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A Figura Feminina Entre o Silêncio e a Voz

A figura feminina entre o silêncio e a voz

Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura em 1982, nasceu em Aracataca, um povoado pobre da costa norte da Colômbia. Publicou 22 obras, a última em 2004, “Memórias de Minhas Putas Tristes”, e a mais emblemática, “Cem Anos de Solidão”, publicada pela primeira vez em 1967. Márquez, com sua imensa sensibilidade para narrar jornalisticamente suas histórias, torna-se uma figura um tanto enigmática e um dos maiores escritores latino-americanos de todos os tempos, sendo dono de uma escrita inconfundível, o realismo fantástico, mesclado à narrativa jornalística.
Partindo da premissa de que a mulher ganha voz nos escritos de García Márquez, proponho-me a tecer uma análise comparativa do dois de seus contos, “Me alugo para sonhar”, e “O avião da Bela adormecida”. Esses contos, ora saídos de algo entre o sonho e o pesadelo, ora nascidos da realidade um tanto desmedida, exploram o lado humano nas relações diante de situações inusitadas, insólitas e inquietantes.
Em meio a um universo quase sempre masculino, ou muito masculinizado, em que, frequentemente, as mulheres são tratadas como fúteis e racionalmente limitadas, e os homens como seres movidos por inquietantes desejos de ascensão social, Márquez constrói uma trama, em que as personagens vão ganhando algumas dimensões no campo psicológico e atuando entre o mundo mágico e a própria manifestação da realidade.
O conto “Me alugo para sonhar”, reflete, em primeiro plano, a forte presença da mulher na sociedade e, em segundo plano, um casual devaneio, uma possibilidade que pode ser entendida como simplesmente onírica. Frau Frida, a protagonista do conto, exerce domínio e, através de suas palavras, condiciona o comportamento de quem a cerca. Seus “sonhos” indicam o caminho que deve ser seguido e, a interpretação desses, é “criada” pela própria protagonista:
“Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho. Mas Frau frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.
- O que esse sonho significa – disse – não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doce”.
Notadamente, a mulher assume um posicionamento dominante, incutindo as suas verdades e sendo um ponto de resistência dentro desse meio social potencialmente masculino. Teresa de Lauretis (1994), ao se remeter à questão de que a mulher se vale de um ponto mais fraco para obter seu destaque, atesta que “...essa negatividade da mulher, o fato de ela carecer das leis e dos processos de significação ou de transcendê-los, tem a sua contrapartida na teoria psicanalítica pós-estruturalista, no conceito da feminilidade como uma condição privilegiada, uma proximidade à natureza, ao corpo, ao lado maternal, ou ao inconsciente”. Frau Frida utiliza-se desse artifício feminino e, sendo a “mãe” das situações, impunha suas vontades e desejos de uma forma sutil, mas marcante, dócil e, ao mesmo tempo rígida.
A mulher posiciona-se como dominadora, mas essa dominação, praticamente foi-lhe imposta pela própria sociedade: “Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena”. Isso prova que a vida exigiu-lhe uma decisão e, essa decisão é que lhe deu destaque e certa respeitabilidade.
A “venda” dos sonhos de Frau Frida, podem muito bem figurar como a forte necessidade que a sociedade tem de sustentar alguns sonhos, desejos e ilusões que servem de apoio e até consolo. Sonhos que satisfazem, mesmo que momentaneamente, o desejo de ser ou possuir algo, que emanam a força necessária para que o caminho seja seguido e permitem vislumbrar algo a mais que se esconde nas sinuosas curvas do futuro. Frau Frida representa a magia que está depositada no inconsciente. Magia que permeia a ficção e a realidade e que é fonte preciosa em toda a sociedade, pois dela provêm às forças que dão suporte ao intenso desejo de antecipar os fatos, prever e adivinhar acontecimentos e, com isso, manter viva a ilusão que tão bem governa o espírito humano.
Em “Me alugo para sonhar”, a voz feminina reina e decide a direção das vidas que a cercam: “...só ela podia decidir, na hora do café da manhã, o que cada um deveria fazer naquele dia...”. As palavras proferidas pela mulher, assumiam forma de verdadeiras sentenças a serem rigidamente seguidas e, qualquer comportamento que se desviasse do caminho enunciado por ela, desencadearia possíveis sofrimentos e desilusões, afinal, o antever o futuro vinha para evitar surpresas e decepções e ela, Frau Frida, estava nessa labuta com o intuito de evitar, a todo o custo, dissabores e sobressaltos.
