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LIVRO 7 - UM FLASH-BACK DA MAIOR LIVRARIA DO BRASIL

No início dos anos 80 até meado dos anos 90 no entremeio da Avenida Conde Boa Vista e da Avenida Riachuelo do lado de cá do Beco da Fome, precisamente na Rua Sete de Setembro logo ali no centro do Recife entre encontros e desencontros havia um “ninho” apinhado de sabedoria, cultura e conhecimento freqüentado por um público eclético: escritores, poetas, artistas, intelectuais, simpatizantes, estudantes, curiosos e transeuntes anônimos com infinitas variações de procedência e destino.

Recém chegado no Recife dos anos 70 [final] desembarquei com “um único” propósito a ser conquistado naquele momento, uma vaga para a universidade pública. Atingido o alvo [1978] em 1979 após a conclusão dos primeiros 365 dias freqüentando o curso de direito no campus da Universidade Federal de Pernambuco agora era a vez de respirar toda uma atmosfera histórica impregnada em cada nicho, parede, corredor, sala, hall, pátio, etc. presente no extraordinário e majestoso monumento arquitetônico do Palácio da Faculdade de Direito, centralizado numa praça ajardinada ocupando uma área de 3.600 metros quadrados. Uma verdadeira jóia de arte com que a nação premiou o saber jurídico brasileiro.

Convicto, confesso que ao penetrar mais e mais a fundo o vasto salão nobre, atravessar portas, salas e ante salas, vencer porões, sótãos, corredores e conquistar o campanário do relógio, durante o longo período em que por lá estive como acadêmico de direito por vezes tinha a nítida e clara sensação de que Castro Alves ou Rui Barbosa entre tantos outros grandes vultos do passado que simbolizam uma epopéia de cultura, estavam bem ali próximos de “corpus presente” em cada pequeno detalhe daquele suntuoso castelo. Definitivamente, havia algo de diferente sob o abrigo daquele zênite.

Não fosse bastante o sucesso da empreitada e o rio da vida transcorresse in albis na mais sereníssima paz, eis que certo dia sem parar e nem tirar os olhos do chão fui dar de cara com a Deusa Afrodite se quiser? Sim a deusa Afrodite materializada sob a forma de uma livraria chamada Livro 7, e que doravante então me subtraindo quase por inteiro passara a concorrer com as aulas da cadeira de Introdução ao Estudo do Direito I e II, ambas ministradas brilhantemente no primeiro horário pelo excelentíssimo senhor doutor professor Heraldo Almeida que do alto do seu tablado e da sua, digamos, assim, insolência, em hipótese alguma abria mão da prerrogativa de solenemente findo a jornada proceder peremptoriamente à chamada na lista de presença, assinalando, assim, portanto, os faltosos e computando-as nos respectivos registros as anotações de ausência até que se atingindo um determinado número de faltas, quase sempre certa era a reprovação.

De notória importância um verdadeiro sonho de consumo em prêt-à-porter, papel couchê e papiro impresso de jornal. No ranking a maior e por excelência a grande referência literária numa década de profundas e radicais mudanças na história da nação brasileira em que o verde, amarelo, azul e branco sob o jugo da ditadura militar jamais fugiu da luta nem temeu a própria morte, tampouco se acovardou no epicentro de uma derrama de sangue e choro sem precedentes; prisões arbitrárias; torturas; patrulhamento ideológico e vidas subtraídas por mera suspeita de serem contrárias ao regime vigente, desde então a Livro 7 com muito mais vigor cônscia da sua importância cerrou fileira no front no combate ao poder opressor e em prol da verdadeira democracia sob a razão social de - Livro Sete - O império das letras.

Aficionado desde que me hipnotizara a Livro 7 adentrara meu cotidiano feito oxigênio imprescindível para a sobrevida ou algo como um vício, uma obsessão exagerada, uma liturgia, um enamoro, um amor de paixão desmesurada já que por mais que tentasse não conseguia romper aquele liame umbilical .

