A LENDA DE ÍSIS E OSÍRIS


          Deuses incestuosos  

 

      A história do romance entre Ísis e Osíris é fascinante e continua, pelos séculos afora, inspirando as mais interessantes teorias e dando adubo à fertilidade da nossa imaginação. Pois ela é, claramente, um arquétipo presente na mente coletiva da humanidade desde os primórdios da civilização e pertence aquele conjunto de símbolos que a alma humana aprendeu a temer e reverenciar.     

     É uma história de amor e de fidelidade, que reverencia tanto os mais puros sentimentos que a pessoa humana é capaz de cultivar, quanto a sua relação com a natureza, no amor e no respeito que se deve votar a ela. Isso porque, no rico simbolismo que essa lenda representa, Ísis é a própria natureza, em cujo útero a vida é engendrada. Osíris é a semente que, lançada no útero da natureza, se torna a própria vida regenerada. E Hórus, o filho que nasce dessa relação de amor incestuoso e necrófilo entre os dois deuses irmãos, é o símbolo da vida que triunfa sobre a morte, vencendo o mal. 

    De uma maneira geral, todos os povos antigos viam seus deuses como entidades capazes de ter sentimentos e praticar comportamentos semelhantes aos seres humanos. Entre os egípcios não era diferente. Assim, uma complicada teia de relações amorosas (e incestuosas) está na origem desse fantástico mito. 

      No fundo, essas tradições refletem a própria vida social e política do povo egípcio, que fazia na pureza do sangue a força do clã. Isso levava as classes mais abastadas da sociedade egípcia a incentivar os casamentos consanguínios, entre membros de uma mesma família como forma de conservar a herança dentro de um mesmo clã.

     Era o que ocorria, principalmente na família real egípcia, onde a sucessão se fazia sempre pelo lado feminino, porque o faraó devia casar -se com a princesa do trono, que geralmente era uma irmã, ora por parte de pai, ora por parte de mãe, havendo casos em que a esposa do faraó era a sua própria filha. Tudo isso visava manter o poder dentro da própria linhagem, como garantia de uma longa dinastia. Não é por acaso, portanto, que essa tradição se reflita no comportamento dos deuses, já que, entre os egípcios, vigia o velho preceito hermético segundo o qual o que acontece no céu é igual ao que acontece na terra.

 

Romance cósmico

 

     Em síntese, o mito do Ìsis e Osíris pode ser considerado uma espécie de romance cósmico, cujas repercussões, na terra, refletiam na sociedade egípcia. A história desse romance dizia que o Deus Nut (o Céu), casou-se com sua irmã Geb (a Terra).             Desse casamento nasceram o deus Rá (o Sol) e a deusa Tétis (a Lua), que eram irmãos gêmeos. Numa segunda gestação, a deusa Geb gerou quatro filhos, chamados de Osíris, Ísis, Néftis e Sethi. Rá, o filho mais velho, com ciúmes dos seus novos irmãos, começou a tramar contra eles. Como não podia simplesmente matá-los, pois todos eram deuses como ele, procurou impedir que eles nascessem na terra. Foi assim que as crianças cresceram no ventre materno e lá viveram até a idade adulta.

       A convivência no útero materno fez com que eles se apaixonassem uns pelos outros. Assim, Sethi apaixonou-se por Néftis e Osíris por Ísis. Durante oito mil anos os dois casais de deuses irmãos viveram no ventre de sua mãe Geb, unidos em um ato sexual.  

      Mas um dia, não suportando mais as dores de manter em seu ventre tantos filhos, Geb pediu à sua filha Tétis para ajudá-la a parir os irmãos. Tétis, provocando um eclipse para evitar que Rá visse o que estava acontecendo, ajudou sua mãe Geb a dar a luz aos seus irmãos, e assim nasceram os casais Isis e Osíris, Sethi e Néftis.

      Postos para viver na terra, Osíris e Ísis se tornaram os deuses responsáveis pela civilização dos seres humanos. Ensinaram a eles a agricultura, a metalurgia, a arquitetura, a astrologia, a medicina e todas as demais ciências que instruem uma civilização. Sethi e Néftis e Set se tornaram deuses dos povos do deserto, gente rude e belicosa, que vivia do pastoreio e da guerra.  

