigo torna-se um bem para o outro. (ARISTÓTELES,1984).

Enfim, o homem, como ser estruturalmente polítco, ou seja, feito para viver em sociedade com outros, pela sua própria natureza tem necessidade de outros, justamente para poder gozar dos bens: um homem absolutamente isolado não poderia gozar de nenhum bem. (REALE, 2015, p. 117).

3.2 A AMIZADE QUE VISA UTILIDADE

Existem três objetos do amor: o útil, o bom e o agradável. Da mesma forma, existem três formas de amizade que lhes correspondem, uma que visa à utilidade, uma com vistas ao prazer e a que visa o que é bom. (PERITO, 2014). Escreve o estagirita:

Ora, os que se amam por causa de sua utilidade não se amam por si mesmos, mas em virtude de algum bem que recebem um do outro. Idêntica coisa se pode dizer dos que se amam por causa do prazer; não é devido ao caráter que os homens amam as pessoas espirituosas, mas porque as acham agradáveis. A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins na virtude, pois esses desejam bem um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. (ARISTÓTELES, 1984, p. 181)

MORAIS NETO (1999), afirma que segundo Aristóteles, os amigos cuja afeição é baseada no interesse mútuo, não se amam por si mesmos, nem por algo que está no caráter do outro, mas em virtude de um bem ou proveito que se pode retirar ou receber. Ou seja, amam pelo que é bom para eles mesmos e na medida em que o outro pode ser útil. É um bem querer-quer não pelo amigo, mas a si mesmo, como afirma PERITO (2014).

Esse tipo de amizade, não permanece por muito tempo, mas muda constantemente e se desfaz com facilidade, por conta das suas motivações, que muitas vezes são mercantis, como se fosse uma troca de produtos com o objetivo de tirar vantagem. Visto que são estruturas não em consequência do fim, mas como meio para obter vantagem. (PCHLER, 2004, p.194). PICHLER, olhando por essa ótica, Aristóteles afirma que até os maus podem ser amigos uns dos outros, uma vez que eles só se aprazem com a presença dos outros se, com essa relação, for possível obter algum proveito.

Para Aristóteles, a amizade por ser um excesso de sentimento, não pode ser dirigida a muitas pessoas ao mesmo tempo, nem muitas pessoas podem agradar a um único indivíduo, a menos que seja com vistas na utilidade, porque retribuir os serviços de muita gente é bem trabalhoso e uma vida humana não bastaria. Assim:

Não se pode ser amigo de muitas pessoas no sentido de ter com elas uma amizade perfeita, assim como não se pode amar muitas pessoas ao mesmo tempo [...]; e não sucede facilmente que muitas pessoas, ao mesmo tempo, agradem muito a um indivíduo [...].Mas com vistas na utilidade ou no prazer, é possível que muitas pessoas agradem a uma só, pois muitas pessoas são úteis ou agradáveis, e tais serviços não exigem muito tempo. (ARISTÓTELES, 1984, 184-185).

Quem faz um bem a outrem, não necessariamente ama o outro, mas sim ama o benefício ou gesto bom que fez, ou seja, ama a si mesmo. A amizade que visa utilidade aparece muito entre contrários ou desiguais, superior e inferior, pois um procura no outro aquilo que lhe falta. Como por exemplo, o pobre e o rico: há uma troca, onde aquele dá os bens materiais e este retribui com honras. Isso poderia ser identificado como um fazer uso do outro e não uma relação de amizade (WOLF, 2013).

Como era de se esperar, a amizade utilitarista é baseada em queixas, pois ao contrário da amizade virtuosa, que visa o bem do amigo, cada um quer beneficiar-se do outro e se por ventura achar que de alguma forma, não foi favorecido da maneira que merecia, censura o amigo (ARISTÓTELES, 1984). Diz Aristóteles:

[...] Na amizade entre amantes, por vezes o amante se queixa de que o seu excesso de amor não é recompensado com amor [...], enquanto o amado se queixa com frequência de que o amante, que outrora lhe prometia tudo, agora não cumpre nada. Tais incidentes acontecem quando o amante ama o amado com vistas no prazer, enquanto o amado ama o amante com vistas na utilidade, e nenhum dos dois possui as qualidades que deles se esperam. (ARISTÓTELES, 1984, p. 199).

Se as razões que sustentavam uma amizade utilitarista cessam, talvez não haja nenhum problema em romper essa amizade, uma vez que as causas deixaram de existir e não é de se estranhar que não se sinta mais amor. (ARISTÓTELES, 1984).