Presa fácil da fantasia, refém da realidade e, movido por um sentimento inexplicável passei a viver dilemas a fio tendo muitas vezes que optar dia após dia entre a Livro 7 e as aulas do brilhante professor Heraldo, já que o fascínio pela palavra expressa dita escrita falada, pelo saber, pela imensidão daquele vasto universo de livros, tomos, volumes, edições, códices, enciclopédias, etc. que se despejavam desafiadoramente feito cachoeiras de conhecimento diante das minhas retinas em "desdenhoso murmúrio" era coisa d'outro mundo.

Verdade seja dita. Por vezes fingia comprar algo de literatura, é claro? O certo é que de vez enquanto até arriscava uma comprinha mesmo sabendo que aquele dinheiro faria falta no meu limitado orçamento doméstico e pessoal. Conquanto entre ter que optar por lê ou por comer, isto é, entre alimentar o espírito, a alma e a sapiência ou matar a fome do corpo, evidente, por motivos óbvios que entre um e o outro o do saciar a sede e a fome do corpo. O certo mesmo é que sempre escolhia um bom autor, um assunto do meu interesse ou algum em voga e mandava brasa. Aquele mundão de livros era mesmo a minha paixão! Lê até o tempo que dispunha esgotar perceber na lembrança o alerta vermelho de que estava na hora do início da primeira aula que he batia a porta.

São saudosas lembranças. São felizes recordações de um tempo romantizado cheio de rebeldia e de ideais libertários. Tempo de amor e bons propósitos.

Capitaneada por Tarcísio a Livro 7 marcou época educando, construindo pensamentos, despertando consciências, fomentando direta ou indiretamente não importando a tribo com ou sem parcerias a grande maioria dos grupos que “manipulavam” a cultura existente: teatro; música; dança; cinema; etc., além de editar e produzir obras literárias. Em particular destaque o Anarcu – Animação Artística Cultural que inobstante o exíguo tempo de existência cumpriu na integra seu papel de difundir um novo “código” para o tempo-espaço do EU SOU, não só investigando, argumentando, analisando, discutindo, formando e refletindo sobre o mundo, o Homem e o ser, ousou também ao arregimentar a inquietude de artistas, estudantes, militantes, produtores, criadores, intelectuais e simpatizantes das mais variadas vertentes, entre os mais importantes cito: Erickson Luna; Helena de Tróia; Titio Lívio; Geraldo Maia; Marco Pólo; Ricardo Palmeira; Valmar; Gil; Danilo; Rubem Valença; Geraldo Silva; Manoel Serrão; Roberto "Cachaça", etc.

Finalmente uma pergunta que não quer calar? Agora que estamos definitivamente na era cyber-digital será que um dia na história do homem existirá uma livraria nas dimensões ou em pé de igualha como foi a Livro 7? Considerada na época como a maior do Brasil? Evidente que quando falo de tamanho e dimensão não se trata apenas de grandeza material, mas da sua imensurável grandeza de propósitos que transcendendo a tudo e a todos e ultrapassando mares dantes navegáveis foi luz na escuridão da tormenta mais sombria na recente história política do Brasil.

Ao Tarcísio o louvor da cultura, dos artistas, escritores e poetas. Ao Tarcísio o reconhecimento da pátria amada e do mundo. Ao Tarcísio o louvor de sóphos em nome de philos [do ser saber amar] e de shopia [do conhecimento]. Ao Tarcísio o nosso maior respeito e consideração. Ao Tarcísio o nosso muito obrigado.



SERRAOMANOEL - SLZ/MA - TRINIDAD - 23.07.2007.

serraomanoel
Enviado por serraomanoel em 17/10/2007
Reeditado em 03/05/2009
Código do texto: T697521

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Sobre o autor
serraomanoel
São Luís - Maranhão - Brasil, 57 anos
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