     Néftis, no entanto, tinha uma enorme inveja de sua irmã Ísis, não só pelo fato de esta ser uma deusa venerada em muitas cidades, em templos suntuosos, enquanto ela só recebia o culto dos pastores e dos belicosos beduínos do deserto, mas também pelo amor que Osíris lhe dedicava, muito diferente do rude tratamento que lhe dava seu esposo e irmão Sethi.

      Assim, um dia, Neftis, sendo irmã gêmea de Ísis, da mesma forma que Sethi era de Osíris, se vestiu com roupas semelhantes às da irmã e se introduziu no quarto e no leito de Osíris. Pensando que estivesse na cama com Ísis, Osíris fez amor com Neftis. Desse amor nasceu o deus Anúbis, uma criatura com corpo de ser humano e cabeça de ave, que passou a ser uma espécie de guardião do mundo dos mortos. A ele foi entregue a incumbência de pesar as almas dos defuntos e ensinar aos vivos as técnicas de mumificação, para que os corpos daqueles que fossem admitidos no paraíso, se mantivessem conservados, em condições de receber o seu “ka”, quando ele ressuscitasse no outro mundo.  Essa crença é a origem da técnica de embalsamento de cadáveres desenvolvida pelos sacerdotes egípcios, que até hoje é admirada pelos cientistas.

     Anúbis, entretanto, como filho bastardo, foi abandonado pela mãe natural, pois esta temia a ira de Sethi, o marido traído. Assim, foi Ísis que o criou, com ajuda da própria mãe dele, Neftis, a quem perdoou pela traição, da mesma forma que também perdoou Osíris pela sua traição com a irmã. Afinal, ela havia sido cometida  por engano. 

 

A vingança de Sethi

 

     Mas Sethi descobriu a traição de sua mulher e resolveu bolar um plano para vingar-se do seu irmão Osíris. Com malícia e astúcia, ele conseguiu tirar as medidas do corpo de Osíris e mandou fazer um esquife de cedro, folheado a ouro e incrustado de pedras preciosas, do tamanho exato do corpo do irmão. Então, um dia, pretextando amizade e desejando prestar homenagens ao seu irmão, Sethi o convidou para um banquete em sua tenda, no deserto. Lá, na presença das pessoas mais importantes do Egito, ele fez aos presentes um desafio: “Quem tiver um corpo na medida exata desse caixão poderá ficar com ele como troféu”. Era uma peça extremamente valiosa e Osíris, vendo que ele se ajustava exatamente ao seu corpo, entrou no caixão, o qual foi lacrado imediatamente, pelo lado fora.

      O esquife, com Osíris dentro dele, foi jogado no rio Nilo. Levado pelas águas, ele foi parar no mar, e depois, apanhado por correntes marítimas, acabou sendo lançado à terra, próximo a uma cidade litorânea chamada Biblos, na parte mais afastada da costa marítima do Egito.

      Desesperada com o sumiço de seu marido, Ísis saiu em busca dele. Depois de informada da maldade cometida pelo seu irmão e cunhado Sethi, ela desceu todo o curso do rio Nilo à procura de seu esposo e irmão, e continuou sua procura pelo mar afora. 

      Entretanto, ao tocar a terra, em Biblos, o caixão ficou preso em uma tamarineira. Um dia, o rei de Biblos passou por aquele local e vendo a árvore, pediu que seus servos a cortassem e levassem para o palácio, para ser usada como coluna de um templo que ele estava construindo. Isis, sendo informada desse fato, disfarçou-se de serva e apresentou-se no palácio para trabalhar para a rainha, e logo que tivesse oportunidade, revelar-se e obter de volta o corpo do marido.

     Depois de algum tempo ela realizou seu intento e recuperou o corpo de Osíris. Mas a essa altura, depois de tanto tempo preso no esquife, Osiris já havia morrido, e Ísis, inconformada, estava procurando um meio de ressuscitá-lo com seus poderes mágicos.

