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LIÇÕES DE VIDA

                                                   

                                                                                                     

   Sempre achamos possível conduzir nosso destino. Nem as pauladas que recebemos pelo caminho são suficientes para entendermos os desígnios de Deus.
   Em conversa com meus pais prometi coisas que achava não se tornariam realidade. Sempre preocupados com os oito filhos , imaginavam um futuro mais difícil para alguns de nós. E diziam: ¨Não deixem seu irmão morrer nas mãos do SUS¨. ¨Não permitam que um outro passe fome¨.
   Daí concluirmos que os filhos, mesmo velhos, continuam sendo nossas eternas crianças e admitimos que o velho João Romariz era uma pessoa acima de seu tempo.
   Estamos vivendo momentos cruéis com a doença do Sabino, nosso irmão mais velho, em coma na UTI da Santa Casa de Misericórdia de Maceió.
   Tal situação nos dá a visão perfeita da fragilidade do ser humano. Enquanto o irmão inteligente e espirituoso sobrevive à base de aparelhos e remédios, nós, da família, passamos dias e noites nas cadeiras das ante-salas aguardando notícias do paciente.
   Sendo pouco religiosa, tento agarrar-me nas mãos de Deus e fico conversando com meus pais, mortos há vários anos, para que ajudem ao filho tão sofrido.
   Os médicos e as enfermeiras da UTI já devem estar acostumados com casos iguais ou semelhantes ao de nosso irmão, mas procuram ser cuidadosos nas informações fornecidas à família do paciente.
   Querendo estar sempre perto do Sabino, procuramos médicos amigos e parentes, cujo ingresso à UTI é sempre possível e nos agarramos a eles na esperança de obter mais informações.
   Aí me vem a lembrança o menino danado, inteligente, sempre querendo mais e mais da vida. Gozador, brincava com a religião dizendo piadas a respeito de Deus e, principalmente da virgindade de Nossa Senhora.
   Lemos algumas de suas poesias recentes onde dizia que ¨fez da vida um brinquedo e confundiu interesse com amor¨.  Sentindo-se velho e rabugento, falava muito em morrer. Enfrentando várias doenças há muitos anos, divertia-se na hora de tomar diversos medicamentos. Mas, não largava o cigarro, por mais que pedíssemos, implorássemos.
   Teve 10 filhos e nesses dias de tratamento intensivo, todos estão a seu lado, independentemente de terem mães diferentes. Unidos, ajudam o pai a sobreviver. E tentam se ajudar.
   Quando éramos jovens e começamos a ter filhos, conversávamos muito e ele me dizia: ¨Alari, você vive para o futuro. Viva o presente!¨
   Inteligente, gostava de ler e escrever. Fez 4 vestibulares, passou em todos, mas não concluiu nenhum curso superior. A paciência era pouca.
   Fez um programa noturno na Rádio Nacional de Brasília e falava com pessoas do Brasil inteiro. Amava a comunicação e era o que sabia fazer com intensidade. Tentei substituí-lo em alguns programas mas a aceitação do público era bem menor.
   Na política não teve sorte: era ingênuo e foi engolido pelas raposas velhas, apesar de tentarmos aconselhá-lo a respeito dos tropeços que daria  por confiar demais nos outros.
   No amor, viveu intensamente cada momento da vida. Quando estava apaixonado, ficava cego e a mulher do momento era o retrato vivo da perfeição. Só depois de muita decepção, entendia a personalidade da amada.
   Ajudou a muita gente. Nesses dias entre a vida e a morte, chegam pessoas reconhecidas, dizendo que ele salvou um parente ou um conhecido. Cadeiras de rodas, cirurgias, casas próprias e outros tipos de ajuda  ele conseguiu para milhares de pessoas.
   Passa um filmezinho em minha cabeça quando estou sentada nas duras cadeiras da Santa Casa, de nossa feliz infância, excelente juventude, com bons irmãos e pais maravilhosos emoldurando o ambiente familiar. Hoje, lá está o Sabino brincalhão lutando para sobreviver e os amigos se juntam a nós familiares, sofrendo, esperando, rezando.
   Aí vamos aprendendo que a vida nos dá sérias lições: não adianta planejarmos passeios, viagens. De repente, o Homem lá de cima nos chama: volte para casa, seu irmão precisa de você.
   O Natal está chegando e nossa alegria não é completa. Os filhos e netos preocupam-se com o sofrimento dos velhos e perguntam pelo Tio Sabino, torcendo para que se recupere.
    Quando os leitores estiverem lendo este artigo, Deus talvez já tenha decidido o caminho do meu irmão mais velho. Estamos nas mãos Dele!
     
  * Dezembro 2005                                                                  
Alari Romariz
Enviado por Alari Romariz em 23/10/2007
Código do texto: T706054
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Sobre a autora
Alari Romariz
Paripueira - Alagoas - Brasil, 76 anos
7 textos (380 leituras)
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Alari Romariz