Já em “O avião da Bela adormecida”, a mulher é simbolizada pelo silêncio, mas um silêncio que assume dimensões mais precisas que a própria ordem emitida verbalmente. A mulher, envolta em mínimas palavras, com poucas atitudes, domina toda a situação, fazendo tudo girar ao redor desse seu comportamento. A figura masculina age somente em resposta a esse comportamento: “Foi uma viagem intensa. Sempre acreditei que não há nada mais belo na natureza que uma mulher bela, de maneira que foi impossível para mim escapar um só instante do feitiço daquela criatura de fábula que dormia ao meu lado”.
A quase que total ausência da fala feminina em “O avião da Bela adormecida” liga-se à forte atuação verbal de Frau Frida em “Me alugo para sonhar”. Ambas as mulheres dominam a situação, uma pela forte significação do silêncio, a outra, pela ordenação verbal.
A figura masculina, em ambos os contos, exerce a função de suporte para a atuação feminina. Em “Me alugo para sonhar”, a mulher é independente e tem poder de decisão próprio, assumindo uma posição de destaque frente ao mundo masculino. Seu comportamento e suas ordens regem a vida, principalmente a vida de homens: “...seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem”. Mulher real ou fictícia, coagia a todos com suas palavras vindas do mundo onírico.
Em “O avião da Bela adormecida”, a mulher exerce domínio pela beleza, tanto que ela é conhecida por “Bela”, designação atribuída pelo personagem masculino. O homem lhe atribuiu esse adjetivo, e ela, sem palavras, acaba por condicionar o comportamento masculino, apenas por ser “Bela”. Nesse sentido, não há nenhuma manifestação em favor da mulher, somente é expressa a vontade masculina e a forma como o homem percebe a mulher: fonte de desejos e símbolo de conquista.
A organização espacial termina por mostrar que o universo feminino era fechado à presença masculina. O fascínio que isso exerceu no homem fez com que ele fosse imaginando o mundo dessa Bela mulher. Ele, movido pos atrações, despertas pelo físico da mulher, admite-se apaixonado por essa figura e completamente preso nesse mundo feminino, mas apenas como espectador, não como sujeito da ação, estando condicionado à vontade feminina: “fiz um jantar solitário, dizendo-me em silêncio tudo que teria dito a ela, se estivesse acordada”.
Percebe-se que o homem era coagido pela atitude da mulher, mas, em seus pensamentos, revelava o domínio da situação, revelava o controle da possível relação homem-mulher. Lauretis (1994), quando discorre acerca da relação homem e mulher, diz:
“Dentro do ‘senso comum’, as sexualidades masculina e feminina aparecem como distintas: a sexualidade masculina é considerada ativa, espontânea, genital, facilmente suscitada por ‘objetos’ e pela fantasia, enquanto que a sexualidade feminina é vista em termos de sua relação com a sexualidade masculina, como sendo basicamente expressiva e responsiva à masculina”.
O simples fato de a mulher estar no mesmo ambiente que o homem, o faz imaginar uma relação entre os dois. A impossibilidade de executar seus planos, o deixa sem reação, pois a sociedade, extremamente paternalista, atribui ao homem todas as ações, desde a conquista feminina à plena atuação e domínio do campo profissional. A mulher figura quase como uma peça na vida do homem, uma peça que lhe dá o suporte necessário para que esse consiga obter seus destaques e reconhecimentos dentro da sociedade.
García Márquez, ao silenciar a mulher no conto “O avião da Bela adormecida”, demonstra que ela tem poderes para influir no comportamento masculino, mas esses poderes vinculam-se diretamente à questão sexual, deixando de lado tudo aquilo que não se enquadra na figura feminina como fonte de desejo do sexo oposto.
A mulher é retratada pelo prisma masculino, o foco direcionado a ela é estanque e recai, com facilidade, nos atrativos físicos, porém, é o próprio comportamento que ela assume perante a figura masculina, que desencadeia toda a trama. O “não ver” o homem, acaba por despertá-lo e deixá-lo preso a ela, estando muito próximo fisicamente, mas distante de realizar o forte desejo de ser notado por ela. Observa, claramente, a distância que existe entre o desejo e a realidade que se apresenta ele:
“Como não parecia ter mais de vinte anos, me consolei com a idéia de que não fosse a aliança de um casamento e sim de um namoro efêmero. ‘Saber que você dorme, certa, segura, leito fiel de abandono, linha pura, tão perto de meus braços atados’, pensei, repetindo na crista da espuma de champanha o soneto magistral de Gerardo Diego.