    Informado do ocorrido, Sethi deu um jeito de sequestrar o esquife com o corpo do irmão e temeroso que Ísis pudesse recuperá-lo novamente, esquartejou o cadáver, cortando-o em vários pedaços, os quais sepultou em diversos lugares diferentes. Ao saber da nova maldade do seu invejoso e malvado irmão, Ísis saiu em busca dos restos mortais de Osíris, acabando por encontrar todos os pedaços, menos o pênis.

     Assim, Ísis conseguiu reconstituir o corpo de Osíris. Para substituir o pênis perdido, ela fabricou um falo artificial com um ramo de acácia. Depois dessa reconstituição, Ísis fez amor com o cadáver de Osiris, e desse ato nasceu Hórus, o filho que, mais tarde, vingaria Osíris, matando o malvado Sethi.

      Após o nascimento de Hórus, seu meio-irmão Anúbis, nascido da união de Osíris com Neftis, embalsamou o corpo de Osiris e deu início ao famoso rito funerário aplicado a todos os reis egípcios. Esse é o rito que está descrito no Livro dos Mortos. Por isso, Anúbis se tornou o deus da mumificação e Osíris foi a primeira múmia da história. Osíris tornou-se também o deus dos mortos, que guia as almas dos defuntos através da Tuat, o temível território de trevas que as almas devem atravessar até chegar ao centro luminoso de Rá, o deus Sol, onde elas se tornam astros, que passam também a ser cultuados como deuses. 

 

         O pênis de Osíris

 

     A lenda de Isis e Osíris, claramente, é uma reminiscência de antigos cultos da fertilidade, praticados por povos antigos, desde as mais remotas eras. Releva a capacidade que a natureza tem de transformar em vida uma semente morta. Por isso Ísis é vista como sendo a Deusa- Mãe Universal, símbolo da natureza, em cujo útero a semente morta readquire a vitalidade e desperta para uma nova vida.

    E é aqui que o simbolismo do pênis de Osíris encontra a sua mais perfeita significação nesse culto à fertilidade. Por que, segundo a lenda, Sethi teria cortado o pênis de Osíris e atirado nas águas do Rio Nilo, onde um peixe o teria comido. Por isso, Ísis conseguiu encontrar todos os pedaços do corpo do marido, menos o órgão viril dele. Mas Ísis, com seu poder, fabricou um falo artificial, a partir de uma planta, a acácia.

      A acácia era, no antigo Egito, reconhecidamente, uma planta que tinha poderes mágicos, tanto que ela simbolizava o poder de ressurreição. Diz-se que os faraós, ao sentirem a proximidade da morte pediam aos seus servos que os colocassem em baixo de um pé de acácia, para que os poderes dessa planta auxiliassem suas almas no trabalho de ressurreição do seu “ka”. Essa também é a razão de várias sociedades secretas, incluindo a Maçonaria, utilizarem essa planta em seus rituais como símbolo da ressurreição.

      Voltando à lenda, foi com esse falo artificial que Ísis engravidou, dando nascimento a Hórus, o filho que simboliza a vitória do bem sobre o mal com a morte de Sethi pelas mãos de Hórus e o nascimento da esperança de uma ressurreição para o ser humano, pois Osíris, o deus que procria mesmo depois de morto, é o símbolo da semente que transmite a sua herança genealógica para sempre, fazendo com a raça humana se torne perene.

      O simbolismo que a lenda transmite é patente. O pênis de Osiris é o homem, que planta a semente no útero da terra. O corpo de Osíris simboliza a própria natureza dilacerada e mutilada..Ele é reconstituído através de uma demonstração de amor de Ísis e pela fé na própria capacidade da natureza em reconstituir a si própria.  Releva também, o fato de que a fertilidade masculina ser uma qualidade que só pode ser despertada pela mulher. 

     A Lenda de Ísis e Osíris é uma história de terror e amor ao mesmo tempo. Um amor que transcende todos os limites e simboliza o poder que a virtude feminina tem para gerar a vida e resgatá-la mesmo das garras da morte. Um misto de assustadora fantasmagoria, temperada com um delicado erotismo está presente nessa lenda arquetípica. E que, no fundo, é a fonte de toda a simbologia que se refere à vida, à morte e a esperança de ressurreição. Esperança essa que é o pão de nossas almas. Por isso essa lenda continua, até hoje, a despertar a nossa curiosidade e a nossa imensa admiração.