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Etimologicamente, inocente é formado do latim -in, "expressão de negação ou privação" e nocēre, "ser nocivo". Portanto, inocência significa não ser nocivo.

Utilizo in-nocência no sentido estrito de não ser nocivo, não nocividade – caráter distintivo do modus operandi e  modus vivendi indígena.

A uma atitude indígena de inocência funda-se, sem dúvida, um paradigma de saúde (mental, social, comunitária) e de relação com o próprio corpo e o do outro, desconhecido do mundo europeu transtornado por culpa, medo, vergonha a ponto de por tais transtornos Sigmund Freud ter criado a Psicanálise – a teoria analítica da personalidade européia. E é por isto que as publicações sobre corpo no Brasil, utilizando-se dos clássicos teóricos europeus ou norte-americanos, pouco ou nada significam para as vivências e as experiências de corpo no Brasil: as técnicas corporais de Marcel Mauss, os estudos de concepções de corpo no judaísmo realizados por Mary Douglas, o estudo do corpo do homem e da mulher e suas modificações no início da era do cristianismo romano realizado por Peter Brown, as concepções sobre limpo e sujo para os europeus estudadas por Georges Vigarello , as experiências de corpo na idade média e renascimento europeus estudadas por Mikail Baktin, a experiência do estupro nos processos e julgamento da justiça francesa estudada por Georges Vigarello, os estudos sobre corpo e sexualidade de Michel Foucault; os estudos de Thomas Laqueur sobre gênero, corpo e as concepções anatomo-fisiológicas de sexo, dos gregos a Freud, engendrando a invenção do sexo moderno pelos europeus... qualquer destes estudos se tomados para falar das vivências, experiências e concepções de corpo no Brasil testemunham a vigência na vida intelectual nacional do conceito de "idéias fora de lugar", de profissionais e profissões funcionando por "dispositivos fora do lugar" e de "distorção epistemológica".

O corpo in-nocente indígena, paradigma de saúde mental social e física, além de não possuir as doenças físicas trazidas pelos europeus desde o século XVI, também não possui os transtornos/distúrbios/limitações mentais que os caracterizam quanto às suas relações com o próprio corpo e com o corpo do outro (e que, no século XXI ainda caracterizam bilhões de pessoas no mundo inteiro). Daí a densidade do conceito de corpo in-nocente indígena, característico de uma civilização predominantemente matriarcal e paradigma para o século XXI.

É pelo corpo in-nocente indígena que crio os conceitos de Corpo de Cuidado, Etnocuidado e Biocuidado, instituidores do Paradigma Pedagógico de Qualidade de Vida – milenarmente constituídos no Brasil pela Civilização Indígena: a esse corpo de cuidado, são nocivas (senão inúteis) as fragmentadas e equivocadas semiologia e semiotécnica ensinadas na graduação de profissões supostamente da Saúde . Daí, pesquisadores de Enfermagem e do Cuidado, quais eu mesmo, estão investindo na SEMIÓTICA DO CUIDADO aonde o "corpo vivo que somos" não se constitui de pedaços estudados em salas de Anatomia com os respeitáveis corpos mortos: estamos convencidos de que os necrófilos estudos fundados na morte e na doença oferecem pouquíssimos subsídios para entendermos a vida e a saúde, embora enfermeiros e enfermeiras, com competência e sem a megalomania de se autodenominarem deuses da cura (que nada curam porque quem cura é a própria natureza),  saibam cuidar também de corpos mortos ou em processo de morrer.

(Imagem: Reprodução da Morte de Adônis, Rodin)

Carlos Fernandes
Enviado por Carlos Fernandes em 16/09/2007
Reeditado em 16/09/2007
Código do texto: T654576
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Carlos Fernandes
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