3.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE A AMIZADE VIRTUOSA

Tendo sido apresentado a amizade que visa utilidade, apresentar-se- a de forma sintética, o oposto: a amizade virtuosa, ou seja, que visa o bem e qual a diferença desta com aquela. A amizade perfeita ocorre entre os bons e virtuosos, pois eles desejam bem um ao outro por causa de si mesmo. O outro se transforma em um bem para o amigo, ama-se por aquilo que ele é. Esse tipo de amizade está centrada no valor do homem e não como um artifício de obter algum benefício, como riquezas e honras (PICHLER, 2014). É o que nos apresenta Aristóteles:

A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. Ora, os que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos são os mais verdadeiramente amigos, porque o fazem em razão da sua própria natureza e não acidentalmente (ARISTÓTELES, 1984, p. 181).

Os amigos bons são úteis e agradeis um ao outro. Contudo esse interesse, essa utilidade não é por algo exterior, mas sim interior e inerente ao amigo. Eles querem bem por natureza e não de forma acidental. É o que nos aponta Wolf:

Amizade de pessoas boas também inclui o útil e o agradável, com efeito é útil a ambos aquilo que promove a vida [...]. Esse prazer é almejado pela pessoa boa e também as ações semelhantes feitas pelo amigo causam alegria, de tal modo que ambos se alegram com as ações do outro e as ações de ambos tornam-se agradáveis. (WOLF, 2013, p. 228)

Se essa amizade, só pode ser encontrada entre homens igualmente bons, então é rara. Pois não se acha com frequência homens desse tipo. Exige tempo, confiança, familiaridade, que se conquista de forma gradativa. Sabe-se que por ser baseada na bondade é uma coisa muito durável. Ao contrário da amizade que se baseia na bondade, pois cessando a vantagem, acaba-se.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se concluir que, o pensamento de Aristóteles foi influenciado pelo clima do período em que viveu cume da expansão helenística. Sabe-se, também, que por ser de família com tradição médica, dedicou-se a questões da natureza (physis), antes de começar a tratar da política e ética. Sobre estes temas, escreveram tratados, inclusive vários foram perdidos. Para ele o homem tende ao sumo bem, a felicidade. Mas para que isso realmente aconteça, é necessária a vida em comunidade (polis), e o relacionamento com o outro. E a partir deste relacionamento se dá a amizade. Nos livros VIII e IX da Ética a Nicômaco o estagira trata desse tema.

A verdadeira amizade é aquela baseada na virtude, que não visa interesses, prazeres, mas a que busca o bem do amigo e é recíproco, logo não se pode ser amigo de coisas inanimadas, caso contrário é apenas benevolência. O amigo é um bem para o outro. Isto é semelhante ao conceito de amizade que temos atualmente.

Existem três formas de amizade, a que utilidade, a que busca um prazer e a que visa a virtude. Neste artigo evidenciamos a utilitarista, que é o tipo, hoje em dia, mais fácil de encontrar, mas que também é fácil de se desfazer, pois quando acaba o benefício ou honras que eram obtidos, cessa também a amizade, pois não faz mais sentido tê-la. É baseada em queixas, se uma das partes achar que não está sendo beneficiada o quanto merecia. Não facilmente, se acha facilmente esse tipo de amizade, visto que, pessoas virtuosas, que transmitam confiança e busquem amizades sem propósitos de obter benefícios não são fáceis de achar.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1984. (Coleção Os Pensadores – Vol. 2)

MONDIN, Batista. Curso de Filosofia. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1981.v.1.

MORAIS NETO, Joaquim José de. A amizade em Aristóteles. Londrina: UEL, 1999.

PICHLER, Antônio Nadir. As três formas de amizade na ética de Aristóteles. Revista Ágora Filosófica, Recife, n. 2, p. jul./dez. 2004.

PERITO, Mateus. A philia na Ética a Nicômaco de Aristóteles: entre a autossuficiência e o outro eu. 2014. 93 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2014.

PESSANHA, José Américo Motta. Aristóteles: vida e obra. In: ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Introdução, p. 7-17. (Coleção Os Pensadores).

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Aristóteles. Trad. Ivo Storniolo. In:______. História da filosofia: filosofia pagã antiga. São Paulo: Paulus, 2003. cap. 7, p. 187 - 204. v.1

REALE, Giovanni. História da filosofia grega e romana. As ciências práticas: ética e política. 3ª ed. Trad. Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine. In:______. Aristóteles. São Paulo, 2015. cap.3, p. 97-123. v.4.

WOLF, Ursula. Ecologia, A ética a Nicômaco de Aristóteles. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2013.

Pedro Xavier
Enviado por Pedro Xavier em 09/08/2018
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