Em seguida estendi a poltrona na altura da sua, e ficamos deitados mais próximos que numa cama de casal. O clima de sua respiração era o mesmo de sua voz, e sua pele exalava um hálito tênue que só podia ser o próprio cheiro de sua beleza”.
Uma questão que paira nas entrelinhas dos contos é o fato de a mulher ser independente, mas essa independência estar diretamente vinculada ao comportamento masculino. Frau Frida é independente, porém, responde às vontades de homens que querem adiantar os acontecimentos futuros; Bela, é independente, no entanto, sua liberdade recai na simbologia que o ser feminino representa em toda a sociedade. A mulher é símbolo de segurança e estabilidade emocional e seus comportamentos seguem a linha do socialmente correto e aceito perante os olhos masculinos. Elaine Showalter (1994), ao especificar a condição feminina, diz: “(...) A linguagem feminina deve, por sua própria natureza, lidar com a vida apaixonadamente, cientificamente, poeticamente, politicamente de forma a torná-la invulnerável”. Cabe à mulher, segundo a visão patriarcal, atuar na representação da vida familiar com doçura e esmero totais, deve tecer sua atuação e sua linguagem dentro do discurso masculino o que acaba por silenciá-la e deixar recair sobre o homem todo poder de criação e decisão.
Em contrapartida a isso, temos, em ambos os contos, a presença do poder de decisão feminino. Em “Me alugo para sonhar”, Frau Frida assume a posição dominadora e impõe seu “pensamento”: “Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos”. O mesmo ocorre em “O avião da Bela adormecida”, quando a Bela dá ordens ao comissário, porém, isso é relatado a partir da voz masculina: “...e pediu ao comissário, primeiro num francês inacessível e depois num inglês um pouco mais fácil, que não a despertasse por nenhum motivo durante o vôo. Sua voz era grave e morna e arrastava uma tristeza oriental”.
Há, porém, outro ponto de destaque, o próprio fato de a mulher ter medo e, diante desse medo, uma das personagens, Frau Frida, arranja um modo de ganhar a vida, vendendo seus “sonhos”, a outra personagem, a Bela, diante de um medo, cala-se e dorme profundamente, recolhida no sossego temporário do sono. Isso nos remete ao conto de fadas “A Bela Adormecida”, que, enfeitiçada, dorme um sono inabalável e somente será desperta pelo beijo de um príncipe que romperá o feitiço e será seu verdadeiro amor. García Márquez faz alusões a esse respeito, pois a Bela de seu conto pode estar também à espera do seu príncipe encantado, sendo tão vulnerável quanto à personagem do conto de fadas e o homem que está ao seu lado, não toma a atitude para libertá-la desse “sono”, por isso talvez, ele lhe atribua “uma tristeza quase que oriental”.
O autor, ao trazer à tona, a origem dos sonhos, dá pistas que levam a crer que Frau Frida criou uma forma para sobreviver, “...sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver”. Essa artimanha confirma-se com o próprio comportamento dela, ao ouvir isso, deixando pairar um ar de dúvida e de chacota, “Frau Frida, soltou uma gargalhada irresistível”.
O desejo masculino se torna tão obsessivo a ponto de imaginar cenas um tanto românticas, porém, ilusórias aos olhos humanos, mas verídicas sob a ótica das suas fantasias: “Em seguida estendi a poltrona na altura da sua, e ficamos deitados mais próximos que numa cama de casal. O clima de sua respiração era o mesmo da voz, e sua pele exalava um hálito tênue que só podia ser o próprio cheiro de sua beleza”.
A descrição da mulher em “O avião da Bela adormecida”, demonstra o forte poder de domínio e atração que a figura feminina exerce sobre o sexo masculino. Mesmo não tendo a intenção de seduzir o homem, acaba por exercer o domínio dos seus pensamentos, no começo, pelo simples fato de sua vestimenta e, posteriormente, por toda a sua conduta: “Estava vestida com um gosto sutil: jaqueta de seda natural com flores tênues, calças de linho cru, e uns sapatos rasos da cor das buganvílias. ‘Esta é a mulher mais bela que vi na vida’, pensei, quando a vi passar com seus sigilosos passos de leoa”.  Márquez faz um paralelo entre a fragilidade feminina, observada nas cores das roupas e a firmeza, vista na figura da leoa. Atribuindo passos de leoa à mulher, já dá indícios fortes que ela atuará sobre o homem, porém, de forma suave como a própria tonalidade de suas vestes.
