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UM DEUS NA CONTRA MÃO.

A Bíblia tem histórias, circunstâncias e declarações que nos dão um grande trabalho para acomodar dentro delas, as nossas vontades e as nossas necessidades como ser humano, providos de intelecto, pretensões, anseios e aspirações.

Há certa hora, em que a Bíblia vai por um caminho tão árduo que nós, seres redondos, completos, acabados, temos que abrir uma brecha em nossas proposições para conseguir encaixar o que eu penso, com o que Deus pensa, para poder amoldar o que eu pretendo, com o que Deus pretende, para poder adequar o meu sentido de grandeza, com a indigência que ele me oferece, em termos de realização pessoal.

Desamoldar conceitos não é tarefa fácil. O sistema nos educa e nos prepara para o sucesso pessoal, profissional, social e faz um pacote com todas essas coisas com o rótulo de “Felicidade.” No conceito humanístico, a ascensão social do indivíduo está intimamente ligada à idéia de felicidade, mas a Bíblia nos oferece outra metodologia para ensinar o caminho que leva à felicidade.

Para compreender a Bíblia, e por inferência, a mente de Deus, não podemos pinçar um único versículo, capítulo ou livro, sem correr o risco de fazer daquele texto um pretexto. Temos que ler a Bíblia toda e depender ainda do Espírito de sabedoria e revelação. Mas, para provar uma pitada dessa conexão ilógica, sem fazer disso um modelo, mas uma “isca” que nos leve a buscar essa compreensão, vamos escolher esse versículo que Paulo escreveu em sua carta aos coríntios:

“ Se enlouquecemos, é para Deus; se conservamos o juízo é para vós.” 2 Cor. 5:13.

Este é o ponto. Conservar o juízo ou enlouquecer. Uma escolha deveras inusitada. Você quer ser reconhecido como um exímio cidadão exemplar, ou como um alienado? como um louco ou como um sábio? como um forte ou como um vil? A Bíblia deixa claro que tipo de escolha Deus faz:

“ Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; Deus escolheu as coisas vis deste mundo e as desprezíveis e as que não são, para aniquilar as que são; para que ninguém se glorie perante Ele.” 1 Cor. 1:28-29.

Deus escolhe os loucos, os fracos, os vis, os desprezíveis, os que não são, e os usa para aniquilar os que são. Alguém aí se habilita para o serviço de Deus? Alguém aí quer se inscrever no “O Aprendiz” para a função de ser auxiliar direto do Maior? Daquele que não chega de helicóptero, porque voa nas asas do vento; daquele que não passa tarefas com voz educada e firme, mas troveja do céu com a voz de muitos trovões;   daquele que não apenas fala aos homens, mas ordena ao mar;  daquele que não tem casa na praia, no campo, na montanha, mas é dono de todos os mares, todos os campos e todas as montanhas? As inscrições estão sempre abertas... mas essa inscrição não é você quem faz, ela simplesmente se faz. Um dia, sem que saiba como, você pode ser inscrito.

Sem dúvida, o Evangelho age de forma revolucionária, positiva e arrasadora sobre a vida de tantos quantos são designados a viver de maneira pluridimensional, com os pés na terra e a cabeça no céu, o divino permeando o humano e prevalecendo sobre todas as possibilidades, sobre todos os arrazoados ideológicos, sobre todos os conceitos religiosos estéreis.

Caminhar com Deus é caminhar a favor da humanidade, mas na contra mão do mundo. Isso significa exatamente o que significa: quando todo mundo caminha por uma mão, Deus caminha por essa mesma mão, em direção contrária ao fluxo.  Imagine uma auto-estrada, cheia de veículos transitando de maneira ordenada. Pois quando você vir um carro blindado sobrevindo diretamente em sua direção, sobre a sua vida, sobre os seus projetos, sobre os seus sonhos,  ali vai Deus ao volante. Não para esmagar, mas para convidar você a abdicar da companhia da maioria dos comuns mortais, e trilhar o caminho inverso em companhia dele.

Deus é um susto só.

Por isso, a Bíblia é repleta de personagens que nos comovem. Sentimos pena dos personagens bíblicos quando os vemos como homens, simples mortais que foram. E sentimos fascinação, quando os vemos como seres que transcenderam a lógica natural e viveram de forma sobrenatural.

Elias. Meditando sobre a vida de Elias, os milagres que realizou, as situações que vivenciou, os desdobramentos psicológicos que sofreu, aprendemos que a comissão divina sempre causa um rebuliço na condição humana. Elias bateu de frente com os reis Acabe, Acazias e Jeorão. Gente da pesada. Bateu de frente com a idolatria, com a feitiçaria, com toda uma nação que abandonara o Deus vivo, para comprometer-se com o pecado. Por último, Elias bateu de frente com a rainha Jezabel. Mas lembram-se do carro blindado? Elias foi o carro blindado e Deus estava nele.

