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SOLIDÃO: ÓTIMA IRMÃ, EXCELENTE COMPANHIA

"Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia". (Nietzsche)

Lúcio Alves de Barros
- é professor e sociólogo, licenciado e bacharel em Ciências Sociais pela UFJF, mestre em Sociologia, doutor em Ciências Humanas: sociologia e política pela UFMG

É curioso, mas creio explicável, o receio que a maioria das pessoas têm de ficarem sozinhas. Por quê? Muitos vão se aventurar pelos ventos do senso comum e dizer que a “solidão é fera” e que a “solidão devora”. São palavras, poesias e músicas que alimentaram e acabaram com o que o ser humano possui, talvez, de mais sublime: a capacidade de ficar bem na própria companhia. Na realidade, estamos lidando com um truísmo, haja vista a impossibilidade de ficar só. O problema reside é na representação que comungamos a respeito da solidão. Em outras palavras, os seres humanos são incapazes de encarar a própria face no espelho da própria vida.

As coisas ficam sérias nesse sentido, pois poucos aprenderam a arte de estar solitário. Pensemos nos finais de semana, nos picos de audiência da TV e nas festas e baladas noturnas que assolam a mente já vazia da maioria dos bípedes humanos. Um estranho que habita a alma de cada um  procura freneticamente o outro, seja em uma boate, em um hotel, bar, sindicatos, igrejas, partidos políticos ou lugares que nem é educado mencionar. Procuramos porque não nos suportamos. Para preencher a perda e o constante afetar do inconsciente projeto no outro o que me falta e, caso não consiga tal empreendimento, parto para as drogas,  para os porres, para “ficar” com qualquer corpo ou  para orgias sexuais e cultos religiosos que aliviam temporariamente a alma e o corpo já perturbado de nossa coletividade. Na ausência do outro desejado, destruo o “eu”. Mais que isso, é perceptível que muitos optem por culpar esse outro, seja ele o pai, a mãe, o irmão, a namorada (o) que já se foi, o marido, a esposa ou mesmo os filhos. Culpar o outro é a garantia de liberdade dos próprios grilhões.

Na verdade, penso que temos medo de não fazer parte de um todo. Separados de Deus, apelamos pelo perdão e desejamos que o melhor nos seja reservado na próxima vida (apesar de poucos apostarem na morte). Para os poucos que colocam a existência de Deus em dúvida, é preciso inserir alguma coisa no lugar: muitos procuram uma ideologia, outros um “amor”, uma dependência, alguns preferem determinadas corporações e outros se aventuram em comunidades, tribos, grupos e sociedades alternativas. Não podemos é permanecer solitários. Muitos, inclusive, até apostam no casamento, a despeito de terem a consciência de que longe estarem o amor, a cumplicidade, a lealdade, o companheirismo e a amizade incondicional. Sem isso, os largos passos para a infidelidade, a mentira e a traição é questão de tempo: se estou solitário no meu casamento, que seja um relacionamento o qual chamamos de namoro, tornou-se “lícito” procurar companhia fora dele e vamos empurrando a vida tal como pensamos que ela é. Como o vazio não será preenchido, haja vista a necessidade do eu e não dela, percebe-se, mais do nunca, um mercado de amantes e uma verdadeira indústria da infidelidade. São relações muito perigosas as quais não deixam de causar sérios danos. Dizem que as mulheres fazem escândalos e arrancam os cabelos, mas são as que mais retornam para o companheiro traidor. Quanto aos homens, alguns ainda perdem o precioso tempo na tentativa de matar, ameaçar ou “salvar a honra” e sair como vítima de uma relação na qual já não se encontrava elos. Provavelmente, a inexistência deles não é o verdadeiro problema. Ele já estava latente no elo - ainda em aberto - do próprio eu. Na incansável luta com a culpa são perceptíveis a mutilação e a idealização de um outro que poderia possuir o poder de edificar uma nova pessoa. Nela residiria o que ainda nos falta.