O forte e misterioso poder de atração da figura feminina silencia as atitudes masculinas e conduz seus pensamentos por caminhos obscuros e fantasiosos, fazendo o homem fugir da realidade e viajar sem rumo para o mundo efêmero e onírico criado pela Bela: “Então contemplei-a palmo a palmo durante várias horas e o único sinal de vida que pude perceber foram as sombras dos sonhos que passavam por sua fronte como as nuvens na água”.
Márquez, ao mostrar que a mulher tem existência e pode figurar como um ser com decisões próprias, faz menção à posição que ela ocupa nas relações e na vida social. Michelle Perrot (2007), ao fazer referência à figura feminina e o espaço que essa ocupa diz: “Elas atuam em família, confinadas em casa, ou no que serve de casa. São invisíveis. Em muitas sociedades, a invisibilidade e o silêncio das mulheres fazem parte das coisas”. O mundo, masculino em sua essência, desloca a mulher para a margem de toda a existência, deixando-a ficar como expectadora da vida do homem, permeando entre o silêncio e o esquecimento.
García Márquez ao dar existência à figura feminina em seus contos, dá provas de que ela atua na vida e tem força para sustentar seus desejos. Frau Frida “inventa” um modo de viver e mantém todos envoltos nesse seu universo que, ilusório ou real, lhe dá meios para sobreviver e firmar-se na sociedade. Bela, no silêncio do seu dormir, faz o homem tecer hipóteses e perambular no caminho do vir a ser. Homem e mulher convivem e, nesse conviver, são tramadas soluções para cada um atingir seu ideal e realizar seus desejos e sonhos.
O forte poder de criação do autor se faz presente e consegue nos envolver em seus devaneios e invenções, em seus caminhos pincelados pela magia e por um processo de metamorfose, onde tudo pode vir a ser. É nesse mundo que reside o fantástico de um escritor, como o próprio García Márquez afirmou ao se referir aos seus escritos: “...me parece que é necessária uma enorme irresponsabilidade para ser escritor”. Irresponsabilidade que permeia o mundo mágico e envolve o leitor nesse mundo ficcional, deslumbrando-o com sua literatura pensante. Márquez, ao trazer à tona um pouco do universo feminino, firma algumas idéias, como, por exemplo, a sólida possibilidade que a mulher tem de sustentar-se e viver sem ser dependente da figura masculina. Mostra-nos que, por opção ou por mero acaso, a mulher traz uma força interna que a impulsiona na direção das conquistas e lhe põe na mão a bandeira da vitória, sem estar atrelada a um homem especificamente.
O silêncio e a voz feminina foram bem representados por García Márquez nesses dois contos analisados. A mulher atua como defensora de seus ideais de libertação frente ao universo masculino. Sua voz ganha força na tênue e singela figura de um ser feminino que age com delicadeza e perspicácia para alcançar seus sólidos objetivos: sobreviver em uma sociedade patriarcal, sendo reconhecida e respeitada pelos homens. O silêncio, que também marca a conduta feminina, pode ser interpretado como uma revolta aos comportamentos, mandos e desmandos masculinos, ou, sob outro ângulo, o silêncio revela a esperança que a mulher ainda tem de ser vista como frágil, porém, com decisões próprias. A voz e o silêncio figuram como pares e, ao fazer essa união um tanto insólita, Márquez nos mostra que a mulher tem representação perante o homem e consegue manter-se presente na sociedade, mesmo sem estar diretamente amparada ou protegida por um ser masculino. Voz e silêncio atuam como componentes decisivos para a conduta feminina e acabam por mostrar que, tanto um como o outro, tem força suficiente para sustentar a mulher dentro desse universo potencialmente masculino, mas que necessita do requinte e da delicadeza feminina para constituir-se como tal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
LAURETIS, Teresa. A tecnologia do gênero. In:______HOLLANDA, Heloísa Buarque (org). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
PERROT, Michelle. Trad. Ângela M. S. Correa. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007.
SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território selvagem. In:______HOLLANDA, Heloísa Buarque (org). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
Site: http://www.pt.wikiquote.org/wiki/Gabriel_García_Márquez
Analena
Enviado por Analena em 25/02/2008
Código do texto: T875635
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Sobre a autora
Analena
Veranópolis - Rio Grande do Sul - Brasil, 40 anos
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