Elias ordenou a seca como juízo, e a seca veio sobre a terra. O que não o isentou de estar sofrendo as penalidades desse mesmo juízo, porque ainda pertencia à terra, ainda era de carne e sangue. Ele também teve sede. Para matar sua sede, Deus lhe deu o obscuro ribeiro de Querite. Bebeu do riacho, em Querite, quando toda a água que abastecia as tribos de Israel vinha do Rio Jordão. Mas o Jordão secou para Israel e o ribeiro de Querite , a leste do Jordão, fluiu para Elias. Um fio de água. Essa água matou a sede de Elias.

A caçada contra a sua vida começou. Mas quem procuraria Elias, a leste do Jordão, se ali não existia água? Os homens sempre reagem com a lógica natural e por causa dessa lógica natural, Elias viveu de forma sobrenatural, sem ser incomodado: bebeu água do riacho de Querite e foi alimentado pelos corvos. Uma vida extraordinária.

Quando Deus determina a direção para a vida, Ele também concede o suprimento a essa vida. Que não necessariamente será caviar, filé mignon ou uísque escocês. Pode ser comida trazida por corvo e água do riacho. Quando se está exatamente no lugar que Deus determina, executando o serviço que ele necessita, desempenhando a missão que ele define, com certeza, o socorro não falta . Não falta a comida na hora da fome, a água na hora da sede, o conforto na hora da dor. Deus não nos isenta de dores, mas passa conosco cada uma delas, e dá o seu jeito. Que nem sempre é o nosso jeito.

O extraordinário não está, exatamente, na presença de Deus em forma de socorro, mas no socorro de Deus em formato não padronizado, em conceitos não convencionais. O suprimento não vem em bandejas de ouro por mãos de anjos, mas na boca de corvos.

As “frescuras” humanas jamais conseguirão engolir esse fato. O Deus que criou a fauna toda, a passarada toda, os seres angelicais, todas as criaturas, não envia um homem, mas envia um corvo. Elias comeu do que o corvo lhe deu. Elias comeu na mão do corvo.

Seca o ribeiro, a água acaba, o corvo some. Vai voar em outras paragens menos “elisianas”. Mas Elias continua lá, esperando a ordem. Ele acabou de aprender a submeter-se ao governo revolucionário do céu.

“ Então veio a ele a Palavra do Senhor: Levanta-te, vai a Sarepta que pertence a Sidom e habita ali. Ordenei a uma mulher viúva que ali te sustente. Então, ele se levantou e foi a Sarepta.” 1 Reis 17:9

Corvos e viúvas. Deus consolida de novo a lógica divina que passa a milhares de quilômetros da lógica humana. Não faltou pão, não faltou água, não faltou suprimento para Elias, para a viúva e para o seu filho, Três pessoas se beneficiam da mesma graça, do mesmo poder. Porque a graça de Deus é comunicante, porque a bênção de Deus é para todo aquele que não retém, que não se apossa, que não se assenhoreia dela, antes a administra com liberalidade, com generosidade, com prontidão. Foi a viúva quem alimentou Elias, ou foi Elias quem alimentou a viúva? Foi Deus!

E enquanto isso, a poderosa nação de Israel amargava um extenso período de seca e de fome. Faltou comida para os que “conservaram o juízo” mas não faltou comida para os “loucos”, para os que “perderam o juízo.” Faltou direção para os que andavam pela auto pista, mas não faltou caminho para aquele que enveredou pela contra mão do mundo.
Elias é só um exemplo, mas a bíblia tem outros vários. Ser um personagem bíblico na medida de Deus, equivale a cair na desgraça dos homens, equivale a ser excluído do sistema humano mundial, “riscado do mapa”.

Quais os riscos de se inventariar por esse caminho novo? Todos! Quem se arrisca, permanece dividido entre o arrazoado humano e o imponderável divino. Vive-se a meio caminho, suspenso entre o céu e a terra. E ainda se continua humano, pequeno, desconectado. Ainda se experimenta dor, frustração, angústia, amargura e medo. É um caminho árduo, íngreme e sem volta. É um caminho extremamente solitário. Mas é o único caminho possível para aqueles que foram chamados e obedecem a esse chamado, não de maneira passiva, mas de maneira corajosa. Porque a obediência é o que a obediência faz. E obedecer continua sendo “melhor do que sacrificar.”
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 05/10/2007
Reeditado em 05/10/2007
Código do texto: T681468

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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