Na tentativa do preenchimento do vazio existente na alma, atualmente ainda é utilizada a alternativa da produção de filhos. Para não sentir o peso do que pejorativamente se convencionou denominar de solidão, homens e mulheres, talvez nas mulheres essa questão esteja mais presente, notadamente por causa da cultura machista e autoritária, estão praticamente fabricando crianças e não tendo filhos (as). A nova mãe, ou o novo pai, caso não tenham optado pela separação após o nascimento do novo ser, querem ganhar tempo e projetar na nova subjetividade a solução de todos os problemas, sejam eles de ordem pessoal, profissional, artístico, financeiro ou político. Suponhamos que o casal realmente separou ou que a mãe tenha apostado em uma maternidade solteira: o problema não muda de cenário, a não ser a possibilidade de intenso conflito e de rejeição, relações próprias de casais que não iniciaram a relação muito bem. Mesmo com a possibilidade de tantas variantes que inegavelmente interferem nessas relações, penso que o núcleo comum ainda é o mesmo: homens e mulheres estão apavorados pelo medo de ficarem solitários (as). Não suportam a idéia da finitude e de que as coisas no mundo da vida possuem início – talvez, meio – e, certamente, fim. Um  exemplo é quando os filhos crescem, mães e pais, mesmo os menos corujões, não deixam nunca de tratá-los como "minhas crianças". Isto nada mais é que o receio da perda. A perda nos afeta e tudo que pode afetar o nosso equilíbrio emocional - caso ele tenha realmente existido - tornou-se motivo de escândalo, desequilíbrio, terror e medo.

Creio que não há muitos equívocos em tais reflexões, contudo, não tenho dúvida que a solidão não é para qualquer ser humano. Solidão entendida aqui não como reza, principalmente, o senso comum ou o famigerado Dicionário Aurélio, mas a solidão como um profundo, especial e complexo momento de trabalho de busca, aceitação e entendimento do “eu”. Trata-se de um momento que é parte integrante da vida, o qual não podemos escapar. E creio que, nesse caso, é preciso tomar cuidado com a “loucura”, a perda da identidade ou da produção de muitas faces e máscaras, as quais poderão ser utilizadas no campo da ilusão e da incipiente preservação do eu na vida cotidiana. A sociedade e os grupos sociais comportam o seu lado fascista e a solidão aparece como chave para o indivíduo respirar e ver a profundidade das águas de sua escuridão. A solidão aparece como uma possibilidade de saída para novos encontros, sentimentos, identidades e percepções. Percepções da finitude das relações humanas, das pessoas, das coisas e da vida.  Mais que isso, é o momento em que podemos nos sentir "ser humano". A verdade é nua e crua: somos fracos, frágeis, vulneráveis, medrosos, preocupados, sedentos de amor, vida e eternidade. Nossa condição é essa e não deixa de ser cômico verificar quantos de nós deseja e se esforça por parecer justamente o contrário. Quem acredita na potencialidade da humanidade é, no mínimo, um ingênuo ou um cego diante das metamorfoses que vem pintando de novas cores o quadro da vida social.

A história da humanidade parece repetir em intensidade e complexidade os mesmos problemas os quais tem recebido aqui e ali novas roupagens. Veja o mercado de trabalho, poucos não têm o medo do desemprego, morremos de pavor só de pensar que os nossos lindos filhos possam cair no mundo das drogas, guardamos a sete chaves a virgindade de nossa filha ou filho como se ela fosse nossa, rezamos, nos sacrificamos e cobramos de Deus a todo o momento a salvação e pouco é o tempo para meditar e colocar as coisas em seu devido lugar, isso porque temos que trabalhar muitas horas, “cuidar” dos filhos, buscar notoriedade, “um lugar na sociedade”, o espetáculo e, como se diz, dinheiro a mais nunca é pouco. Para piorar a situação, temos pavor da velhice e da doença, pois além de nos jogar na cama, ambas espantam os "melhores" amigos e faz a felicidade dos piores inimigos. Fique doente e ficará só. Perca um ente querido e verá o quanto não é amado. Logo, verá que perdeu tempo com o outro, pensando no que a sociedade ia dizer ou fazer e esqueceu de você. Esqueceu da solidão, dos momentos de introspecção necessários a toda alma e coração. Será que foi por acaso que Jesus, o filho do mais Poderoso, ficou quarenta dias e quarenta noites em um deserto?
Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 03/11/2007
Código do texto: T721838
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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros