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HOMENS E SOLDADOS DE CHUMBO

Lúcio Alves de Barros

(é doutor em ciências humanas: sociologia e política pela UFMG e organizador do livro “Polícia em Movimento”. Belo Horizonte: Ed. ASPRA, 2006).

Quando criança tinha um sério desejo. Era um desejo mesmo, do tipo delineado por Freud ou mesmo Lacan: desejava que os meus amigos e amigas, os quais amava como se tivessem em minha alma, se transformassem em soldadinhos de chumbo e que fossem tão perfeitos, lindos e formosamente delineados que pudesse colocá-los no bolso ou em uma estante de vidraça para que nada pudesse acontecer com eles. Achava que ali ficariam todos protegidos do frio, do medo, da ferrugem da vida, do roubo, da maldade, da envelhecência e da morte.

Ao ler Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, no capítulo 13, aprendi que, “no tempo em que eu era criança, falava como criança, sentia como criança, raciocinava como criança; mas, quando me tornei homem, eliminei as coisas de criança”. Infelizmente, hoje vejo as coisas como adulto e, sempre quando leio o discípulo acima, vejo uma penumbra cair sobre os meus olhos, uma roupagem negra invadir minha alma e percebo que os meus soldadinhos de chumbo não podiam ser guardados: muitos eram reticentes, vaidosos, desertaram, optaram por outra vida e saíram da caixa de brinquedos. Não posso dizer que eram perfeitos. Não existe perfeição. Eles eram diferentes e, por isso, alguns eram levianos, ambiciosos, invejosos, fofoqueiros, desleais e maldosos. Outros sim, eram legais, leais, cuidavam da manutenção da amizade, visitavam as caixas e andavam juntos nos pelotões. O fato é que os amava tal como eram: com ou sem os “problemas” da vida. E gostava de organizá-los, mas sabia que não poderia carregá-los no bolso por muito tempo, pois tinham os próprios problemas, a própria vida e sofrimentos de toda ordem.

Hoje, em tempos de individualismo possessivo, pergunto às crianças o que elas querem e nenhuma se lembra dos antigos soldadinhos de chumbo, tampouco da história do amor platônico entre o soldadinho e a bela bailarina que dançava ao som de uma doce melodia. Como se sabe, o soldadinho tinha uma perna só e, apavorado pela vergonha, nutriu por muito tempo o medo do amor não ser correspondido. Perdido, tal como estamos nos dias de hoje, ele ficava a pensar o que é a vida. Assombrado por ela - tal como Jonas - acabou na barriga de um grande peixe e foi encontrado somente muito tempo depois. Ao retornar ao quarto, por um golpe de sorte, pode rever e dizer para a bailarina do grande sentimento que lhe invadia o coração e que lhe deixava, como sempre, esperançoso diante das contingências da vida. Surpreso, apesar do receio latente, teve o seu amor correspondido, mas pouco durou. Abocanhados por um golpe, ambos foram jogados ao fogo. Ardidos pela vida, maltratados pelo silêncio, socados pelo tempo, no encontrar das cinzas, pode-se ver um grande e formoso coração de chumbo enrolado às poucas vestes da pequena e linda bailarina. Triste a história, como é triste a vida.

Como o casal, penso que somos queimados aos poucos e, na fogueira das vaidades, acabamos cultivando o câncer, a anorexia, a bulimia, o alcoolismo, o hedonismo sem limites e o consumo exacerbado de várias drogas. Na realidade não suportamos aguardar a solidão na barriga do peixe, tampouco não temos a coragem de dizer aos soldados de chumbo ou às bailarinas que os amamos e que desejamos andar de mãos dadas. Somos falsos e medíocres a ponto de produzirmos o medo e a sensação de insegurança existencial numa imbecil tentativa de preencher o vazio que cresce dentro de nós. Desejamos, tal como ainda deseja a maioria das crianças, que o mundo não seja da forma que ele nos apresenta, mas infelizmente, ele é. Talvez seja até pior. Muitos não querem vê-lo e optam por viver na ilusão passageira da felicidade ou agarrados em um Deus... cobrando Deste o que realmente não é da sua conta.

Sejamos honestos, deixemos Deus fora disso, Ele não é um Prozac. Na realidade temos sede de solidariedade, de reciprocidade, de viver, amar e ser amados. Essa é a verdade: desejamos e não falamos. Queremos e, mesmo com oportunidades, não possuímos, simplesmente porque não pedimos, não enfrentamos, não ousamos e não desejamos. Provavelmente nos falte humildade, coragem e ciência de nossas limitações, haja vista que somos seres humanos carentes de afeto, de amor, de paz, de Deus e do outro.

Sinto muito pelas palavras, mas a cada dia que perco um amigo por doença, por morte, ou vejo que eles sofrem tal como eu, ou mesmo quando percebo nos vários alunos e alunas - carentes no campo afetivo - o sofrimento latente, não tenho como barrar a indignação de minha alma que chora ao vê-los penando na vida que, certamente, “não é para principiantes”. Mais que isso, chega a ser assustador percebê-los nas drogas e se empanturrando de bobagens em botequins e festas promíscuas. É bem verdade que não é possível uma sociedade de santos e tenho dúvidas se realmente tias pessoas santificadas existiram. Me desculpe o filósofo Santo Agostinho, mas o mundo seria muito chato se tivéssemos somente “santos” por aqui. Mas não posso deixar de pensar em uma sociedade mais solidária, com compaixão, cuidados, sentimentos e emoção. É de odiar o culto social aos apelos ilusórios do consumo que não deixa de ter os seus atores, personagens (protagonistas e coadjuvantes), mentores e “empreendedores” de toda ordem. Ainda bem que as ideologias e as modas passam rápido, mas também é verdadeiro que forjamos rapidamente os “espertos (para não dizer picaretas) do mercado” que ganham rios de dinheiro colocando mentiras, invenções e balelas no lugar. Chego a ser infantil (que me desculpe “São Paulo”) ao desejar o retorno aos tempos de criança, mas seria bom se a vida fosse uma eterna brincadeira com soldados de chumbo, bolinhas de gude e carrinhos de rolimã. Saudades dos banhos de rio e das pescas sem peixe, ou mesmo da pelada com bola murcha e das pipas com linhas cheias de nó.

O fato é que as coisas se modificaram bastante e não se trata de evolução. Essa idéia é idiota e não existe. Algo se perdeu no passado e, no presente, estamos desperdiçando a vida esquecendo do outro e, por ressonância, do nós. O individualismo possessivo é isto, um campo minado no campo das sociabilidades, assim é provável o aumento de portas fechadas, cara emburradas, doenças somáticas, agendas queimadas, telefones grampeados, pânicos iminentes, medo e muita insegurança existencial. Fico a cultivar a nostalgia do passado, principalmente quando lembro de minha falecida mãe chamando-me para o almoço, no qual chegava sempre atrasado e chateado, pois acreditava que poderia ganhar a bolinha de gude e, mesmo assim, sorrir para o amigo que queria ver transformado em soldadinho de chumbo. Quanta ambivalência de sentimentos, quanto arrependimento, quanto ressentimento, quanta saudade, quanto desperdício, quantos homens... e, infelizmente, nenhum soldadinho de chumbo.


Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 21/10/2007
Código do texto: T703983
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros